Através da história “Pássaro da alma” consegui não só ir ao encontro das necessidades e interesses deste grupo de crianças, como também abordei, acredito de forma respeitosa e séria, o Projeto Pastoral do Colégio que tem como tema “Com Maria, desperta a luz que há em ti”, retratando essa “luz” e entendendo-a como um conjunto de capacidades que cada um tem dentro de si: a bondade, a compaixão, a gratidão, o respeito, entre tantas outras; as quais deverão ser projetadas não só nas pessoas, mas em todos os seres vivos, nomeadamente nos animais e na natureza.
Assim, com esta intervenção, pretendi perceber a forma como as crianças olhavam para o mundo, com vista a alargar a sua perspetiva no que toca às emoções e ao saber sentir. Para mim, saber sentir implica não só o contato com a dimensão do eu e do outro, mas mais que isso, deverá alargar-se a uma dimensão maior, a do mundo e de todos os seus seres. Saber sentir, implica também ser consciente do respeito e da gratidão que devemos ter perante a generosidade daquela que é a nossa casa.
Servi-me, por isso, da figura do pássaro da alma para fazer a ponte entre as pessoas (que sentem) e os seres vivos (que também sentem como nós). Curioso foi também perceber que é o pássaro quem nos ajuda a gerir as nossas emoções, portanto, pudemos constatar que também é na natureza e nos animais (e não só em nós próprios) que podemos encontrar o equilíbrio e as respostas para lidarmos connosco.
Perguntas como “Esta história fala-nos sobre o quê?”, “Quem é o pássaro da alma?”, “Onde é que ele mora?”, “O que é que ele guarda?” e “O que é a alma?” (Apêndice XXI) serviram de linha condutora para juntos refletirmos sobre esta temática das emoções e do que realmente é saber sentir.
Foi após a leitura desta história, na sequência da atividade que se desenrolou posteriormente, a construção do mural “Vida com cor”, que, entre muitas afirmações e reações, houve uma que me saltou à vista por mostrar um entendimento e uma lucidez grandiosa que sabemos existir nas crianças: “…Então quer dizer que todos os seres vivos têm alma.” (Criança J). Esta afirmação foi como uma lufada de ar fresco, indicando-me que o caminho até então traçado estava a dar frutos e que, adiante, me poderia oferecer muito mais.
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Com a história “Pássaro da alma”, capacidades como a persistência, a resiliência, a capacidade de gerir a frustração e, também, a criatividade (a qual capacita a criança para encontrar respostas e soluções para os seus problemas), foram postas em palco, desenvolvendo-se de forma subjetiva, como nos mostra o seguinte trecho do Diário nº1.
Depois do conto da história, partimos para outras atividades de expressão plástica, de acordo com os interesses expressados pelas crianças, as quais tiveram sempre como denominador comum, as emoções. Por ser também objetivo da educadora o reconhecimento das figuras geométricas (círculo, quadrado, retângulo e triângulo), propus às crianças construirmos o nosso pássaro da alma (individualmente) com recurso à técnica de dobragem de papel (desenvolvendo, entre outras capacidades, a motricidade fina). Cada criança construiu o seu pássaro da alma através do contorno, recorte, dobragem e colagem das diferentes formas.
Após a concretização desta atividade, num momento de conversa sobre o que havíamos construído, as crianças sugeriram a construção de “casinhas” para os pássaros da alma. Deste modo, (e recorrendo, também, ao projeto da reciclagem) utilizámos pacotes de leite e de sumo para fazer as casinhas, bem como, cartão e caruma para os telhados.
Quando iniciámos a colagem da caruma (que as crianças apanharam da mata do colégio) no telhado das casinhas, percebemos nesse momento como difícil era mantê-la devidamente colada. Face a esta situação, algumas crianças mostraram calma, paciência e perseverança, continuando a tentar colar mesma com dificuldade, porém, outras demonstraram logo bastante frustração e inquietação, querendo logo desistir. Aqui a minha intervenção teve papel fundamental, na medida em que tentei valorizar o processo e não o resultado; fazendo perceber que é preciso trabalhar para chegar aos nossos objetivos e que, por outro lado, se não desistirmos conseguimos encontrar uma solução para os nossos problemas.
Assim sendo, sugeri que, já que o material que recolhemos não estava a resultar, olhássemos em volta para o que havia dentro da sala de atividades e encontrássemos outro material para o telhado das casinhas. Logo, a criança «D» reparou num pacote de palhinhas que servira para outra atividade. Face a esta sugestão, questionei as crianças sobre o que
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achavam. Elas ficaram entusiasmadas e retomaram a atividade com ânimo, pois as palhinhas já eram fáceis de colar e o resultado também ficava interessante.
(Diário nº1, 4 de dezembro de 2016)
Este momento, aparentemente banal, mostrou ser bastante enriquecedor para ambas as partes. Como futura educadora, confirmei o quão importante é estarmos atentos a todos os momentos, pois são sempre geradores de aprendizagem. Mais importante, descobri o verdadeiro significado de ser-se educador(a): ser orientador(a) e supervisor(a) dos percursos de aprendizagem de cada criança. É estar atento sem dar respostas; abrir- lhes caminho para que o percorram da melhor forma possível, na sua individualidade e autenticidade.
Para as crianças, mostrou ser um momento de lucidez e de contato com o seu interior e as suas emoções. Saber que por vezes as coisas não correm de feição e que ultrapassar essa (e outras) dificuldade(s) é algo com que nos debatemos a vida toda. Experienciar a frustração da dificuldade e, depois, a satisfação de conseguir, é um exercício difícil e extenuante, mas importantíssimo para a nossa formação e construção enquanto seres humanos.
Deste modo, para minha surpresa, proporcionaram-se aprendizagens relativas ao saber fazer mas, principalmente, relativas ao domínio do saber ser, nomeadamente, no que diz respeito ao desenvolvimento da inteligência emocional das crianças.