As cidades antes integradas ao campo, agora se unem em enormes conglomerados urbanos e formam grandes regiões metropolitanas. Essa modificação, no modo de organização do espaço estabelece uma revolução que atinge aspectos materiais e se estende a modificações na semiótica sócio-cultural. Segundo Lotman (1996, p.233, tradução nossa) “[...] o mundo material que rodeia o homem, que ocupa seu espaço cultural, não tem apenas uma função prática, mas também uma função semiótica. A brusca troca do mundo dos objetos que atinge as normas”.
O desfile das escolas em São Paulo gera uma estrutura gigantesca, na qual se destaca o seu caráter eminentemente urbano. Há um acúmulo de trâmites, pessoas, instituições públicas ou privadas que vislumbram na organização dos desfiles de carnaval, a possibilidade de ver atendidos os mais diversos interesses.
A cidade é como um mosaico, com diferentes construções, compostas de uma heterogênea trama sócio-cultural. Este cenário moderno é moldado com diferentes estilos de vida que se conectam e se estruturam como uma rede de relacionamento. Saberes culturais, originados das diferentes classes sociais, unidos aos interesses da indústria cultural, e tornam- se ingredientes que se aglutinam e se chocam nas negociações pessoais. É a comunhão entre do formal e o informal, ou entre o moderno e o religioso, presentes numa intrincada relação comunicativa.
Neste sentido, um barracão de uma escola de samba, em uma das maiores metrópoles do planeta como São Paulo, expande a questão semiótica para além do seu próprio espaço e por isso não apresenta um caráter homogêneo, pois o dinamismo e a flexibilidade estarão presentes. Neste local, onde se constroem as alegorias de um desfile de carnaval há uma presença constante de textos elaborados, com diferentes códigos, que perdidos ou percebidos, se reconstroem. Para Lotman (1996, p.31, tradução nossa) “[...] textos com códigos perdidos
conduzem a um processo de criação de novos códigos, muitas vezes são percebidos subjetivamente como uma reconstrução de códigos velhos”. O autor acrescenta que as relações verticais se mesclam à informalidade dos componentes da equipe de produção, em forma de vínculos complexos. Um intercâmbio de semelhanças e diferenças (LOTMAN, 1996, p.32).
O carnavalesco, em seu trabalho, capta ruídos e tenta saná-los. Percebe o fluxo de informações e com sensibilidade e segurança as transforma em ações equilibradas a favor de uma estética arquitetônica. É um sistema dialógico, com intercâmbio de informações e interferências recíprocas. Um jogo onde o novo penetra no espaço existente e, quando valorizado, modifica a plástica dos objetos. Além disso, precisa considerar que, no espaço urbano, prevalecem mais os processos do que as coisas. Tudo é rápido e instantâneo: celular, fax, computadores, cartões de crédito ou banco. As inovações tecnológicas se aglutinam e interferem nos hábitos de consumo. Este tempo que é criado no espaço da cidade reflete no trabalho e decisões da rotina do carnavalesco. O tempo urge e a equipe de produção tem que acompanhar este mesmo ritmo frenético para a construção do cenário do espetáculo.
O tema que coube a Raul Diniz desenvolver, para o desfile de 2006, foi a história de São Vicente, tema este que segue outro padrão temporal do que é vivido pelo carnavalesco em sua rotina urbana. Primeira vila fundada no Brasil há quase 500 anos, São Vicente, à beira mar, traz traços de construções antigas, com muitas ruas estreitas que congestionam o trânsito trazido pelo progresso. Marcas de uma época em que o caminho da serra do mar, que ligava esta cidade à capital São Paulo, era percorrido em quatro ou cinco dias. Hoje não se leva mais que 50 minutos para fazer este mesmo percurso. Holanda (1986, p.42) nos ilustra este fato: “Em 1579 gastavam-se quatro, quando muito cinco dias para ir de Piratininga à costa do mar[...] Dois séculos mais tarde reduzira-se este, na melhor hipótese, a três dias, embora muitos ainda preferissem fazê-la em quatro [...]”.
No século XXI, no ambiente urbano, cada decisão requer agilidade e rapidez. A equipe do barracão incha e o trabalho aumenta quanto mais próximo se cerca da data do desfile. As decisões são dadas por Diniz, que acompanha o processo e necessita ter olhar de 360 graus, pois a gama de pessoas envolvidas é grande. Construir com as diferenças, com fusões e intercâmbios, é o paradigma vivido nos barracões das escolas de samba, um espaço de diversidade e interlocuções onde se torna possível alcançar, em conjunto, a materialidade da obra que é ali construída. Um trabalho fielmente coletivo e com características da cultura popular.
Para a construção das alegorias, a equipe de profissionais nas diferentes funções, precisam seguir etapas lógicas e seqüenciais. As informações, através das representações, símbolos e esquemas, que se estruturam no percurso da montagem dos objetos, como as alegorias, devem respeitar e atender às produções individuais e coletivas dos profissionais envolvidos, para que todos consigam fazer a leitura e desenvolver o projeto do carnavalesco. Neste espaço dinâmico, o espírito entre os participantes que integram o grupo deve ser o de cooperação.
No local, a comunicação escrita ou gráfica é pouco usada e desenvolvida. O que prevalece é uma dinâmica de exercícios empíricos, com idéias e ações, aprovações ou reprovações, praticadas a partir de discussões quase que exclusivamente de cunho oral.
Diniz esclarece que a linguagem usada por ele deve ser simples, quer na forma oral ou gráfica. Desenvolver alegorias em escalas, para apresentar a determinadas equipes de produção, torna o diálogo impraticável. Idéias abstratas, então, tornam-se ainda mais difíceis de serem compreendidas. Nos vários depoimentos, ele sempre afirma que a mão-de-obra de que se dispõe no carnaval de São Paulo é leiga, pois, em sua maioria, além de não manter uma constância, os trabalhadores não apresentam conhecimentos técnicos. Atualmente, muitos deles vêm do norte do país, do Amazonas, mais especificamente, de Parintins. São profissionais extremamente habilidosos para desenvolver atividades específicas, como as esculturas com movimentos, mas muitos deles sem o preparo para praticar leituras gráficas.
A vida coletiva, que se apresenta no barracão, é constituída de experiências cumulativas. A memória cultural trabalha com acontecimentos e experiências e dá continuidade, no processo de reconstrução, de uma identidade coletiva.
O mesmo dinamismo e complexidade, do qual é feito o carnaval, espelham-se no perfil dos profissionais que dão vida aos carros alegóricos. Fazem uso de suas habilidades enredadas à convivência e interpretam as informações orais do carnavalesco e dos colegas no desenvolvimento dessas gigantescas obras20.
No barracão da Vai-Vai, em 2006, com mão-de-obra direta para a construção das alegorias, estimam-se 33 pessoas. Para produzir as 4.000 fantasias, que vestirão os foliões, podemos multiplicar esse número pelo trabalho dos muitos profissionais que se envolvem
20 As alegorias são estruturadas sobre carrocerias de caminhões. É comum, para o CAA, serem usadas mais do
que uma carroceria de caminhão, que emendadas, podem chegar a 100 metros ou mais de comprimento. Para engrandecer o carro nas laterais são encaixados os queijos, suportes onde ficam as composições. A altura é imposta pelo limite da passarela, ocupada pelas câmeras da emissora de tv responsável por transmitir o espetáculo, além da altura do portal da entrada para a avenida. As medidas das alegorias, em comprimento, são determinadas pela LIGA de forma que, o conjunto de carros de cada escola, possa ocupar a área disponível, que permita mantê-los acomodados enquanto estão fora do desfile.
nesta produção: os chapeleiros, sapateiros, costureiros, bordadeiras, aramistas e aderecistas entre outros, de acordo com a necessidade. O resultado é uma enorme população que se imbrica numa rede que envolve os que usufruem, produzem ou orientam o trabalho. Uma realidade compatível com o espaço urbano e metropolitano do qual elas e o carnavalesco fazem parte.
Quando tratamos de grandes grupos coletivos, como o da escola de samba, um fator relevante que deve ser mencionado, e que trazemos de nossos ancestrais, é o medo em relação ao invasor. A hierarquia social é um agente fortalecedor desta ordem. Este tipo de medo, que ganha evidência no concorrido mundo urbano, afeta a relação entre as pessoas em seus grupos. Os atritos que surgem, muitas vezes, se manifestam por conta da perda de seus espaços. O carnavalesco, como gestor, deve praticar atitudes que estimule a participação contributiva das pessoas de sua equipe, no espaço que cerca a produção.
Os vários relatos de sua equipe são compatíveis com o que pudemos observar em grande parte das vezes, na dinâmica produtiva de Diniz. Ele estende a sua responsabilidade ao grupo e os orienta através de consenso, com o propósito da completude e não, da competição. Quando percebe que o grupo requer uma organização, determina tarefas específicas para evitar os atritos.
Os indivíduos carregam a cultura urbana para suas condutas, e o fator da hierarquia social agrega e interfere em seus comportamentos e atitudes. Para alcançar um equilíbrio, o carnavalesco direciona sua estrutura na observação e no exercício dialógico.
Essa conduta do carnavalesco pode ser ilustrada com o texto de Aranha (2003, p.360), quando expõe o pensamento contemporâneo de Habermas, ao defender a existência de um sujeito descentrado, com base numa razão comunicativa que se apóia no diálogo:
Evidentemente, a interação entre os sujeitos precisa se fazer sem as pressões típicas do sistema econômico (que se baseia na força do dinheiro), ou do sistema político (que se funda no exercício do poder). A ação comunicativa supõe o entendimento entre os indivíduos que procuram, pelo uso de argumentos racionais, convencer o outro (ou se deixar convencer) a respeito da validade da norma: instaura-se aí o mundo da sociabilidade, da espontaneidade, da solidariedade, da cooperação.
O barracão é um reflexo do que acontece no espaço urbano e as pessoas, ali envolvidas, acabam se estruturando como numa “tribo”. O grupo veste com orgulho e de forma exibicionista as camisetas desenvolvidas e presenteadas pelo carnavalesco (figura 11) a
todos de sua equipe. A veste traz impressos o nome da escola, a assinatura de Raul Diniz e, em destaque, na parte das costas, a frase: “Barracão, onde o sonho vira realidade” (figura 12).
Figura 11 –Na concentração da Vai- Vai, Figura 12 –Diniz , em um ensaio técnico da China, serralheiro da escola, junto com X9 Paulistana, usa a camiseta com o dizer Diniz, usa a camiseta dada pelo ”Barracão onde o sonho vira realidade” carnavalesco às pessoas do barracão. Fonte: Do próprio autor em 10 fev.2007 Fonte: Do próprio autor em 25 fev.2006
As pessoas da equipe, por conviverem juntas, acabam por desenvolver padrões de comportamento semelhantes. Em muitos casos, eles partilham até da mesma moradia (figura 13 e 14), quando passam a ocupar espaços no barracão, como os dormitórios destinados a acolhê-los, principalmente nos momentos finais da produção das alegorias e fantasias. Ali, unem-se migrantes e trabalhadores paulistanos que moram em bairros afastados da cidade. O barracão se transforma em uma parte do espaço urbano, onde as generalizações acontecem. Esses profissionais se atraem e criam sua tribo, com defesas a partir de um repertório próprio, com escolhas de hábitos e costumes que se enredam a seus estilos de vida. Martin-Barbero (2002, p.293, tradução nossa) esclarece este fenômeno:
a homogeneização (vestimentas, alimentos e habitações) um movimento profundo de diferenças que se expressam nas “tribos”: esses novos grupos que a ligação provém não de um território fixo nem de um consenso racional e duradouro, mas da idade e do gênero dos repertórios estéticos e gestos sexuais, de estilos de vida e das exclusões sociais.
Figura 13 – Barraca montada sobre uma alegoria Figura 14 – Dormitório no barracão da X 9 Paulistana no barracão da Vai-Vai Fonte: do próprio autor em dez.2006
Fonte: do próprio autor em fev. 2006
O espaço dos barracões tem como característica a aprovação cultural entre as pessoas, “[...] a socialização da experiência criativa e o reconhecimento das diferenças [...]” (ibid, p.309). A comunicação faz a tarefa de dissolver as possíveis barreiras que possam ocorrem no grupo e não apenas o papel de intermediária. As pessoas que trabalham neste espaço formam uma rede, que se unem no “estar juntos”, e adquirem um laço social em torno do carnaval. Podemos dizer, que neste local, “se hibridam as culturas e se refazem as identidades” (ibid, p.403).
A beleza da pluralidade cultural do ambiente carnavalesco, dentro de sua latinidade, une as pessoas e se mostra como uma metrópole, e “[...] as metrópoles adquirem traços de muitos lugares. A cidade passa a ser um caleidoscópio de padrões e valores culturais, línguas e dialetos, religiões e seitas, etnias e raças”. (ibid, p.352)