No início do namoro havia aceitação mútuae se identificavam em termos de metas, valores e de visão de futuro. A ligação com Deus se faz presente e é um vínculo fundamental. Ela diz: “[...] algo que nos une [...] a religião católica [...] ele considerou importante. [...] na época eu ser católica, pra mim isso não era importante, mas depois foi fundamental [...] houve muito tempo onde acho que nosso vínculo era religioso, que o que nos unia era o vínculo religioso [...]”. Ele concorda, e permanece a possibilidade de continuar esse padrão: “[...] a gente tem uma certa dificuldade de se falar, sim, mas eu acho que entre nós o que é muito benéfico é que a gente se reconcilia muito fácil, porque eu peço perdão a ela e ela pede perdão a mim [...]”.
A rejeição do conteúdo e da forma de se comunicar está presente para ambos. H7: [...] por outro lado, reconheço que ela é extremamente generosa em tolerar [...] meu comportamento quando eu erro nesse sentido [...] quando ela discorda, ela tem esta visão legalista de falar [...] é um pouco de julgamento prematuro [...]”. Ela, por sua vez, comenta:
[...] eu acho que ele tem razão quando ele fala assim que eu talvez ressalte mais esse lado [...] eu não chamaria irresponsável [...] é autossuficiência [...] ele acha que pode resolver tudo sozinho, não quer dividir comigo [...] falei: ‘[...] passa a senha’ [...] ‘eu tenho certeza que você vai se controlar mais’ [...] ele não passou, não [...] não é uma irresponsabilidade, não,é uma fraqueza [...].
A aceitação está presente ao mesmo tempo que ocorre a desqualificação. Um fator associado a isso pode sera triangulação com Deus. Ela diz:
Dois orgulhosos, um querendo favorecer o seu lado [...] cada um querendo prevalecer o seu lado [...] existem dois deuses buscando seu espaço, talvez, fazendo prevalecer o seu entendimento, sobre as coisa, sobre a administração. [...] ele faz prevalecer o entendimento pelo silêncio (Desconfirmação) [...] lembro que teve uma época. [...] falavam sobre diálogo na igreja, desta questão do casal dialogar, eu falei: ‘diálogo?’ [...] ‘o que eu faço é rezar’. [...] eu penso uma coisa, ele pensa outra, eu me ajoelho e rezo, porque Deus tem que resolver o problema, porque eu não cedo, ele não cede. [...] tem exceções, senão não estava junto [...].
Ele diz:
[...] eu acho que ela se sente grata por terse casado comigo e por ter constituído uma família, o fato de ter sobrevivido aí estes 22 anos [...] ela me vê como um pai, um
pouco omisso [...] ela muitas vezes não me dá espaço para tomar decisões [...] quando ela me consulta é protocolar [...] se eu disser sim ou não, na prática, ela não se influencia por isso [...] ela estava só querendo me sondar para saber o que eu pensava a respeito,mas quem ia dar a última palavra era ela [...] ela chama para si as responsabilidades sozinha, não reparte, por outro lado ela me vê como uma pessoa de sentimentos bons, de muito bom caráter [...].
Outra maneira de desqualificação ocorre por meio de declarações contraditórias. Ela diz:
[...] eu encontrei a paz no casamento, ao lado dele[...] depois nos filhos. [...] ele é muito introspectivo e silencioso, mas qual a consequência? [...]. Eu posso fazer tudo que eu quiser, ele não me atrapalha em nada [...] nãome cobra [...] eu sei que ele gosta de mim, porque se ele não gostasse, ele não suportaria os meus egoísmos, a minha violência. [...] porto seguro. [...] para mim é um vínculo frágil, é um vínculo delicado. [...] com doença ele é muito fraco.
Ele diz:
[...] meu perfil não é de uma pessoa melosa, mas em compensação ela vê que eu a trato com carinho [...] pelo respeito, pela maneira de valorizar. [...] até nas pequenas coisas, como, por exemplo, o fato dela não cozinhar [...] não ser nenhum exemplo de dona de casa. [...] eu procuro entendê-la como muito mais do que isso. [...] procuro preservar nossa relação independente destas coisas.[...] ela é amorosa. [...] eu não vejo ela cuidar das minhas roupas, se o terno está bem passado. [...] mas é o carinho que eu não sinto,eu tenho que falar aqui agora, outra hora eu não vou falar mesmo. [...] agora ela está caprichando no almoço, se preocupando em fazer coisas diferentes [...].
O estilo brusco faz parte da comunicação e emerge de maneira sutil de ambas as partes e se mescla com o uso de declarações contraditórias. Ela diz:
[...] sou eu que tenho que ir à porcaria do hospital ficar contando a história da doença cada vez que ele convulsiona,sou eu que tomo a frente[...] embora seja pouco o que ele faz, visitar. [...] eu preciso da ajuda dele. [...] eu sei que ele gosta de mim, mas não sei dizer se esse amor seja do tipo que mova montanhas. [...] existe o amor, o carinho, o afeto, mas demanda zelo, porque não é de aço e não transpõe montanhas [...].
Em seguida, ela fala:
[...] ele se autodefine como costas largas [...] me parece que ele me tem também um pouco como costas largas, que aguenta porrada, aguenta pancadas. [...] eu encontro aí uma vocação [...] faço com amor e carinho. [...] ele percebe aquela
resolutibilidade (sobre resolver as coisas), de resolver problemas [...]. (tangenciamento) (Grifo nosso)
Ambos tendem a mudar de assunto. Ele diz:
[...] no geral a gente conversa, tem certos assuntos que é difícil conversar com ela. [...] ela tem restrição à medicação (do filho com a convulsão) [...] ouvir os médicos [...] à célula-tronco (ideia de H7 para tratar o filho e rejeitada por ela) [...] a tudo, tudo que ela via falar, ela tem que achar um antídoto. (Grifo nosso)
Ela diz: “[...] o que dá pra resolver resolve, o que não dá fica pendente [...] agora não sabia que você tinha essa paixão por células-tronco [...]. (Mudanças bruscas de assunto)
Quanto ao sintoma, este é utilizado como meio de repetição de modelos familiares ou de legitimação de comunicações desconfirmadoras, desqualificadoras, ou para comunicar ambiguidades. H7 dá continuidade à disputa pelo poder com a esposa, como foi com seu pai. Quando ele insiste em justificar que as compras são focadas na casa e na família ela rejeita. H7 diz:
Na medida que eu consigo, eu tenho resistido [...] porque eu não estouro o dinheiro que não for em ficar comprando coisa em casa [...]”. Ela diz: “[...] ele minimiza o poder do inimigo dele, eu não tenho certeza de que elenão vai comprar [...]”. Ele responde em estilo brusco: “[...] Para de encher, oh! [...] (disputa de poder) (Grifo nosso)
O sintoma comunica as dificuldades de conciliar as posições dos dois, apesar de ele desejar o melhor para a sua família, este último é aspecto oposto ao modelo paterno:
[...] eu sou uma pessoa dedicada à família, acho que eu tenho grandes problemas nesta questão de consumo, porque efetivamente é uma doença, acho que a gente tem altos e baixos [...] ela me acha um pouco irresponsável em relação a isso [...] eu compro, compro pensando que a família vai usufruir daquilo [...] mesmo quando me excedo no consumo penso que estou tentando proporcionar o melhor [...] eu tenho os meus erros nesta questão do consumo [...] eu acho que o meu dinheiro não é só para desperdício [...] boa parte dele é empregado com as despesas que a gente tem [...] eu não tenho nada que seja meu,tenho da família, nunca eu! [...] nesse ponto eu me sinto injustiçado [...].
[...] eu não consigo pensar outra coisa. [...] mas eu acho que era pura solidão. [...] mal lidada. [...] fica dependente mesmo,eunão era dependente, mas hoje eu sei que sou e é uma luta. [...] eu vejo um drogado falar num programa, eu me vejo na mesma situação dele, por vezes muda só a droga. [...] eu comecei a me sentir sozinho, eu sentia que ela ficou muito absorta com a questão das crianças de modo geral [...] mais a procuradoria [...] eu me senti largado mesmo [...] aí começava a ocupar o tempo com outras coisas, e eu comecei a comprar,comprar,comprar [...] me realizar nas compras [...] aquele prazer momentâneo de comprar, depois vem aquela frustração por ter comprado, achar que gastou dinheiro feito um estúpido.
Ela mostra aceitação e empatia:
[...] o fato dele não falar [...] eu acho que ele estava sofrendo muito porque não estava conseguindo administrar, de estar ganhando o salário em um mês para pagar o negativo do mês passado. [...] ele não tinha coragem de falar para mim. [...] a reação dele. [...] foi ficar doente essas duas vezes (operou o apêndice e a vesícula
em seguida). (Grifo nosso)
Mas ela acaba se julgando por não ter percebido o problema. Ela diz: “[...] o que mais me escandalizou não foi o problema do filho (com convulsões), mas percebi o quanto meu marido estava com problemas e eu não estava percebendo [...] (culpa)”. (Grifo nosso).
Quando o problema da oniomaniase torna intenso e visível, eles acabam por se aproximar e tentar resolver juntos. H7 diz:
[...] eu acho que a gente conversa e normalmente chega a uma decisão. Que a gente precisa conversar mais, precisa, mas eu falo pouco, sou de falar pouco.[...] melhorar isso de alguma forma [...] eu acho que a gente se entende no atacado e diverge no varejo [...] se não fosse assim, a gente não estava juntos por 22 anos.
Ela valida o conteúdo da comunicação de H7 e apoia o marido no problema das compras:
[...] tinha mil orientações que não era para pagar as contas mais [...] é uma orientação que me violenta muito porque, embora ele faça a dívida, a dívida é nossa [...] se eu pagar a prestação da casa da praia, ele vai ficar sem essa dívida e vai querer fazer outra [...] de alguma forma eu o deixo sozinho, mas agora não por uma opção minha [...] agora, sim, eu vou desobedecer o médico, padre, eu vou desobedecer todo mundo junto, todo mundo fala pra eu não pagar mais nada! [...] Amor é perdão! É claro que eu perdoo [...].
Ele, por sua vez, reconhece:
[...] eu confiar mais [...] de aceitar a ajuda dela no sentido de ver a questão das contas, não ela pagar a conta, mas eu digo pensar na nossa economia em dois. [...] tentar me cercar mais de proteção como ela disse, porque é um inferno mesmo, toda
hora tem uma coisa cutucando. [...] vai ser meio caminho andado. [...] esperança, a confiança de acreditar que meu reequilíbrio é possível,não desistir. [...] não chutar o balde, porque eu sei que não é fácil pra ela. [...] agora que ganha bem, está nessa situação. [...] isso para ela deve ser meio humilhante. [...] se submeter a isso.
A aceitação abre caminhos para construir acordos e validações, que ocorrem em situações críticas. Ela diz:
[...] o que eu acho admirável nele não é algo tão simples [...] a disposição de mudar de posição porque não é algo simples [...] talvez até a execução disso não seja algo muito fácil! Querer já é uma vitória [...] provavelmente ele vai sofrer muito [...] é ter exteriorizado isso como um projeto como algo que ele pretende fazer e não que eu acho que deve ser feito [...] que venha dele,,,é uma humildade de admitir que o outro pode estar com a razão,que precisa de ajuda [...].
Além disso, comunica as questões de intimidade do casal:
[...] o meu carinho é muito mais geral, muito mais amplo. [...] eu posso ter assim certa dificuldade, como ela falou, de abraçar com todo este ardor. [...] minha forma de protegê-los de tudo, de lutar por eles em todos os aspectos,eu acho que acaba sendo mais amplo [...].
Ela diz:
[...] eletomou o remédio para dormir [...] ele chega na cama e desmaia. [...] eu gosto de conversar na hora que vai deitar, e eu não tenho isso. [...] se tivesse eu ouviria. [...] daria atenção. [...] preponderaria a minha razão [...] não adiantaria ele falar [...] o que eu penso é que tenho recuado, deixado solto [...] porque eu acho que, se não tivesse solto demais,algumas coisas não teriam acontecido [...] tenho deixado quieto [...].
Padrão de interação simétrico com disputas e brigas, o casal não lida com as diferenças o que ela reconhece como:
[...] existem dois deuses buscando seu espaço, talvez fazendo prevalecer o seu entendimento, sobre as coisa, sobre a administração. [...] ele faz prevalecer o entendimento pelo silêncio [...] duas posturas sobre como deve ser administrado o dinheiro, o patrimônio de formas diferentes, então qual vai prevalecer? É um debate [...] isso dá o principal debate entre a gente, no resto não sinto tanto [...] eu me vejo administrando essas diferenças para a família poder seguir [...]. Eu me sinto um administradora, de conflitos algumas vezes. [...] sofrimento dele [...] sozinho. ´[...] eu não consegui chegar nele. [...] eu julgo. [...] eu critico muito. [...] ele na defensiva [...].
A tensão aumenta e ambos chegam a impasses e ninguém cede. Ela diz:
(as coisas que não resolvem juntos) “Ficam surgindo como um fantasma toda hora?” Ele responde: “[...] eu não vejo assim, não.” (Grifo nosso). Ela responde: “[...] se resolveu, resolveu! Agora, assim, é tempo [...] não são dez minutos, são dez anos! São vinte anos!” Ele retruca: “[...] ela potencializa o risco [...] eu também não sou nenhum homem das cavernas que não sei entender. [...] posso ter divergências, mas incapacidade de entender, não! [...] (Grifo nosso).
Ela insiste: “[...] eu tenho diferenças com ele, para quem eu vou reclamar? Se ele tem essa postura [...] eu vou me ajoelhar [...].” Ele diz que a razão dela é que permanece, porém ele continua a fazer as coisas que ela não aceita (o conteúdo digital (a fala), é diferente do analógico (comportamento não verbal)).
Circularidade: a carência e solidão de H7 e a expectativa de ser protetor, cuidando para que nada falte na família, aliou-se à necessidade de ter um relacionamento igualitário, sem julgamentos da parte de M7. Entretanto, ele não consegue dar essa proteção por estar endividado, ao mesmo tempo que ela não consegue manter igualdade e por viver entre disputas conjugais.
Quanto ao nível de percepção interpessoal, o casal tende a se tornar impermeável entre si, gerando disputas e escaladas. Ele diz: “[...] eu não estou dizendo que eu discuti com você por causa disso [...] é a primeira vez, talvez, que eu estou conversando com você sobre isso. [...] as coisas na medicina você tende a rejeitar [...].” Ela diz: “[...] era trezentos paus a consulta [...].” O casal afirma que em assuntos amplos eles tendem a concordar e em assuntos específicos eles divergem e concordam apenas que discordam.
Há presença de disputas pela razão e cada um se apoia em seu ponto de vista sem ceder, indicando a pontuação da sequência. Quando emergem tensões, que podem ocorrer tanto por problemas do cotidiano como pelas compras, cada um rejeita o conteúdo do outro, e dificilmente um se submete, gerando impasses. Ele diz: “[...] é meio desequilibrada essa relação em casa, eu acho que ela decide muito mais coisas do que eu. [...] (em relação ao dinheiro) a gente vive em mundos paralelos [...] via de regra eu decido, eu decido o que eu faço como meu dinheiro”. Ela diz: Quando a gente chega num senso comum, ótimo, quando não chega, um abraço [...]. É consenso, não é a solução, é o resultado, consenso não [...].” Ele se opõe: “[...] acho que a maioria das vezes a gente chega em um senso comum, agora se ela acha que não [...].” Ela retruca: “[...] invoco a Deus. [...] o que Deus diz é que ele tem as faltas
dele, tem as omissões dele, e eu me considero perfeita perante Deus? Não... Deus me acusa? Não. Me castiga? Não.” (Grifo nosso). Ele diz:
Que existem impasses existem. Que a gente tende a deixar alguma coisa sem resolver, tende. [...] se for colocar isso matematicamente, eu acho que 75% dos nossos problemas a gente resolve no diálogo. [...] quando a gente não consegue solucionar de imediato a coisa vai caminhando com o tempo, sei lá [...] a vida vai solucionando aquilo de alguma maneira. Não vou falar que a gente se entende sempre,tem assuntos que são difíceis pra mim, pra ela, sei lá, e é difícil sempre obter consenso. [...] que tem diferenças no casamento é óbvio. [...] esse negócio de consenso absoluto é utópico [...].
Na visão de M7:
[...] duas posturas sobre como deve ser administrado o dinheiro, o patrimônio de formas diferentes, então qual vai prevalecer? É um debate [...] isso dá o principal debate entre a gente, no resto não sinto tanto [...]. Com relação às crianças, educação das crianças, eu estou mais à frente com relação a isso. [...] eume vejo administrando essas diferenças para a família poder seguir [...].
Ela se considera autoritária, e essa posição não facilita acordos: “[...] eu sou uma pessoa muito totalitária, então, para eu esmagar todos à minha volta, são dois palitos, inclusive ele na razão dele [...].”
As discussões e desencaixes que ocorrem na comunicação apontam para a discrepância entre o conteúdo digital e o analógico, como, por exemplo, por ele se preocupar com a família e desprotegê-la economicamente, ou ela dizer que a vocação dela se dá por enfrentar as dificuldades com ele e continuarem juntos e ter dificuldade de aceitar o que ele fala.
Quanto à resiliência, apesar das diferenças, o casal valoriza o casamento e conta com a religião para dar suporte espiritual. A relação conjugal adquire importância e eles se esforçam para mantê-la:
[...] acho que a questão do financeiro é um problemão, mas, se ela não existisse também, não é um mar de rosas, a gente já teve um bom período de casamento. [...] que eu não tinha dívidas e nem por isso a vida teve seus problemas [...] talvez hoje a gente tenha um casamento muito melhor do que na época que eu não tivesse as dívidas [...].
Ela confirma: “Não seria um mar de rosas, mas é diferente você planejar, se organizar para comprar alguma coisa junto, fazer algum projeto junto do que ser atropelada pelos acontecimentos [...].
16 ANÁLISE DO CASAL 8