Conheci o Doutor Frederico Neves numa oficina de palhaço em janeiro de 2004. Dali em diante iniciou-se uma amizade que culminou na minha entrada, em 2006, para o projeto Fantásticos Frenéticos (palhaços em psiquiatria) na função de coordenadora do grupo de estudos do projeto. Frederico (psiquiatra de formação, palhaço de amor), juntou- se a Nando Bolognesi (ator e palhaço, que já atuou como Doutor da Alegria e atualmente integra o elenco do espetáculo Jogando no Quintal). A dupla montada, passaram a fazer visitas a hospitais psiquiátricos. Após dois anos de trabalhos no hospital João Evangelista, começaram uma parceria com o hospital dia A Casa, localizada na Zona Sul de São Paulo, e reconhecida por seu viés anti institucionalista em relação à psicose.
A Casa só colocou uma condição à entrada do projeto por seu portão azul: o palhaço só entra se vem junto com o psiquiatra. Fred topou realizar o fazer psiquiátrico durante dois dias da semana e nos outros dois dias realizar as visitas de palhaço com a dupla. Estava instaurada a situação de inadequação. Fred nunca foi um palhaço profissional, apesar de ter estudado e ter apreço incondicional à figura. Sua vivência como artista está mais ligada ao campo da música (toca saxofone).
Os pacientes não entendiam bem a diferença. Quando ele estava de palhaço, os pacientes pediam receitas e não sabiam como o chamar (Galante? Dr. Frederico?); já quando estava de psiquiatra, o próprio Fred pintava os olhos e sua participação nas reuniões e nos grupos não era o que se esperava de um psiquiatra. As vezes dormia enquanto um paciente falava; outra vez riu de um caso deixando o paciente furioso. Como psiquiatra, ele buscava reagir como um palhaço; e enquanto palhaço, buscava ser o palhaço que ainda não era mas que estava disposto a descobrir a partir de sua experiência com a psiquiatria.
Projeto cheio de desafios que provocava discussões acaloradas na equipe e confusão nos pacientes. Mesmo com essas questões, a postura do Fred nunca foi vista como algo ameaçador a ponto de cogitarem uma demissão, por exemplo. O híbrido
palhaço/ psiquiatra era um ruído, uma inadequação de lugares que conferia ao projeto uma berlinda propícia ao questionamento criativo.
A indisciplina insistente do psiquiatra/palhaço era aquilo que escapava, aquilo que ficara de lado no contrato, o analisador da dupla mensagem de ambas as partes – a institucional Casa e a pessoal Frederico. A Casa que topou um trabalho de palhaço “inofensivo” para garantir um psiquiatra em seu quadro de médicos; e Frederico que bancou, por um lado, ser psiquiatra para ser palhaço, mas enquanto palhaço só aceito pela instituição por esta razão e, por outro lado, ser palhaço sem a vivência necessária de um profissional. É mas não é; é isso mas é aquilo... Dupla mensagem por todos os lados: repetição da cena traumática que muitas vezes é exatamente o que dá origem à psicose.
No entanto, é também esta ambigüidade o que garantiu um certo vigor do projeto, seu efeito de provocação do pensamento. Não havia como ser indiferente a este quadro tão estranho...
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Este é o final da parte 1. Os elementos aqui apontados nos permitem construir o palhaço como signo em ação. Palhaço não é só o cômico, é um ser sendo em relação. O signo palhaço não se dá apenas pelo cômico da figura, aos quais se somam outros elementos sígnicos que aqui quisemos esboçar – sabendo que um palhaço não é só um signo, mas uma cascata de signos que nos arrebata. O humor é um de seus predicados, a traição das certezas e dos sentidos, outro; a sinceridade com as emoções, mais um; o extravasamento expressivo: comunicação direta, atuação manifesta, mais um. Deste emaranhado de predicados, intuímos um movimento de ser/estar palhaço, que agora iremos relacionar com a captura mais comum e banal de seu estatuto no contemporâneo.
Na sociedade humorística, o humor é útil, serve para azeitar as relações sociais e agregar sob a aura da aceitação uma série de desentendimentos que, humoristicamente, passam a ser incluídos. O humor do palhaço não está a serviço de azeitamento, ele está a serviço de um ser sendo e por ser um ser sendo, ele usa os artifícios teatrais a seu dispor para continuar este ser teatral sendo. Vagueia pelo estilos, pelos tempos e pelos planos palco/platéia, sem nunca deixar de ser palhaço.
Por isso também, se o movimento da cena vai em direção ao combate, ele vai também. Por pura aderência ao plano do real. Claro que ele pode ser um palhaço diplomático que prefere evitar as brigas, mas ele não pode passar por cima de um stress quando ele ocorre. Não existe ação fora de um aqui e agora. Isso me lembra uma vez em que vi machucados nas mãos do palhaço Jango Edwards e ele me respondeu: “Isso? Bom... eu tive que lutar num show”. Fiquei impressionada. Como? Você luta nos seus shows? Você chegou a lutar com alguma pessoa? “Only when I have to protect myself”, ele respondeu.
Assim, na próxima parte abordaremos o riso e a experiência cômica seguindo o caminho nem sempre linear que historiadores, filósofos e pensadores já trilharam sobre o tema. Para Peter Berger, a experiência cômica se refere à mente atirada num
aparentemente mundo sem sentido. Ao mesmo tempo, sugere que talvez o mundo afinal não seja sem sentido.88 O riso, irredutível à racionalidade, está sempre traindo nossas
certezas e os lugares nos quais nos reconhecemos.
Palhaços ao traírem o mundo com o qual nos reconhecemos, constroem outro mundo concomitante a este; e assim antevêem os universos paralelos que propõem seus modos singulares de pensar. Por viver neste mundo e realizar seu modo de vida na materialidade que é um limite ao mesmo tempo burlável, a arte do riso é um exercício humano de construção de mundos possíveis89. Uma construção nas bordas do que o homem pode ou não abarcar como mundo, num mundo que não possui “realidade” fora do plano de referência que se cultiva para si.
O palhaço propõe um trânsito entre um plano de referência e outro, mas seu efeito ainda é no entre. Porque não se pode acreditar demais nem desacreditar. E, principalmente, ele saber rir quando o tapete é puxado e se é atirado em todos os buracos das sempre furadas (no bom sentido) relações humanas. Vermos agora, talvez, porque o palhaço é eleito como figura símbolo da alegria permanente que se busca na sociedade humorística.
88 Berger, Peter. Redeeming laughter. Berlin/New York: de Gruyter, 1997, p. 35.
89 Kasper, Kátia. Experimentações clownescas: os palhaços e a criação de possibilidades de vida. Tese de doutorado. Campinas, Faculdade de Educação. Unicamp, 2004.
PARTE 2 – SOBRE O RISO E O HUMOR