Jarvis (2006) apresentou a sua teoria sobre aprendizado adulto, criada a partir de diversos workshops realizados com adultos em fase de aposentadoria, nos quais ele levantava as seguintes questões: Quem sou eu? Como eu aprendo? Segundo Jarvis (2006), o aprendizado ocorre desde que nascemos até a nossa morte. No processo de aprendizado, o aluno envolve além de sua mente, seu corpo, suas emoções, suas crenças, suas habilidades e atitudes, que conectadas em uma experiência geram uma reflexão e uma posterior transformação da pessoa, resultando em uma nova pessoa, que seria a pessoa anterior acrescida do aprendizado proporcionado pela experiência geradora.
Inicialmente, Jarvis havia definido a aprendizagem como “a transformação da experiência em conhecimento, habilidades e atitudes” (JARVIS, 1987, p.32), mas depois de várias metamorfoses, ele a define atualmente como:
(...) a combinação de processos ao longo da vida, pelos quais a pessoa inteira – corpo (genético, físico e biológico) e mente (conhecimento, habilidades, atitudes, valores, emoções, crenças e sentidos) – experiencia as situações sociais, cujo conteúdo é percebido e transformado no sentido cognitivo, emotivo ou prático (ou por qualquer combinação) e integrado à biografia individual da pessoa, resultando em uma pessoa continuamente em mudança (ou mais experienciada) (JARVIS, 2013, p. 35).
Para o autor, as nossas experiências no mundo-vida começam com as sensações corporais que ocorrem nessa interseção entre a pessoa e o mundo-vida. Inicialmente, essas sensações não têm significado, mas são, na verdade, o começo do processo de aprendizagem. A sensação de não saber consiste em receber estimulo sem significado, mas como somos seres sociais, precisamos do relacionamento com os outros para criar significados para as sensações, e a partir deles, as categorias que constroem um modelo
mental, responsável por guiar o adulto na sua relação com o mundo. Tanto os adultos quanto as crianças têm que transformar a sensação em linguagem cerebral e, finalmente, conferir-lhe significado. E ao aprender ou criar um significado para a sensação é que incorporamos a cultura do nosso mundo-vida em nós mesmos. Esse processo estaria presente na maioria, ou em todas as experiências de aprendizagem. E um processo que possa oferecer mais perguntas do que respostas, talvez seja o início de uma mudança, de uma evolução e adaptação ao mundo complexo no qual vivemos.
Estamos encapsulados pela nossa cultura. Uma vez que pensada uma resposta para nossa questão implícita, porém, temos que praticá-la ou repeti-la para depositá-la na memória, e quanto mais oportunidades tivermos de praticar a resposta a nossa pergunta inicial, mais conseguiremos internalizá-la. Quando fazemos isso em nosso mundo social, recebemos feedback, o qual confirma que temos uma resolução socialmente aceitável ou que temos que começar o processo novamente, ou seremos diferentes das pessoas ao nosso redor. Uma resposta socialmente aceitável pode ser considerada correta, mas temos que estar cientes do problema de linguagem – conformidade nem sempre é “correção”. Esse processo de aprender a se conformar é aprendizagem por “tentativa e erro” – mas também podemos aprender a discordar, e é concordando e discordando que emergem certos aspectos da nossa individualidade (JARVIS, 2013, p. 38), e no qual se constrói o ser completo, o eterno vir a ser, e aqui construído através do fazer.
Tradicionalmente, os educadores adultos alegam que as crianças aprendem de maneiras diferentes dos adultos, mas os processos de aprender a partir de situações novas são os mesmos ao longo da vida (JARVIS, 2006), embora as crianças tenham mais experiências novas que os adultos, o que pode parecer diferente nos processos de aprendizagem de ambos.
Para abordar a questão da motivação no aprendizado, encontrei a necessidade de tratar o tema aprendizagem, e nesse ponto encontro uma conexão com a metodologia
criativa DT, que pressupõe uma ação corporal que promove novas sensações como a empatia e conduz o aluno a um processo de concordar e discordar, um processo de análise e síntese, através do qual ele pode expressar sua individualidade na construção do seu aprendizado e na solução de problemas complexos. A metodologia proporciona um questionamento dos modelos mentais antigos estabelecidos nas memórias de quem a pratica, porque insere a empatia, a emoção e a colaboração com o outro, ao mesmo tempo que joga luz sobre eles, para que quem a pratica possa refletir, a partir da sua individualidade, e tomar decisões que considerem tanto o individual quanto o social.
Utilizando a visão mais completa do ser humano no processo de aprendizagem proposta por Jarvis, seja qual for a realidade social, ela é incorporada em nós por meio da nossa aprendizagem desde o momento do nosso nascimento. Para o autor, temos uma relação constante de ambivalência com nosso mundo-vida, tanto ao vivenciarmos sensações e significados quanto ao saber e não saber. Essa significância do processo na sociedade pode desaparecer no momento em que o significado já tenha sido criado na mente e no corpo, pois o que permanece tende a ser o resultado aceitável da significância da sensação, e não mais sensação em si própria.
Sendo assim, seres humanos que somos, não precisamos necessariamente de um significado para aprender com uma experiência, mas, normalmente, atribuímos um significado às experiências, na medida em que refletimos sobre elas (JARVIS, 2006). Nesse processo, as emoções são transformadas, também as opiniões, as atitudes e os valores.
Dessa forma, de fato, o sujeito muda. E, portanto, modifica a situação em que está inserido e em que interage. Para Jarvis (2006), um indivíduo envolve conhecimento, habilidades, atitudes, emoções, crenças, valores, sentidos e mesmo a identidade, e, por meio da aprendizagem, cada um desses fatores pode ser transformado. Valente (2004,
p.13) afirma que “aprender significa apropriar-se da informação segundo os conhecimentos que o aprendiz já possui e que estão sendo continuamente reconstruídos”.
Essa aprendizagem ocorre especialmente quando se fala em andragogia: que é a aprendizagem na vida adulta. Nessa fase, os indivíduos precisam partir de suas experiências de vida para que as aprendizagens sejam motivadoras de uma melhor qualidade de vida. Suas vivências podem determinar efeitos positivos e negativos diretamente no aprender, e muito focados na autorrealização do sujeito. E nesta pesquisa, essa é uma premissa relevante a ser considerada para toda a formação dos modelos de oficinas com base na metodologia DT.
Procurando encontrar pontos de conexão entre as visões dos autores anteriormente citados, podemos dizer que todos eles apontam para a visão e aceitação do aluno como um ser humano em desenvolvimento e que aprende, engloba suas emoções, insights, desejos, interesses, vivências e consciência no processo de aprendizado, e não somente uma visão de aprendiz como uma mente que simplesmente absorve conhecimentos, mas como um ser que sente, se envolve, vive, experimenta e, assim, aprende. E que além disso, pode propor e ser autor de uma nova visão de mundo. Para Santos (2003, p. 137-138), “é pela aprendizagem com os outros que o indivíduo constrói constantemente o conhecimento, promovendo o desenvolvimento mental e passando, desse modo, de um ser biológico a um ser humano”.