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O setor financeiro das nações sempre despertou destacado interesse na pesquisa econômica. São as características especiais deste setor da economia – cite-se o gerenciamento intertempo- ral da liquidez de ativos diversos, as assimetrias de informação do contrato bancário de crédito e a estreita interface da oferta de crédito com investimento na produção de bens e consumo e poupança das famílias – que possivelmente justificam a fama temática. Paradoxalmente, a teoria clássica de mercados completos de Arrow-Debreu é clara e precisa ao concluir pela irre- levância da firma bancária no ambiente econômico: os mercados financeiros são absolutamente redundantes em modelagem porque atuam como simples intermediários entre poupadores e in- vestidores.

Keynes (1936) já percebia que bancos eram instituições destacadas no arranjo econômico e caracterizou como função dessas firmas especiais a tarefa de reavaliar a oferta de crédito que determina o investimento privado. Isso porque a decisão de liquidez dos bancos deve antecipar a realização do investimento em capital fixo. Embora tenha observado o papel crucial dos bancos na determinação do investimento, Keynes não se deteve na avaliação do comportamento das firmas bancárias.

Os trabalhos de Gurley & Shaw (1955) são reconhecidamente os primeiros a tratar da interme- diação financeira. Os autores todavia ainda entendiam os intermediários como agentes neutros. Para eles bancos apenas repassam recursos entre agentes econômicos. Fama (1980) também ressaltou em seus trabalhos o papel neutro da intermediação financeira. Para ele, “se os bancos respondem aos gostos e oportunidades dos demandantes e ofertantes de ativos de portfolio, eles são apenas intermediários e o papel de um setor bancário competitivo no equilíbrio geral é meramente passivo” (FAMA, 1980, p. 80).

James Tobin delineou, em notável artigo de 1963, duas vertentes conceituais exclusivas sobre a atividade de intermediação financeira e o papel dos bancos na economia. Chamou de “vi- são antiga” aquela concepção clássica na qual é irrelevante o comportamento dos bancos para

determinar as condições de financiamento da economia. A visão defendida por Tobin (1963) entende que bancos comerciais criam moeda e podem atuar de forma estratégica e otimizadora, expandindo a oferta de crédito de acordo com suas oportunidades de negócios. Sob a nova perspectiva, os bancos são gestores de ativos financeiros diferentes em termos de liquidez.

É a visão nova que sustenta a pesquisa da área de Microeconomia Bancária e da moderna Ma- croeconomia que considera fricções financeiras. No programa da Microeconomia Bancária, o papel não neutro dos bancos para a economia pode ser incorporado mediante duas abordagens. A primeira trata da organização da indústria bancária, que entende o setor como fornecedor de serviços de liquidez aos clientes, em que a diferenciação dos produtos lidera questões como barreiras à entrada e competição monopolística. O outro modo está relacionado com a ideia de mercados incompletos. As assimetrias informacionais existentes entre as partes de um contrato de intermediação financeira ou mesmo entre controladores e acionistas são relevantes para ex- plicar transações financeiras e um funcionamento do mercado diferente daquele prescrito por modelos da tradição Arrow-Debreu.

Por outro lado, os textos menos recentes de Macroeconomia não contém em termos de mo- delagem o papel não neutro da indústria de intermediação financeira na oferta de crédito da economia. Entretanto, cabe registrar que vários estudos tentam propor a conexão da economia real com fenômenos do mercado financeiro. Friedman & Schwartz (1963), por exemplo, cha- mavam a atenção para o padrão de ciclos no produto americano estreitamente associado a crises no sistema financeiro. A fragilidade financeira e os ciclos econômicos são assuntos próximos.

Monetaristas como Friedman argumentavam da necessidade de observar também outros preços de ativos da Economia, ao invés de resumir a análise à taxa de juros, nas políticas de controle de moeda (FRIEDMAN, 1956). Indicavam, portanto, que interpretações adicionais sobre a transmissão de política monetária poderiam ser obtidas pela análise dos preços relativos entre diversos outros ativos da economia, além da dívida pública. Faz sentido, porque a forma de alocação da riqueza das famílias é determinante na explicação dos efeitos reais sobre a econo- mia de políticas monetárias. Mishkin (1996) pondera que dois canais de transmissão de política

monetária podem ter a identificação atribuída aos monetaristas: i) a teoria de investimento do “q” de Tobin; e ii) o efeito riqueza sobre o consumo.

O teorema de Modigliani & Miller (1958) pode ser responsabilizado pela prevalência do canal tradicional de taxa de juros como mecanismo básico de transmissão monetária. O teorema da irrelevância proposto pelos autores explicava que o investimento de firmas não depende de sua estrutura de capital. Dessa forma, o papel do crédito e dos bancos é irrelevante na produção de efeitos reais.

A consolidação de um papel mais relevante para os bancos nas principais correntes da pesquisa econômica só aconteceu mesmo a partir da segunda metade do século XX, principalmente de- pois os avanços da Economia da Informação. A importância das fricções do mercado de crédito determinaram a mudança de paradigma na Microeconomia e restabeleceram a possibilidade de Modigliani & Miller (1958) estarem errados. O detalhamento dos problemas de assimetria de informação e de custos de agência nos mercados financeiros permitiu questionar a irrelevância da estrutura na decisão de investimento. O potencial teórico que advém dos empréstimos ban- cários fez revigorar a conexão entre a nova Microeconomia Bancária e a Macroeconomia, no tocante aos mecanismos de transmissão.

A existência de fricções financeiras torna inválido o resultado de full risk-sharing obtido em economias do tipo Arrow-Debreu. A simplificação macroeconômica de ignorar essas fricções, ainda que aceitável em boa parte das situações, a julgar pelo objetivo da modelagem, pode definir resultados viesados se as hipóteses risk-sharing não estão atendidas. Freixas & Ro- chet (2008, Cap. 6) ponderam que especialmente três áreas da Macroeconomia têm resultados afetados por imperfeições financeiras: RBC (Real Business Cycles), os canais de transmissão de política monetária e a fragilidade do sistema financeiro em coordenar o investimento da economia, com implicações sobre crescimento econômico.