Como indicado anteriormente, o saber docente vem sendo estudado por
várias perspectivas teóricas e metodológicas e se direciona para a importância do
professor no processo de construção de saberes válidos para o ensino. Na presente
pesquisa, vamos nos deter nos estudos desenvolvidos pelos autores Tardif (2012) e
Pimenta (2012), por serem referências nas pesquisas sobre o saber docente. Ambos
consideram a prática docente como uma prática que reflete o meio social e não se
limita à transmissão de conteúdo. É uma prática complexa para a qual concorrem
vários saberes.
Partindo de uma análise sociológica, Tardif (2012) traz contribuições de
estudos internacionais e faz uma análise bastante ampla que serve de guia para
nossas análises. Ele situa o saber docente na relação direta com o trabalho,
explicitando uma diversidade de saberes que trazem à tona conhecimentos e
manifestações do saber fazer e do saber ser muito diversificados, cuja natureza e
fontes são bastante variadas. Considera o trabalho como uma práxis social, que, em
termos sociológicos, modifica a identidade de quem trabalha, ao mesmo tempo que
o trabalhador transforma o seu trabalho. A partir desse pensamento, entendemos
que, se um professor ensina por muito tempo, isso provoca mudanças em si mesmo
e, desse modo, sua identidade carrega as marcas da atividade profissional.
Para esse autor, a relação do professor com o saber não se limita a “transmitir
conhecimento” já construído, como por exemplo, os conteúdos do livro didático. A
prática docente integra diferentes saberes e o professor é detentor de um saber que
surge da prática, da experiência. Essa experiência significa o “conjunto de vivências
significativas através das quais o sujeito se identifica, seleciona, destaca os
conhecimentos necessários e válidos para a atividade profissional” (MONTEIRO,
2002, p. 138).
As investigações de Tardif (2012) têm como objetivo revelar os saberes que
os professores mobilizam em situação prática e tentar compreendê-los, uma vez que
estão situados entre o social e o individual. Como um saber social, esses saberes
dependem das condições sociais e históricas nas quais os professores desenvolvem
sua atividade profissional, que é o ensino, estando ligado às condições da escola e à
sua organização, bem como ao contexto social mais amplo que determina os
conhecimentos exigidos no exercício da profissão. Por outro lado, o professor traz
consigo uma cultura geral, seus conhecimentos pessoais, adquiridos ao longo da
vida, fora da profissão, que estão baseados em valores e podem ser incorporados à
ação profissional, o que é comum a qualquer profissional.
Nas pesquisas de Tardif (2012), a noção de saber está relacionada ao
contexto mais amplo, à realidade social, ao contexto de trabalho, à história de vida.
Nesse aspecto, o saber do professor está na interface entre o social e o individual.
Assim, como define o autor, é considerado um saber social por vários motivos: é
partilhado por um grupo, ou seja, a prática de um professor ganha sentido quando
compartilhado por outros; é orientado por um sistema que o legitima e, como em
qualquer profissão, necessita que seja reconhecido socialmente; é desenvolvido na
interação com os alunos, sujeitos sociais; e, por fim, é social porque é adquirido
também em um contexto de socialização profissional. Além disso, é um saber
individual construído na relação com os alunos, ou seja, no processo da atividade
profissional, por isso, ligado a uma situação de trabalho complexa, que é o ensino
(TARDIF, 2012).
De acordo com Tardif (2012), todo trabalho humano requer conhecimentos
específicos que são partilhados por quem exerce a profissão. Na prática profissional,
o professor integra diferentes saberes com os quais mantém relações diversas. Esse
autor define o saber docente como plural, heterogêneo, resultante do amálgama de
vários saberes oriundos da formação profissional, das disciplinas, dos currículos e
da experiência. Essa foi uma primeira tentativa de dar conta do
plurarismo
epistemológico dos saberes dos professores, a qual ainda é válida atualmente.
Os saberes da
formação profissional (das ciências da educação e da
ideologia pedagógica) correspondem ao conjunto de saberes transmitidos pelas
instituições responsáveis pela formação dos professores e são destinados à
formação científica erudita. Esses saberes integram saberes pedagógicos que são
incorporados à formação profissional, apresentando-se como um arcabouço
ideológico para a profissão, como também o saber fazer e algumas técnicas. Os
saberes disciplinares dizem respeito aos saberes que integram as disciplinas
selecionadas pelas instituições universitárias para integrar a formação inicial e
emergem das tradições e da cultura e grupos sociais produtores de saber. Os
saberes curriculares, se apresentam sob a forma de programas, contendo
objetivos, conteúdo e métodos, os quais os professores devem aprender a aplicar.
Por último, os
saberes da experiência, que são desenvolvidos na prática, no
exercício da profissão, baseados no conhecimento do meio. Brotam da experiência
individual e coletiva sob a forma de habitus e são, por ela, validados, referindo-se ao
saber fazer e saber ser, ou seja, aos saberes práticos.
Saber mobilizar esses múltiplos saberes é o que faz o professor ser um
profissional que deve conhecer “sua matéria, sua disciplina, seu programa, possuir
conhecimentos relativos à ciência da educação e desenvolver um saber prático,
baseado na experiência com os alunos” (TARDIF, 2012, p. 39). A relação do
professor com esses saberes ocorre de forma distinta. Com os saberes
pedagógicos, disciplinares, curriculares, oriundos da cultura e incorporados à
formação, os professores mantêm uma relação de exterioridade. Porém, com os
saberes da experiência, os professores estabelecem uma relação de interioridade,
constituindo-se no núcleo vital, a partir do qual interiorizam e transformam a relação
de exterioridade com os demais saberes por meio da própria prática. Por esse
motivo,
“os saberes experienciais não são saberes como os outros; são, ao
contrário, formados de todos os demais, mas traduzidos, ‘polidos’ e submetidos às
certezas construídas na prática e na experiência” (TARDIF, 2012, p. 54). É
importante esclarecer que essa relação de exterioridade se relaciona à divisão social
do trabalho intelectual, “entre os produtores de saberes e os formadores, entre os
grupos e instituições que produzem e legitimam saberes e instituições que formam
professores” (TARDIF, 2012, p. 54).
A primeira classificação proposta pelo autor procura associar os saberes à
sua
fonte. Posteriormente, Tadif (2012) apresenta um modelo tipológico dos
saberes, relacionando-os com os
lugares onde os professores atuam, as
experiências e as fontes de aquisição, bem como ao modo como são integrados ao
processo de trabalho, conforme evidenciado no quadro abaixo:
Quadro 3 – Os saberes dos professores
Saberes dos professores Fontes sociais de aquisição Modos de integração no trabalho docente
Saberes pessoais dos professores
A família, o ambiente de vida, a educação no sentido lato etc.
Pela história de vida e pela socialização primária
Saberes provenientes da formação escolar anterior
A escola primária e secundária, os estudos pós-secundários não especializados etc.
Pela formação e pela socialização pré-profissionais
Saberes provenientes da formação profissional para o magistério
Os estabelecimentos de formação de professores, os estágios, os cursos de reciclagem etc.
Pela formação e pela socialização profissional nas instituições de formação de professores
Saberes provenientes dos programas e livros didáticos usados no trabalho
A utilização das “ferramentas” dos professores: programas, livros didáticos, cadernos de exercícios, fichas etc.
Pela utilização das “ferramentas” de trabalho, sua adaptação às tarefas
Saberes provenientes de sua própria experiência na profissão, na sala de aula e na escola
A prática do ofício na escola e na sala de aula, a experiência dos pares etc.
Pela prática do trabalho e pela socialização profissional
Fonte: Tardif (2012, p. 63).