• No results found

Analytical methods for WWTP performance assessment

A dimensão sociológica do mundo mediterrâneo do primeiro século só se compreende bem quando consideramos o sistema do patronato ou clientelismo e este, por sua vez, quando se entende no quadro cultural de valores e sentimentos de honra e vergonha. Tais sistemas estão igualmente pressupostos no contexto do relato joanino sobre o lava-pés.

O clientelismo ou patronato é um sistema de relações entre pessoas de distintos níveis sociais marcado pela relação patrono–cliente. Trata-se de uma relação social que supõe o reconhecimento de uma situação em que existe mútua cumplicidade e dependência entre sujeitos sociais classificados em posições distintas na escala da estratificação social. A relação ocorre invariavelmente entre sujeito que está numa posição acima e outro abaixo na pirâmide da estratificação social: de um lado aquele que possui status inferior de outro, o de status superior (dimensão social); entre um subordinado e seu patrono que manda ou detém o poder sobre o primeiro (nível político), ou ainda, o sujeito que dá e oferece algum bem, dinheiro ou atende a alguma necessidade alheia e aquele que a recebe (dimensão econômica).

Malina e Rohrbaugh descreveram o sistema do patronato da seguinte maneira:

Los sistemas patrón-cliente constituyen relaciones socialmente determinadas de reciprocidad generalizada entre gente de distinto nível social: uma persona de clase baja que está em apuros (llamada “cliente”) hace frente a sus necesidades recurriendo a los favores de uma persona de estatus superior, bien situada (llamada “patrón”). Al recibir el favor, el cliente promete implícitamente devolvérselo al patrón cuando y como este lo determine. Al conceder um favor, el patrón promete a su vez implícitamente estar abierto a ulteriores peticiones, em momentos no especificados. Tales relaciones abiertas de reciprocidade generalizada son típicas de la relación del cabeza de família y de quienes dependen de El: esposa, hijos, esclavos. Cuando se llega a um arreglo patrón-cliente, este se relaciona com el patrón como com um pariente superior y más poderoso, al tiempo que el patrón ve a sus clientes como subordinados (MALINA & ROHRBAUGH, 2010, p. 399-400).

Os sujeitos se relacionam em termos de trocas marcadas pela

reciprocidade110: quem dá (patrono) deve receber, de forma compensatória, senão na mesma espécie, pelo menos em lealdade, prestígio e honra, atitudes que são devidas pelo cliente como resposta às dádivas do patrono. Por isso, ambos os sistemas, o social clientelista e o cultural de honra-vergonha se integram para viabilizar sociedades assimétricas como aquelas dominadas pelo império romano em que as desigualdades e carências sociais eram muito grandes e provocavam distâncias e dependências socioeconômicas extremas entre pessoas e grupos sociais em todas as esferas da vida, seja em níveis micro quanto macrossociais. O entrelaçamento de um sistema no outro é observado no relato de Malina e Rohrbaugh que o fazem recorrendo a Virgílio para comprová-lo:

Las obligaciones mutuas entre patrón y cliente eran consideradas sagradas y, a menudo, se hacían hereditárias. Virgilio nos habla de los castigos especiales que padecían los patronos en el inferno por haber defraudado a sus clientes (Eneida 6,609; Loeb, 549). Las grandes casas se vanagloriaban del número de sus clientes y trataban de incrementarlo de generación em generación. (MALINA E ROHRBAUGH, 2010, p. 400)

O que de fato significa o padrão de valores marcados pelo sentimento de honra e vergonha? E de que forma ele colabora para tornar as trocas entre patrono e cliente um sistema legítimo, apaziguador das desigualdades estruturais na sociedade mediterrânea do primeiro século dominada pelo império romano? O esclarecimento do que de fato significa o conceito de ambas-honra e vergonha-ajuda a responder essa questão.

Honra:

Podemos definir com más precisión el honor como el estatus que alguien reclama en la comunidad, junto com el necesario reconocimiento de tal

110 Com base nos estudos de M. Sahlins (1972) sobre os padrões socioeconômicos de sociedades primitivas, Halvor Moxnes define reciprocidade como “uma relação entre duas partes que têm interesses socioeconômicos distintos [...] uma classe de trocas. Sua forma específica depende em grande parte da proximidade ou da distância social existente entre as duas partes envolvidas” (MOXNES, 1995, p. 42). Aplicando o mesmo conceito às relações entre patrão-cliente, o mesmo autor esclarece que “ao contrário da economia de mercado, este intercâmbio não tinha liberdade de seguir suas próprias regras: estava inserido num contexto social e cultural. O poder e o status social eram fatores importantes que determinavam as formas de intercâmbio e o futuro para os diversos participantes nele envolvidos. O relacionamento de clientela era instituição de importância especial, pois canalizava recursos de acordo com o poder e o status” (MOXNES, 1995, p. 53).

pretensión por parte de los demás. El honor sirve así de indicador de la posición social, que capacita a las personas para tener tratos com sus superiores, iguales o inferiores em los correctos términos definidos por la sociedad.

El honor puede ser adscrito o adquirido. El honor adscrito deriva del nacimiento: Haber nacido em uma família honorable hace a uno honorable a los ojos de toda la comunidad. El honor adquirido, em cambio, es el resultado de la habilidad que uno tenga em el interminable juego de desafio-respuesta. No solo hay que luchar por conseguirlo; debe hacerse em público, pues toda la comunidad tiene que ser testigo de su adquisición. (MALINA & ROHRBAUGH, 2010, p. 404-405)

Vergonha:

Uno puede “ser avergonzado”, expresión referida al estado, públicamente reconocido, de perdida del honor. Se trata de uma vergüenza negativa. Pero “tener vergüenza” significa preocupar-se por el propio honor. Se trata de uma vergüenza positiva. Puede ser entendida como la sensibilidad hacia la propia reputación (honor) o hacia la reputación de la propia família. Se trata de sensibilidad ante las opiniones de otros, por tanto de uma cualidad positiva. Carecer de esta vergüenza positiva es ser “sin-vergüenza” (cf. el término hebreo moderno chutzpah, valor clave y virtud nacional de Israel [...](MALINA & ROHRBAUGH, 2010, p. 405).

Para melhor compreender o impacto que o padrão do sistema honra-

vergonha tem no texto joanino bastaria considerar indiretamente sua relevância em

sociedades e comunidades sob a influência dos textos bíblicos e em especial do Novo Testamento. Entretanto, quando notamos que a palavra latina “honra” corresponde ao que em grego se traduz por “glória”, logo percebemos como esse sistema está diretamente pressuposto no relato joanino, uma vez que “glória” como “honra” é, pois, termo de importância capital no EJ111. Sua cristologia, neste sentido, é, por exemplo, proposta de ruptura com o modo dominante na cultura greco-romana de cultuar e prestar honra e glória aos deuses, bem como de conceber honras e glórias devidas não só a deuses, mas a personalidades de reconhecida autoridade e prestígio.

111 O termo do,xa (glória) aparece 18 vezes, e na forma verbal doxa,zw (glorificar) ocorre 28 vezes em Jo. O termo traduz o hebraico Kabod, que por sua vez “conserva as acepções de riqueza e esplendor. Pode ser divina ou humana. Neste último caso denota o brilho da posição social e a honra que se lhe atribua” (MATEOS & BARRETO, 1989, p. 116). O termo tima,w (honrar), segundo os mesmos autores “usa-se em Jo no sentido de mostrar estima de alguém (5,23: de Jesus do Pai; cf. 4,44: timh, - valor, respeito ); contextualmente assume o sentido de reivindicar a honra do Pai (8,49) e o de enaltecer, conferir dignidade (12,26): o Pai ao discípulo)” ((MATEOS & BARRETO, 1989, p. 117).

Neste contexto se entende porque o EJ não deixa dúvidas sobre a inversão de valores e práticas que deve prevalecer na comunidade quando se trata de definir o que realmente é ou não digno de honra e de glória quando se refere àqueles que entre os chefes creram em Jesus, mas por causa dos fariseus e por medo de serem expulsos da sinagoga (12,42):

12,43: hvga,phsan ga.r th.n do,xan tw/n avnqrw,pwn ma/llon h;per

th.n do,xan tou/ qeou/Å

amaram pois, a glória dos homens mais do que a de Deus

A cena do lava-pés toca de maneira exemplar o mesmo tema e propõe inversão no modo de atribuir o que de fato é digno de honra e glória, pois em linguagem comportamental, concreta e visível, mas também verbalizada, declara o que torna o sujeito feliz (13,17), e, portanto, digno de honra. A identificação de Jesus com aqueles que lavam os pés transforma o que é estabelecido no horizonte da cultura dominante como serviço menor e digno de desprezo, em prática que honra o discípulo.

O contexto da cultura dos valores da honra e da vergonha precisa ser levado em conta como pressuposto na interpretação do lava-pés, pois, desse modo, se pode perceber com maior evidência a dificuldade de Pedro em deixar que Jesus inverta o padrão do comportamento esperado: não cabia a Jesus, como anfitrião, mestre e senhor, a tarefa reservada, pressupostamente pela cultura dominante, a outras pessoas de honra, dignidade e status inferior.

Em outro contexto, mas com o mesmo referencial do sistema honra e vergonha, sendo agora associado ao do patrono e cliente, Halvor Moxnes conclui sua interpretação de Lc 14,7-14 em que Jesus conta a parábola da escolha dos lugares, em referência implícita às posições definidas no triclínio, algo que pode ser aplicado analogamente à cena do lava-pés:

Esta história contém todos os ingredientes do código de honra- humilhação de uma sociedade de aldeia. A posição social e o status estão baseados na comparação com os outros, e as normas usadas são bem conhecidas na aldeia. Se alguém agir fora da norma, reivindicando um status que está além do lugar que reconhecidamente lhe cabe, será envergonhado e humilhado. Por outro lado, quem agir com modéstia,

reivindicando uma posição social menos importante do que aquela a que tem direito, é justo que sua posição seja reconhecida aos olhos de todos os presentes [...]. O contexto social é do relacionamento entre anfitrião e os convidados pertencentes ao grupo de privilegiados. A interação social caracteriza-se pela busca de honrarias dos homens, pela extensão da hospitalidade com a expectativa do retorno equivalente, e pela proteção da pureza ritual de Israel por meio da observância rígida das regras referentes ao sábado. Desse modo, a posição privilegiada dos membros proeminentes da cidadezinha é preservada, ao passo que os doentes, os pobres e os impuros são retidos fora deste sistema de intercâmbio, sendo, portanto, excluídos também das relações sociais. (MOXNES, 1995, p. 129-130)

A mesma crítica, ruptura e inversão propostas ao sistema de honraria que legitimava o sistema patrono-cliente, encontram-se também no relato do lava-pés. Em Lc 14,7-14, a proposta é transmitida em forma de Parábola, em Jo 13, em forma de gesto simbólico que serve de exemplo para a comunidade. No relato lucano, é fonte de superação da relação de dependência entre patrono e cliente. No EJ é, além disso, fonte de reversão de relações que discriminam ou desonram práticas como a de lavar os pés como sendo práticas atribuídas exclusivamente a sujeitos submetidos a posições inferiores na escala da estratificação social.

O sistema de valoração da honra e vergonha presente nas práticas e costumes sociais de caráter clientelista, garantindo exigência de lealdade mútua por um lado, dependência e subordinação por outro, condicionam as pessoas a uma submissão quase que automática às estruturas desiguais previamente estabelecidas pela sociedade. Tudo isso, de forma condensada, estava muito bem representado no ambiente de banquete como veremos a seguir.