150 Universidade de Brasília (UnB)
Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS)
Mestrado Profissional em Desenvolvimento Sustentável (MPDS) Área de Concentração: Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais
Modalidade: Sustentabilidade junto a Povos e Terras Indígenas
Entrevista realizada em 17 de junho de 2012 com o Coordenador Nacional, André Luiz Martins, do Programa Brasil Sorridente - Ação Saúde Bucal Indígena:
André Luiz Martins é Cirurgião Dentista e atua na Política Nacional de Atenção à Saúde Indígena, desde o ano de 2004, através do contrato por uma Organização Não Governamental conveniada com Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro, localizado no município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas. A partir de 2008 foi atuar no nível nacional em Brasília/DF, contratado como Consultor Técnico da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), no Departamento de Saúde Indígena (DESAI) da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), apoiando as ações de Saúde Bucal Indígena nos 34 DSEI. O André Martins manteve seu contrato com a OPAS, já na Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) atuando na Coordenação Geral de Atenção Primária à Saúde Indígena (CGAPSI).
Iniciamos a entrevista explicando o objetivo e tema do nosso diálogo “Resíduos Sólidos dos Serviços de Saúde em Terras Indígenas” perguntando sobre a possibilidade de citá-lo no texto do trabalho escrito e ele respondeu que ficasse à vontade para utilizar as informações colhidas sobre o assunto. E iniciou o dialogo relatando das experiências de trabalho dos profissionais de saúde em terras indígenas de difícil acesso dizendo que é bem conhecida, desde épocas passadas, se referindo ao período do SPI, no inicio do século XX.
Preferimos deslizarmos num diálogo, ali mesmo na CGAPSI, na sua mesa de trabalho, num momento em que vários outros colegas estavam ausentes em viagens à serviço. Utilizei as abreviações dos nomes SLG (Solange Lima Gomes) e ALM (André Luiz Martins) para facilitar a descrição dos diálogos:
SLG: André quanto tempo você atuou nas aldeias?
ALM: cerca de seis anos atrás, contratado pela FOIRN e depois resolvi vir trabalhar
em Brasília no DESAI na área de Saúde Bucal, junto com você lembra?
SLG: Ah! Sim. FOIRN é Federação das Organizações dos Indígenas do Alto Rio
Negro? É isso mesmo?
ALM: Isso mesmo.
SLG: Ah! Fomos recepcionados pelo Diretor do DESAI no auditório da FUNASA junto
com outros colegas de outros setores! E aí... continua gostando de Brasília?
ALM: Nossa! Aprendi muito por aqui mas de vez em quando sinto falta de estar
trabalhando nas aldeias.
151 ALM: ah! Logo quando cheguei no DSEI fazia de tudo, rs..rs.. mas depois fui atuar
como Coordenador Técnico da Saúde Bucal organizando as entradas e saídas dos profissionais nas aldeias e tudo era e ainda continua muito difícil. Os acessos até chegar nas aldeias é o que mais atrapalha os trabalhos. As subidas e descidas das cachoeiras são sempre muito perigosas e muitos colegas desistem após a primeira entrada. Também tem muitas caminhadas até chegar lá na aldeia. Quando se chega nas aldeias agente enfrenta aqueles alojamentos com pouca estrutura para passar até 30 dias. É difícil... é complicado!
SLG: e a logística para armazenar os resíduos produzidos pelas equipes de saúde? ALM: Ih...! Isso quase não existe. As equipes tentam ao máximo não fazer lixo e
alguns ainda tentam trazer de volta mas o DSEI não dá estrutura para isso e aí a equipe acaba enterrando o lixo lá mesmo no Polo Base da aldeia. Muitas vezes a voadeira vem muito cheia de caixas e materiais de trabalho e o lixo toma espaço nas voadeiras daí a equipe faz queimada do lixo dentro dos buracos e depois enterra.
SLG: ... e aqueles resíduos de saúde?
ALM: ele é quase tratado do mesmo jeito. Aqueles resíduos que são perfuro-cortantes
são colocados dentro das garrafas pet, porque elas protegem mais. É mais seguro até para retornar nas voadeiras e como não é de papelão como os ‘descarpak’, as garrafas armazenam melhor os perfuro-cortantes e ficam mais seguros dentro das voadeiras, até mesmo quando pegamos chuva na viagem de retorno ao DSEI. Como te falei, é difícil a logística nas aldeias e o lixo fica em último lugar na escala de prioridades. As equipes sempre estão muito preocupadas em ter espaços para colocar os equipamentos e materiais nas voadeiras quando vão sair das aldeias, após 30 dias longe de tudo! Além do mais os DSEI em geral não dão suporte para isso!
SLG: e aqueles resíduos que não voltam na voadeira como é que fica ?
ALM: Não fica ... rs...rs... Na verdade, as equipes queimam e enterram ali mesmo
perto do Polo base. Eles cavam um buraco coloca tudo, à exceção dos perfuro- cortantes, toca fogo e fica esperando o fogo acabar, depois enterra tudo, para evitar que algum morador da aldeia venha mexer nos rejeitos queimados.
SLG: Você tomou conhecimento do primeiro diagnóstico sobre resíduos sólidos nas
aldeias, feito pelo pessoal da CGESA?
ALM: Ah! Foi aquele que você me passou? Se for esse, tomei conhecimento porque
foi você que enviou para meu e-mail.
SLG: o que você achou do resultado?
ALM: Eu tô surpreso com algumas respostas! Algumas das respostas não refletem a
realidade dos DSEI. O percentual do resultado dos que falam do retorno do lixo é muito alto para a realidade dos Polos. Pode ser que algum ou outro retorne da aldeia com o lixo mas acho isso muito difícil, mesmo para aqueles Polos que não são de difícil acesso. Agente, a SESAI, não tem programa de ações de resíduos sólidos e fica a critério de cada DSEI fazer essas ações. O resultado de 80,9% de retorno do lixo para o DSEI pode ser “aqueles descartes dos perfuro-cortantes como agulhas, pequenos bisturis, lâminas, que pela Vigilância Sanitária são obrigados a ser guardados em segurança nos descarpack até voltarem à algum lugar seguro longe de contatos humanos para evitar contaminações.
152 SLG: o que você acha que pode ser feito para alterar essa situação?
ALM: A SESAI e a CSEGA tem que correr para trabalhar as questões do lixo nas
aldeias com educação para os profissionais e para as comunidades. Claro que o município tem que estar nessa discussão pois o lixo final termina ficando na responsabilidade do município.
SLG: André, colega, valeu pelas informações e caso precise de mais informações
posso te procurar !? (já estava na hora do almoço e ele precisava sair!)
ALM: vamos continuar conversando sobre isso, durante tuas pesquisas....
Nossa conversa encerrou ao meio dia. No dia seguinte o André Martins ficou envolvido em reuniões intersetoriais do Ministério da Saúde, sobre o Programa Brasil Sorridente. Em seguida viajou para cumprimento de agendas com visitas in loco aos DSEI, em vários estados.