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Chapter 5 Research Methodology

5.4 Data analysis

80 Como afirmou Sayad (1998), discutido anteriormente, toda migração é, em primeiro lugar, um deslocamento no espaço físico. Além disto, a migração começa com a premissa de estar vinculada à busca por trabalho. Em nosso trabalho de campo, sempre que perguntados sobre o motivo que os levam a migrar, a primeira resposta é que ali, na comunidade, no município, ou mesmo na região não tem empregos e que a seca dificulta a produção agrícola. E quando produz, não existem espaços de comercialização para todos.

P: Ele costuma ir assim, dona Vera... por que a senhora acha que ele vai?

Vera: Acho que ele vai porque precisa, né? Porque aqui não tem como, não tem

“ganhame” nenhum, não tem trabalho. Porque precisa mesmo, por isso que ele vai. (D. Vera Lúcia, 42 anos, esposa e mãe de migrante)

Leonice: Também, eu penso assim: ah, não sei se; a gente vê investindo em fábrica,

tudo quanto é coisa, em tudo quanto é lugar; a gente não vê falando que; por que que aqui, na região nossa, ninguém vê; ninguém arrisca numa coisa dessa também, né? Porque tem que ter um emprego; não tem emprego, né? Se tivesse era tão diferente! (D. Leonice, 34 anos, esposa de migrante)

A vinculação direta entre a necessidade da migração e a falta de emprego na região apareceu em todas as entrevistas e conversas. A busca pelo “ganhame” surgi, assim, como o primeiro determinante da migração, ou seja, a sua dimensão econômica é o primeiro aspecto a ser levantado por aqueles que estão envolvidos diretamente no processo. De fato, como vimos anteriormente, foi justamente com a expansão do capitalismo, que significou a perda de parte dos meios de vida, ou, como caracterizamos, a quebra do complexo grota-chapada, que a migração se intensificou em toda a região. A limitação do acesso à terra, tanto aquelas de chapada agora ocupadas pelas empresas plantadoras de eucalipto, ou a mudança nas relações de trabalho e de agregação nas grandes fazendas inviabilizam algumas estratégias, levando à necessidade de novas formas de complementação da renda.

Maia (2004) estudou três comunidades do município de Araçuaí-MG, relativamente próximas da comunidade de Tabuleiro Grande, onde realizamos nosso trabalho de campo. Em sua pesquisa, a autora, que buscava olhar para a migração com os recortes de gênero e de reciprocidade, destacou também a busca por trabalho como o fator impulsionador da migração.

A formação de reserva monetária suficiente para suprir tais necessidades, ou seja, “ganhar dinheiro”, manifesta-se como motivo básico para migrar, porque o “lugar fraco” e “não corre dinheiro”. A entrada dos camponeses mais efetivamente na economia de mercado – em decorrência de rearranjos de relações tradicionais de trabalho e da destruição de sistemas costumeiros de apropriação da terra – aumentou a dependência do mercado de produtos que antes eram produzidos por eles próprios (...). (MAIA, 2004, p. 111)

A entrada destes camponeses mais efetivamente na economia de mercado se dá pela inserção como vendedores de força de trabalho, mas também como consumidores de mercadorias. E estas mercadorias não se limitam àquelas que substituem o que antes eram

81 produzidas na propriedade, mas vai além delas, pois novas mercadorias passam a fazer parte do cotidiano daquelas famílias, como veremos mais adiante. Por hora, interessa-nos pensar que esta inserção como vendedores de força de trabalho é viabilizada por meio do acesso aos postos de trabalho que exigem baixa qualificação, ou nas atividades agrícolas, com as quais, os camponeses já estão mais familiarizados.

É importante destacar ainda que a entrada na economia de mercado não representa somente uma entrada em novas relações de trabalho, mas representa a entrada em novas relações sociais que provocam mudanças na própria concepção de mundo daqueles camponeses. A necessidade do dinheiro passa a ser um elemento fundamental no cotidiano das famílias, até mesmo para manterem a produção agrícola em suas propriedades. Esta necessidade coloca um dilema que também surgiu em todas as entrevistas: o conflito existente entre a ausência daquele que migra e o recurso financeiro adquirido com a migração. Ora a migração surge como algo bom, quando a melhor situação atual da família é atribuída ao trabalho fora, e ora como ruim, devido à ausência e ao distanciamento. Este conflito aparece, por exemplo, quando perguntamos às esposas e mães o que elas achavam da migração, ou se elas achavam melhor a migração para a cana (cuja safra dura cerca de oito meses) ou para o café (com duração de três ou quatro meses).

P: E como você vê a migração?

Mariana: Pois é. O ruim é que tem que sair todo ano, ficar longe dos filhos, né? E

assim, o bom é que ele tá trabalhando, né? Aqui não tem como trabalhar, não tem serviço. Aí, tem que sair sempre pra fora.

(...)

P: E para você, qual você acha que é melhor, o café ou a cana?

Mariana: Vixe. Não... Porque, assim, o café é menos tempo, né?; o café é menos

tempo, mas ganha menos. Na cana, fica mais tempo... mas no café é pouco tempo. É bom que chega mais cedo, né?, não fica tão longe. (D. Mariana, 29 anos, esposa de migrante)

Vera Lúcia: Ah, isso [a migração] é uma tristeza... ah, o pessoal tá saindo para fora,

ficando esse tanto de mês, isso é muito ruim, é triste demais. Pessoal viver fora, nossa... da família... é ruim.Tem o retorno financeiro, mas também do lado pessoal é ruim, né?

P: E se botar na balança... O que você acha melhor, seria estar aqui “apertado”,

junto, ou...

Vera Lúcia: “Apertado” demais também não, né!... às vezes passa necessidade,

passa fome, deixar os meninos passando... precisando das coisas, Deus o livre!, também é ruim. É difícil, isso aí é uma coisa meio complicada. (Vera Lúcia, 42 anos, esposa e mãe de migrante)

A entrada no processo migratório ocorre de maneira diferente para os jovens e para os mais velhos. Para estes, o que determina a saída é a necessidade de garantir as condições de reprodução social do grupo familiar; e para aqueles, sobressai os interesses individuais. Essa diferença é expressa na forma de investimento dos recursos: enquanto para os mais velhos o

82 dinheiro é empregado na manutenção da casa, reformas, pagamento de contas, ou investimento em patrimônio, para os mais novos o dinheiro é investido principalmente em bens individuais, como moto, roupas, aparelhos de sons e em festas e outras formas de lazer. Contudo, como já mencionamos anteriormente, mesmo voltados para o uso individual, estes recursos que os jovens trazem compõem as estratégias de reprodução familiar, diminuindo os custos de reprodução da família para os pais. Possibilitam, assim, a manutenção dos membros da família na unidade produtiva camponesa.

É preciso considerar ainda que após o longo período de migração sazonal, existe certa naturalização do processo migratório. Ao crescer vendo os pais, tios, primos e irmãos saírem todos os anos para trabalhar, as crianças, desde muito cedo, já manifestam a vontade de migrar também. O caso da D. Vera Lúcia é exemplar. Seu marido, Seu Valdino, migra por mais de 20 anos. O casal tem quatro filhos. Todos nasceram depois que o pai já havia se tornado migrante. O mais velho, ao completar 18 anos em 2012, abandonou a escola e foi, junto com um tio e um primo, para a colheita do café. De lá, outro primo que trabalhava numa empreiteira na região de Campinas o chamou e ele ficou mais um ano trabalhando na construção civil. E os mais novos, de 13, 11 e 5 anos, também já falam em migrar.

P: Aí teve uma hora que ele [o filho] chegou para a senhora e disse: “Oh, mãe, vou

sair”?

Vera Lúcia: É, falou que ia para o café, que ia sair da escola. Aí eu falei com ele

que não, depois que ele terminar os estudos primeiro. Mas não teve jeito não, pôs na cabeça que ia para o café, então foi.

P: E o pai?

Vera Lúcia: Também deu ele conselho que não saísse, terminar os estudos

primeiro, depois tem muito tempo para trabalhar... (Vera Lúcia, 42 anos, esposa e mãe de migrantes)

Entre os jovens é comum sair da escola antes de completar o segundo grau para entrarem na migração. No caso do filho de D. Vera Lúcia, ele cursou até o primeiro ano, mas segundo ela, depois de ser reprovado uma vez, desanimou dos estudos e foi trabalhar. Este não foi o único caso que encontramos assim. Deixar os estudos para se inserirem na migração parece ser uma prática bastante recorrente.

A individualização da escolha pela migração oculta a dimensão coletiva que envolve o próprio processo. Se por um lado a decisão de migrar não é tomada a partir de um cálculo racional de vantagens e custos, por outro, tão pouco é fruto da simples vontade daquele que migra. Ela é, sim, fruto de processos sociais, culturais, econômicos e políticos, constituindo-se no que Sayad (1998) chamou de “fato social total”. Em sua base encontram-se fatores estruturais que a condicionam como uma estratégia de reprodução social da família e a

83 manutenção da família num determinado patamar socialmente estabelecido de consumo e bem estar.

Isto nos remete ao debate acerca das ilusões necessárias para a manutenção dos fluxos migratórios. Apesar de os elementos condicionantes para além da dimensão econômica e das consequências sociais e culturais não passarem desapercebidos pelos migrantes, o fator econômico é posto em evidência para justificar as ausências. Mas nos próprios relatos trazidos até aqui e a reafirmação acima dos condicionantes das outras dimensões da vida, já discutidos neste trabalho, nos ajudam a desconstruir a ilusão da submissão única e exclusivamente econômica.

O caso de D. Vera Lúcia, relatado acima, também serve como exemplo para discutir a ilusão da provisoriedade. Como já foi discutido, mesmo o retorno, na maioria dos casos, acontecendo sempre ao final de cada safra, as recorrentes saídas prolongam o processo provisório indefinidamente.

P: Tem muito tempo, dona Vera, que o marido da senhora migra?

Vera Lúcia: Ah, que ele tá indo... desde o começo [do casamento], tem mais de 20

anos. 20 ou mais. Tem mais de 20 anos, porque meu filho tem 20, ele foi antes. É tem mais de 20 anos que ele vai pro corte de cana. (D. Vera Lúcia, 42 anos, camponesa esposa e mãe de migrante)