Analysis and Results
Trip 2 - 50 tonne truck from South going 23 km/h
3.7.1 Analysis process
Conforme mencionado anteriormente, Mullins (1991) analisou um conjunto de cidades australianas – Sunshine Cost, Gold Cost, Darwin, Sydney, Melbourne, Adelaide, Hobart, Camberra, Geelong, Newcastle e Wollongong, e o processo de urbanização turística foi detectado nas duas primeiras, que têm o turismo como atividade econômica consolidada. A partir de pesquisa empírica, o autor concluiu que a urbanização turística é uma forma de urbanização distinta de outras formas já existentes, particularmente em termos sociais e espaciais.
Segundo o autor, as cidades moldadas pela urbanização turística são construídas para estimular o deslocamento temporário de um grande contingente de pessoas e encorajá-las a consumir o prazer à venda nesses espaços. Assim, enquanto a urbanização industrial do século XIX tinha como foco a produção e o comércio, a urbanização turística iniciada no início do século XX, tem por finalidade o consumo e a venda do prazer aos visitantes, essencialmente em espaços geográficos litorâneos que dispõem de clima quente durante a maior parte do ano. Embora o autor concentre-se nos espaços litorâneos, a urbanização impulsionado pelo turismo também tem ocorrido em espaços de montanhas, lacustres em geral, ou seja, espaços de clima frio.À exemplo dos Pirineus e os Alpes na Europa, as Serras Gauchas e Campos do Jordão no Brasil, Bariloche na Argentina para citar alguns.
Na visão de Mullins (1991), a urbanização turística é parte do processo mais amplo da urbanização ocidental que acompanha a flexibilização dos modos de produção e de consumo (pós-fordistas), e por isso estaria diretamente relacionada aos conceitos de cidade pós- moderna e gentrificação anteriormente detalhados. O autor observa que diferentemente da produção flexível, a (pós?)-modernidade exerceu um impacto marcante em termos de urbanização, defendendo que o termo seja utilizado para distinguir as cidades estruturadas para o consumo em massa e customizado do prazer. O autor apresenta um modelo de análise empírica que contém sete componentes inter-relacionados em dois grupos: 1) análise descritiva e 2) forças sociais (quadro 2) (MULLINS, 1991).
GRUPO 1 – ANÁLISE DESCRITIVA GRUPO 2 – FORÇAS SOCIAIS (PROPOSIÇÃO TEÓRICA)
Forma espacial e social distinta. Regime de acumulação flexível. Distinção simbólica. Gestão estatal neoliberal.
Rápido crescimento da população e da força de
trabalho. Consumo do prazer em massa e customizado. – População residente socialmente distinta.
Fonte: Adaptado pela autora a partir de Mullins (1991, p. 331).
Quadro 2: Modelo de análise empírica da urbanização em cidades turísticas.
Segundo Mullins (1991), os resultados encontrados sugerem que o processo de urbanização turística ocorre essencialmente nas faixas litorâneas, com uma distinção simbólica orquestrada a partir da construção de uma imagem de prazer calcada nas belezas naturais do lugar, da commoditização do espaço físico quantificado de acordo com o acesso aos prazeres (praia, mar, shoppings, points), de um alto índice de segunda residência, de uma densidade habitacional, da construção de leitos e da população local ocupando áreas menos nobres, ou seja, distante desses prazeres.
O autor acrescenta que estando à economia centrada na construção civil e no turismo, em conseqüência, a população economicamente ativa está nesses setores, há altos índices de crescimento populacional, da força de trabalho e do desemprego, e em contrapartida baixos salários e movimento sindical débil.
As cidades turísticas também apresentaram uma estrutura de classe distinta, não organizada aos moldes tradicionais; essa nova estrutura tem empresários e petty bourgeoise (classe média) que lideram no plano econômico e político, encarregando-se da comercialização de bens e serviços e dominando e elegendo seus representantes, enquanto os assalariados, ao contrário, permanecem passivos e explorados. (MULLINS, 1991).
Outras características são acrescentadas, como a ausência de um distrito central de negócios, a predominância demográfica de mulheres, a volatilidade econômica em função da predominância do turismo e da construção civil, que assim como na antiga urbanização industrial, também provoca o declínio de centros que tem a produção como base econômica. (MULLINS, 1994).
Por fim, Mullins (1991), aponta algumas forças sociais que incidem sobre a urbanização turística:
a) o Estado que desempenha um papel indireto no desenvolvimento urbano e turístico (com maior ênfase), funcionando mais como um fomentador, exceto para os investimentos em infra-estrutura física e social;
b) os turistas como elementos que impactam na estrutura social, embora o autor reconheça a necessidade de se desenvolver novas teorias que ampliem as explicações que
versam sobre o consumo como controle social, a exemplo das políticas de "pão e circo" explicadas por Harvey (1992);
c) o autor acrescenta os residentes, que podem influenciar esse processo através da sua forma de organização local e sua inserção na estrutura social urbana mais ampla, ou pelos movimentos urbanos que organizam ações para mudar ou conservar aspectos da cidade e ainda, por meio das organizações e/ou associações locais que procuram influenciar o desenvolvimento da localidade.
Gladstone (1998) argumenta que a teoria de Mullins sobre a urbanização turística não se confirmou em todos os locais turísticos americanos analisados em suas pesquisas.
Usando dados censitários de Áreas Metropolitanas Estatísticas - MSAs, o autor calculou uma série de quocientes matemáticos de cidades americanas considerando o emprego no setor de entretenimento e serviços de recreação.
A partir daí, Gladstone (1998) classificou quatro cidades que chamou de metrópoles turísticas por apresentarem índices superiores ao triplo da média nacional de empregos nas indústrias relacionadas ao turismo; são elas: Las Vegas, Reno e Atlantic City, consideradas centros de jogos (gambling); e Orlando, onde se localizam a Disney World, a Disney Epcot Center, o SeaWorld Adventure Park e a Universal Studios, caracterizada por um turismo de entertainment.
Em seguida, o autor classificou nove cidades as quais denominou de cidades turísticas de lazer, que apresentaram índices de 30 a 150% maiores que a média nacional de empregos nas indústrias de entretenimento e serviços de recreação, são elas: Daytona Beach, Fort Myers, For Pierce, Lakeland, Naples, Panamá City, Sarasota, West Palm Beach, todas na Flórida, e Los Angeles, na Califórnia.
Cabe destacar, algumas diferenças colocadas pelo autor, ao caracterizar os grupos de cidades em relação à respectiva estrutura social de cada uma.
O grupo das metrópoles turísticas tem cidades maiores, baixo índice de brancos, concentração de mão de obra no setor de serviços, baixo índice de autônomos, uma pequena classe (média) que tem o aluguel como fonte de renda, poucos aposentados, muitos proletários (assalariados), e presença marcante de grandes corporações.
Já o grupo das cidades turísticas de lazer tem uma classe média com importante função social e econômica, alto índices de aposentados e pessoas que vivem de renda (investimentos), alto índice de autônomos e presença significativa de pequenos negócios.
Considerando as proposições teóricas de Mullins (1991), o autor comparou os dois grupos de cidades turísticas – metrópoles turísticas e cidades turísticas de lazer, identificando suas diferenças (quadro 3).
PROPOSIÇÃO TEÓRICA METRÓPOLE
TURÍSTICA
Desenvolvimento ao longo do litoral Não
Distinção simbólica Sim
Rápido crescimento da população e da força de trabalho Sim Elevada percentagem de trabalhadores no comércio, em serviços prestados às empresas,
serviços pessoais e construção civil ( "indústrias flexíveis") Sim
Baixo nível de sindicalização Não
Elevada taxa de desemprego Não
Baixa renda per capita Não
Maioria da população residente constituída por adultos, muitos recém-chegados e poucas
famílias-núcleo (pai, mãe e filhos) Não
Consumo do prazer customizado e de massa Sim
Grande classe-média Não
PROPOSIÇÃO TEÓRICA CIDADES DE
LAZER
Desenvolvimento ao longo do litoral Sim
Distinção simbólica Sim
Rápido crescimento da população e da força de trabalho Sim Elevada percentagem de trabalhadores no comércio, em serviços prestados às empresas,
serviços pessoais e construção civil ( "indústrias flexíveis") Sim
Baixo nível de sindicalização Sim
Elevada taxa de desemprego Não
Baixa renda per capita Não
Maioria da população residente constituída por adultos, muitos recém-chegados e poucas
famílias-núcleo (pai, mãe e filhos) Sim
Consumo do prazer customizado e de massa Não
Grande classe-média Sim
Fonte: Mullins (1991) e Gladstone (1998) (Adaptado pela autora).
Quadro 3: Proposições teóricas e sua aplicabilidade para metrópoles turísticas e cidades turísticas de lazer.
Pode-se considerar que o estudo de Gladstone (1998) representou um avanço em relação à pesquisa de Mullins (1991). A teoria testada explicou melhor as cidades do grupo denominado cidades turísticas de lazer do que as metrópoles turísticas, o que significa um refinamento do conceito de urbanização turística a partir de alguns aspectos.
Em síntese, segundo Gladstone (1998), as diferenças entre os grupos analisados concentram-se em fatos históricos. Por exemplo, Las Vegas e Atlantic City sempre foram cidades economicamente turísticas, já Orlando era uma cidade agrícola quando a Disney iniciou as compras de terras na região na década de 1960. Outro aspecto importante a ser analisado refere-se a fatores simbólicos. Algumas cidades utilizam como atrativo turístico seus recursos naturais, a exemplo da maioria das cidades da Flórida, outras fazem uso de atrativos fabricados, como no caso de Orlando e Atlantic City. O autor explica que embora Atlantic City esteja localizada na faixa litorânea, a cidade é vendida como um lugar aonde se vai pra ganhar million bucks.
Outro aspecto apontado pelo autor refere-se ao tipo de estrutura organizacional presente nas cidades. Como citado anteriormente, as metrópoles turísticas têm um número significativo de grandes corporações, fato que incide no planejamento do desenvolvimento urbano local através do controle da terra e da influência no processo de planejamento, funções historicamente reservadas ao setor público.
Conforme Gladstone (1998) esses grupos empresariais usam de sua influência para obter isenção de impostos e subsídios. Na opinião do autor, esse aspecto em particular, pode explicar em parte as diferenças demográficas entre os dois grupos, bem como, o grande número de trabalhadores, o baixo índice de autônomos e aposentados, o alto índice de african-americans (que aceitam salários mais baixos), e a adesão sindical, significando um aspecto importante para futuras pesquisas.
O próximo tópico versa sobre renda fundiária na cidade e renda da terra. Discorrer a respeito das especificidades do solo urbano e dos três tipos de renda fundiária passíveis de serem encontradas na cidade propiciará identificar no recorte territorial desta pesquisa em quais localizações e sob quais condições elas se manifestam.