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Partindo desse pressuposto, acredita-se que esta tese possa responder a questões concretas, questões que surgem menos do porque das coisas e mais do seu como. Como modificar situações cristalizadas na violência e na miséria? Como provocar novos modos de existência em territórios tão áridos em termos de relações humanas? Como esse espaço conseguiria romper com as histórias de sofrimento e violência que por ali passavam? Como detectar modos de subjetivação capazes de ganhar visibilidade e ofertar novas experimentações? Como ficarmos imunes a tantas histórias e situações vividas que se revestem de tal intensidade? Como fugir à banalização e naturalização de acontecimentos cotidianos trazidos pela pobreza, pelo tráfico, pela violência, pelo abuso, pelas humilhações sofridas?

Neste estudo o ambiente responsável é o que cuida do indivíduo. Semelhantemente à mãe suficientemente boa, a brinquedoteca se propôs a realizar esse papel de acolher e sustentar o encontro humano. Nesse ambiente humano as relações estabelecidas com base na confiabilidade, na fidedignidade e na constância de suas ações poderão oferecer às crianças uma provisão ambiental permitindo o brincar espontâneo e criativo. Winnicott (1983a) refere que nós, como as mães, precisamos saber da importância:

“da continuidade do ambiente humano, e do mesmo modo, do ambiente não humano, que auxilia a integração da personalidade do indivíduo;

da confiança, que torna o comportamento da mãe previsível;

da adaptação gradativa às necessidades cambiantes em expansão da criança, cujo processo de crescimento a impele no sentido da independência e da aventura;

da provisão para concretizar o impulso criativo da criança”.(p.68)

A cada dia que andávamos pelas ruas do bairro convivendo com as histórias que ali aconteciam, nos deparávamos com a negligência do ambiente social frente às necessidades de suas crianças e adolescentes. Via-se que o abandono, a falta de cuidado, a falta de sustentação psíquica provocavam efeitos devastadores, evidenciando que a desordem emocional tornava- se, às vezes, mais importante do que as questões econômicas.

O brincar das crianças, as ações dos adolescentes não estavam deslocadas da realidade que vivenciavam. Reproduziam em suas atitudes e comportamentos, em seus relacionamentos, padrões estabelecidos por uma sociedade que, ao longo da história e até os dias de hoje, não tem propiciado aos indivíduos de baixa renda ambiente adequado e cuidadoso e os expõe a situações de vulnerabilidade psíquica ao se confrontarem cotidianamente com situações psíquicas conflitantes. Para Guimarães (2001) essas situações dizem respeito aos fenômenos psíquicos originados de situações cotidianas como a desigualdade, a intolerância, o preconceito, a discriminação.

Entrar em contato com crianças e adolescentes, e a realidade em que vivem, na qual as palavras sustentabilidade, confiabilidade e encontro reverberam em todos os momentos apontando a necessidade de se constituir um ambiente fidedigno e saudável para essas crianças e adolescentes manifestarem seu si mesmo, criando o mundo ao redor. Mas, apontavam, também, concretamente que a relação indivíduo-ambiente precisava ser mais bem analisada e respondesse às indagações de que se aquela intervenção teria sentido ou significado naquele lugar, na vida e no percurso daquelas crianças.

Essas observações e reflexões conduzem a pensar na estruturação e organização da brinquedoteca, com o objetivo de construir ambiente facilitador que propiciasse às crianças a retomada do desenvolvimento.

Este estudo, portanto, pretende propor uma forma de intervenção no atendimento de crianças por meio de uma brinquedoteca comunitária a partir dos conceitos propostos pela teoria do amadurecimento.

Os conceitos de ambiente, saúde e criatividade foram os substratos para a composição da intervenção proposta. As funções do ambiente no processo de amadurecimento pessoal do

indivíduo, suas necessidades nas diversas etapas desse processo auxiliaram na compreensão das falhas que o ambiente social provocava na saúde psíquica das crianças. Além disso, norteou-se o caminho a ser percorrido na construção de intervenção que pudesse auxiliar as crianças e adolescentes a retomar a continuidade de ser e o desenvolvimento das capacidades de crescimento e desenvolvimento saudáveis.

“O compromisso ético-político do pesquisador que se (dis)põe a conhecer o que nas formas pulsa como informe, vibra como força de constituição e transformação. Este ato de conhecer implica, necessariamente, um método”. (Regina Benevides, 2003)

2. – O CAMINHO PERCORRIDO 

Na constituição deste trabalho consegue-se entrever sua complexidade. Ele não poderia ficar restrito ao campo da saúde apenas. Conexões foram tecidas, as quais ultrapassaram os limites tradicionais do campo psi e adentraram pela história, sociologia, sistemas de urbanização, pelos territórios da infância e da importância do ambiente e da criatividade no processo de amadurecimento do indivíduo, evidenciando que essa pesquisa não tem apenas um objeto a ser estudado, ela se constrói ao mesmo tempo em que faz a intervenção, é ela mesma pesquisa e intervenção.

Portanto, o estudo foi realizado nas fronteiras entre vários campos de saber o que lhe oferece características peculiares, dentre elas, a complexidade. A vizinhança entre o campo da saúde e o social adquire nuances importantes: o olhar volta-se à produção da vida e da saúde em outro território. Parafraseando Costas & Bujes (2005) nos tempos de hoje, de dissipação de limites, de movimentações instáveis e terrenos movediços, atuar nas fronteiras implica assumir riscos desconhecidos e ousar percorrer histórias insuspeitadas. Pesquisar nas fronteiras nos leva a distintas geografias: territoriais, políticas, humanas, e epistemológicas. Porém, se a ideia de fronteira sugere riscos de aproximações, com indefinições e instabilidades, indica também, a possibilidade de ultrapassá-las, a riqueza do delineamento de novos espaços, de inesperados territórios de poder e a possibilidade de produzir outras formas de saber e outros modos de ver.

Um estudo situado na fronteira entre o campo da saúde e o social guarda peculiaridades e estas estão impressas no caminho percorrido. Aqui escolheu-se percorrê-lo por meio da infância e do seu encontro com o ambiente social, a forma como as crianças compreendem o mundo, as tentativas de serem acolhidas e tornarem-se visíveis em um mundo adulto, muitas vezes, hostil às necessidades que o mundo infantil apresenta.

A pesquisa realizada com crianças nos coloca um desafio: ver o mundo através de seus olhos e vivenciá-lo a partir de suas atividades, de seus corpos, compreendê-lo a partir de suas ideias. Para Benjamin (1984), a ideia de infância se encontra no centro de sua concepção de memória histórica e deve ser tratada de forma coletiva: compreender a criança é fundamental

para compreender a época em que se vive. Ao compreendê-la como criadora de cultura, a desnaturaliza e estabelece uma relação crítica com a tradição.

Subvertendo a ordem a criança, com seu olhar, revela outra maneira de enxergar o real. É preciso considerar a criança na sua condição de sujeito da história e não percebê-la de forma descontextualizada, fora de uma classe social, de uma cultura e da sua história, pois as crianças são diferentes entre si, pertencem a classes sociais diversas, vivem momentos distintos de seu desenvolvimento, têm hábitos, costumes e valores diferentes, aprendidos nas interações sociais.

Pensamos, na qualidade de terapeuta ocupacional, trabalhador social e da saúde, que a nós é atribuído o papel de favorecer a organização do coletivo a partir das práticas do cotidiano. Porém, para que haja a constituição de indivíduos com direitos e exercendo plena cidadania é necessário primeiramente pensar sobre sua constituição e necessidades, uma vez que a subjetividade do indivíduo é compreendida na articulação entre a realidade interna própria, e a realidade compartilhada. Assim, contempla-se sua história e território, família, ambiente, dentre outros que possam trazer à tona a singularidade.

“Esse é o eixo em torno do qual a terapia ocupacional deve ser pensada: é nele que o sujeito e o coletivo se encontram; é nele que se procura resgatar a possibilidade da construção da ação humana por meio da organização e da manifestação do coletivo. É nele que se desenvolvem modos de subjetivação singulares”. (Galheigo, 2003, p. 34)

Pela leitura do cotidiano, da história dos indivíduos e de sua relação com o ambiente é que se pode pensar na intervenção necessária. No cotidiano e nas práticas cotidianas encontramos possibilidades de romper naturalizações e certezas. Nilda Alves refere que há um modo de fazer e criar conhecimento no cotidiano que difere daquele aprendido na modernidade. A autora considera termos aprendido nos últimos séculos que o modo como se cria conhecimento no cotidiano não tem importância ou está errado. O resultado é não fixarmos ou não sabermos como são ou, mais, não sabermos analisar os processos de sua criação. Talvez por serem esses processos produzidos por nós mesmos em nossas ações cotidianas essa análise do conhecimento se torna mais difícil, pois de acordo com a ciência moderna é necessário separar, para estudo, o sujeito do objeto. Esses conhecimentos e as formas como são tecidos exigem admitirmos ser preciso mergulhar inteiramente em outras lógicas para apreendê-los e compreendê-los. (Alves, 2001)

“Buscar entender de maneira diferente do aprendido as atividades do cotidiano comum, exige que se esteja disposta a ver além daquilo que os outros já viram e muito mais: que seja capaz de mergulhar inteiramente em uma determinada realidade buscando referências de sons, sendo capaz de engolir sentindo a variedade de gostos, caminhar tocando coisas e pessoas e me deixando tocar por elas, cheirando odores que a realidade coloca a cada ponto do caminho diário”. (p. 17).

Na tentativa de realizar um trabalho crítico, de desvelamento das crianças e adolescentes esta narrativa não poderia ser tentada a simplificar, diluir os problemas que se apresentavam ao longo desse percurso. Fazia-se importante que a relação indivíduo e ambiente fosse mais bem explicitada, e os entraves possíveis de ocorrer dessa trama de relações também contemplados. Procurou-se uma teoria e, consequentemente, um método, que compreendesse o indivíduo na sua relação com o mundo, que rompesse com as dicotomias existentes entre sujeito e objeto e pudesse considerar entre eles um espaço, com características próprias, seu tempo e espaço.

Com sua concepção de que o acontecer humano só pode ocorrer pela presença do outro, a teoria winnicottiana nos coloca frente a uma posição ética e política como profissionais. Com a concepção da área intermediária da experiência, área na qual o encontro entre humanos se dá muito antes da capacidade do indivíduo humano percebê-lo ou perceber-se, ele nos oferece suporte para a criação de outras modalidades de atendimento e atenção, no caso, a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

Winnicott (1975b) cria o conceito de realidade intermediária que explica o fenômeno da ilusão e o modo como esta sustenta a constituição e a manutenção da realidade compartilhada.

Gilberto Safra, comentando, diz:

“Essa terceira realidade chamada por Winnicott de transicional permite que o indivíduo possa suspender o julgamento do que sou eu ou o outro, do dentro e do fora; do passado, presente e do futuro, do imaginado e do acontecido. Abre-se o campo para o jogo, o faz de conta, o era uma vez, e para o repouso ativo. O ser do homem cria-se e recria-se neste espaço intermediário em formas artísticas através das palavras, imagens, sonoridade, tudo o que pode ser utilizado como meio de constituir a sua experiência existencial”. (Safra, 2000, p. 8)