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2.1.1. Materiais constituintes: ligante, agregados e adjuvantes 2.1.1.1. Cal aérea

No Alentejo, a cal área3 utilizada em obras públicas e decorações (Leitão, 1896) parece ter sido, maioritariamente, de proveniência local, sendo o seu emprego atestado por antigos pedreiros, por alguns dos processos de obra das cidades de Évora e Beja entre 1930 e 1960 e por alguns estudos científicos recentes (Margalha, 1997; Adriano e al, 2007 e 2008). Em Trigaches (concelho de Beja), em Viana do Alentejo, no Alvito, em Bencatel (concelho de Borba), em Montes Claros (concelho de Borba) e em Moura existiram alguns dos pontos de produção que se mantiveram activos até 1997 (Margalha, 1997). Destes, só os dois fornos, aparentemente com cerca de 500 a 600 anos, existentes em Montes Claros4 se mantêm em laboração (Margalha, 1997; Margalha e al, 2008).

Dependendo da geologia local, cada centro de produção era caracterizado por um número limitado de tipos de cal que eram escolhidas conforme o fim pretendido (Veiga e al, 2004). Foram disso exemplo, a cal preta e a branca, produzidas no vasto complexo de fornos que existia na proximidade da aldeia da Escusa (Castelo de Vide) até meados da década de sessenta do século XX, altura em que a exploração da pedreira de calcário, de onde era extraída a matéria-prima, foi abandonada (Cid, 2005).

Os termos “cal preta”, “negra”, “de obra” ou “parda” são todos sinónimos do que é, em geral, uma cal magnesiana ou dolomítica. Este tipo de cal, mais escura devido ao magnésio5 estava normalmente reservada para as argamassas mais grosseiras de assentamento das alvenarias e de rebocos enquanto a cal branca se destinava a “trabalhos mais finos” de barramentos ou “barradas”, caiações a branco e a cores.

3 A especificidade da cal não é mencionada na maior parte da documentação como ainda não o é na gíria comum

mas pode ser depreendida pelo processo de extinção, preparação e, sobretudo, pelo fim a que se destinava. Segundo Luís Augusto Leitão no Curso Elementar de Construções (1896), a cal hidráulica era, em geral, destinada ao fabrico de argamassas que se destinavam a estar expostas à acção da água ou da humidade enquanto as cais aéreas eram utilizadas nas argamassas expostas apenas ao ar. Entre os tipos de cal aérea, as gordas poderiam ser também utilizadas em superfícies que viriam a estar em contacto com água, desde que fossem misturadas com substâncias que lhes conferissem propriedades hidráulicas. Esta regra parece ter sido seguida na maioria dos casos, não se tendo até ao momento encontrado evidências da utilização de cais hidráulicas nos revestimentos de edifícios antigos expostos ao ar na região em estudo (Adriano, P. e al., 2007, cathedral.lnec.pt/publicacoes/a3 e c10. pdf).

4 É de realçar que a região que engloba Borba, Vila Viçosa e Estremoz é um dos principais centros de extracção

da pedra mármore em Portugal. Em 1927, eram elogiados os mármores saídos das pedreiras desta região, incluindo os de Montes Claros. (Guia de Portugal II, Vol. II, 2ª reimpressão, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, pp. 98, 99 e 111)

5 As rochas dolomíticas são igualmente mais duras e compactas que as rochas calcárias devido ao seu alto

conteúdo de carbonato de magnésio (MgCO3). Este tipo de cal pode possuir algumas propriedades ligeiramente

hidráulicas. (Veiga, M. R. e al, op. cit, 2004, p. 6 e Technique di execuzione e materiale costitutivi, Dimos, parte I, Modulo I, ICR, 1978, p. 91).

Sobre a natureza e propriedades da cal preta de origem alentejana, em 1631, o Arquitecto Mattheus do Couto o velho escrevia:

(...) Desta cal de pedra rija como Pederneira há em Alentejo, em Pavia, e se uza della em Evora, Aviz, e nas Vendas da Sylveira; também em Alentejo se faz desta Cal que ainda não tão perfeita como a de Pavia, he mais forte que a de cá, esta cal he preta como cinza ao tirar do forno, mas em obra fica mais alva, mas não tanto como a nossa Pedra Lioz 6.

Depreende-se deste excerto o cuidado que, em termos históricos, desde muito cedo foi dado á escolha da pedra com base em saberes empíricos ou em estudos sistemáticos que se iniciaram a partir do séc. XVIII (Aguiar, 2005; Mateus, 2002). Estes últimos, frutos de um novo espírito científico e dos progressos em áreas como a da química, permitiram, gradualmente, distinguir as diversas qualidades de pedras calcárias e a sua influência na qualidade do produto final de cozedura.

Diferentes tipos de pedras calcárias7 dão naturalmente origem a diferentes tipos de cal aérea ou comum. Assim, consoante a pureza e natureza da cal8, pode distinguir-se a cal gorda - quando resultante de calcários com teores em carbonato de cálcio acima dos 99%, cal magra9 -quando possui cerca de 1-5% de impurezas, e a cal magnesiana ou dolomítica - quando o teor em óxido de magnésio excede os 20%. Esta última é obtida da calcinação de rochas onde estão presentes compostos de carbonato de cálcio e de carbonato de magnésio (rochas vulgarmente conhecidas por dolomites) (Veiga e al, 2004).

6 Excerto citado por José Aguiar em Cor e a cidade histórica: estudos cromáticos e conservação do Património,

FAUP publicações, Porto, 2º Impressão, 2005, pp. 204 e 205. Segundo este autor, a obra manuscrita de Mattheus do Couto o velho, intitulada Tractado de Architectura é uma das mais antigas com referências úteis para a restituição das artes da cal.

7 Em termos mineralógicos os calcários podem ser classificados pela presença de maior ou menor percentagem

de carbonato de cálcio. Acima dos 98% são considerados muito puros; entre 96 a 98% são puros; entre 90 a 96% margosos e, finalmente, são consideradas margas entre os 75% a 90%. É das margas que se obtém maioritariamente a cal hidráulica, enquanto a cal aérea se obtém da cozedura de calcários com elevado grau de pureza. Em termos químicos os principais elementos que compõem estas rochas naturais são o cálcio, o silício, o alumínio, o ferro, combinados com o oxigénio (Margalha, M.G, Conservação e Recuperação de Construções em

Taipa, Acção de Formação – Taliscas – Odemira, 2008, pp. 4 e 5). 8

Raramente os carbonatos de cálcio utilizados são completamente puros. Outras substâncias ocorrem normalmente nas rochas carbonatadas, como por exemplo as argilas, o magnésio, o ferro e até mesmo matéria orgânica. Estas, não sendo eliminadas no processo de calcinação podem alterar o comportamento posterior das argamassas. Contudo, segundo M. G. Margalha (1997) a presença de impurezas pode, por vezes, ser benéfica para certos tipos de trabalho (caso de argamassas que resultam melhor com um certo grau de hidraulicidade).

9 A cal gorda e a cal magra constituem o grupo da cal aérea ou comum, porque endurecem ao ar livre. A cal

hidráulica faz presa debaixo de água e classifica-se diferentemente conforme a rapidez com que se processa esse endurecimento (Leitão, L. A., Curso Elementar de Construções, Lisboa, Imprensa Nacional, 1896, p. 365 e Veiga, M. R. e al. op. cit, p. 5)

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Enquadramento Histórico das técnicas a cal (século XVIII ao XX)