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6. Looking directly into the classroom

6.4 Analysis and discussion

A maleabilidade discursiva ocorre mediante a articulação de múltiplos saberes que se agregam e se complementam em função do investimento; são saberes advindos principalmente da ciência e da experiência prática dos especialistas da beleza, transmitidos às leitoras através de seus porta-vozes (personal trainers, médicos, nutricionistas, consultores de moda, beleza e estética etc.), que, a nosso ver, atuam como verdadeiros educadores no âmbito da educação midiática.

Na matéria outrora citada (treino + dieta para cada idade), o primeiro encarte anuncia que um endocrinologista e uma fisioterapeuta (duas autoridades da ciência) “somaram forças e elaboraram cardápios e programas específicos [de alimentação e ginástica] para cada fase do corpo feminino”. Em outras palavras, por serem representantes do saber científico, estes especialistas adquiriram a autoridade necessária para elaborarem programas (de vida) com orientações gerais para que, a partir delas, as leitoras modifiquem seus hábitos e adquiram novos, corretos e saudáveis do ponto de vista científico, e que, justamente por essa especificidade, garantidamente propiciarão qualidade de vida, beleza, saúde e felicidade a quem as seguir.

Outro exemplo interessante a esse respeito é a matéria intitulada Mamãe Maravilha, da edição 245 de Corpo a Corpo, de maio de 2009. Nela, a atriz Bianca Rinaldi30 revela os cuidados que tem com seu corpo em virtude da gravidez de gêmeos. No decorrer da matéria, há toda uma articulação entre as dicas dadas pela atriz e as indicações dos médicos, nutricionistas e personal trainers que a acompanham durante o período da gestação. Conjuntamente, percebemos nesta matéria outra manifestação de metamorfose do discurso: o cuidado que gera beleza também garante a saúde e o bem-estar não só da mãe, mas também dos bebês.

Figura 14 – Duas primeiras páginas da matéria Mamãe Maravilha presente na edição 245 de Corpo a Corpo, de maio de 2009

Mas, como já assinalamos, nossas análises apontam que não apenas os representantes da ciência possuem, dentro do cenário midiático, autoridade para ditar verdades ao corpo. Existe, também, toda uma gama de saberes transmitidos pelos consultores de beleza: são maquiadores, cabeleireiros, esteticistas, manicures etc., ditando seus conhecimentos e prescrevendo fórmulas, atitudes e os mais variados cuidados a serem tomados pelas mulheres a fim de manterem/tornarem seus corpos (cada vez mais) jovens e belos.

A seção Consulta Express de Corpo a Corpo, por exemplo, é uma seção de perguntas de leitoras e respostas de especialistas. Vejamos alguns fragmentos desta seção, presente na Corpo a Corpo de agosto de 2009:

Mesmo quando uso demaquilante, fico com as pálpebras escurecidas pelo rímel. Por que isso acontece? Marina, de Cuiabá (MT)

“Se você usa máscaras à prova d‟água, escolha um demaquilante mais

oleoso (do tipo bifásico). Ou massageie os cílios com óleo de bebê, mineral ou de amêndoas. Depois limpe a região com um algodão umedecido em

água, ou lave com sabonete facial líquido”, ensina Penélope Beolchi,

Ouvi falar sobre peeling de urucum. Para que serve? Dirce Moreira, Álvares Machado (SP)

“Essa planta tem excelentes ativos clareadores, além de efeito antioxidante,

que combate os sinais do envelhecimento. O peeling é indicado para manchas faciais e trata, principalmente, o melasma pós-gravidez”, explica Teresinha Abreu, esteticista do salão Crystal Hair (RJ) (…) (Ibid., Idem). O meu cabelo é muito oleoso, e algumas horas após a lavagem, já fica parecendo sujo… Silvana Santos, Cuiabá (MT)

Mulher nenhuma gosta de ver a cabeleira pesada e sem brilho. Geralmente o excesso de óleo nos fios está ligado a alterações hormonais, que estimulam a

produção de sebo. Existem ainda outros facilitadores. “O estresse, o uso de

água muito quente e de produtos inadequados ao tipo de fio acentuam o problema. Escolha um xampu sem sal, próprio para cabelo oleoso, use o

condicionador só nas pontas e água fria na lavagem”, explica Zenaldo

Rocha, do Pedro Paulo Cabeleireiros (RJ). E evite passar as mãos no cabelo, ou escová-los demais (Ibid., Idem).

Em uma primeira análise, poder-se-ia admitir que esses profissionais objetivam meramente informar as leitoras a respeito de técnicas e produtos disponíveis no mercado para a melhoria da aparência física de seus corpos. Entretanto, sob outro ângulo, percebemos que, para além dessa dimensão informativa, a fala desses especialistas aponta para uma dimensão formativa; ou seja, eles não apenas informam, mas efetivamente ensinam as leitoras a como tratar seus corpos: o que desejar deles; como olhar pra eles; como atuar sobre eles.

Em outras palavras, esses profissionais agem efetivamente como agentes de subjetivação que dizem às mulheres contemporâneas o que é necessário para elas se tornarem modernas31, definindo, com suas falas, o que é, afinal, o corpo belo, saudável etc.

Vejamos mais um exemplo, agora presente na edição 240 de Corpo a Corpo, de dezembro de 2009; trata-se de uma pequena tira da seção Vida Leve, que diz:

VÁ DE ÁGUA. Se você quer domar o seu apetite voraz, procure consumir alimentos ricos em água e fibras. Segundo Tamara Mazaracki, nutróloga da Clínica Slin (SP), além de saciarem, eles fazem com que o corpo gaste mais calorias para digeri-los. Confira em quais apostar: pêra, maçã, melão, melancia, abacate, agrião, cenoura, beterraba, iogurte, abacaxi, banana, manga, água de coco, pepino, aipo (CORPO A CORPOd, 2008, p. 150)

31

Pelo termo, desejamos designar mulheres que atendem ao perfil desejável de mulher na contemporaneidade, tendo em vista os atuais padrões corporais estéticos: mulheres magras, saudáveis e felizes, que atuam sobre seus corpos através de intervenções tecnológicas como as maquiagens, os perfumes, os cosméticos em geral etc., e também através de técnicas de intervenção como as cirurgias plásticas e os procedimentos de medicina estética. Mulheres trajadas com as últimas tendências de moda, cuja alimentação é balanceada e o corpo, esculpido pela prática dos exercícios físicos.

Com a tira acima, podemos exemplificar a atuação como agente de subjetivação destes que estamos chamando de novos educadores: primeiro, a nutróloga aponta os alimentos ricos em água e fibras como alimentos aconselháveis a quem deseja perder peso. Em seguida, diz quais são estes alimentos. Já podemos ver aí a atuação desta representante do discurso científico, no sentido de condicionar o comportamento da leitora para que consuma dados alimentos por ela ditos bons.

Entretanto, a amplitude de sua fala não se encerra aí, porque, ademais do condicionamento do comportamento da leitora, a fala da especialista aponta para o enunciado do “corpo magro, corpo desejável”. Ou seja, sua fala atua na subjetividade feminina, por um lado, condicionando seus comportamentos e, por outro, ditando-lhe padrões de beleza e estética.

O mesmo ocorre com a fala dos consultores de beleza. Por exemplo, no terceiro exemplo citado da seção Consulta Express de Corpo a Corpo, a especialista diz o que fazer para o cabelo perder a aparência de sujo, ao mesmo tempo em que está estabelecendo que um cabelo oleoso não condiz com a aparência da mulher bela.

No espaço midiático, portanto, vemos surgir novos personagens (novos educadores) e novas roupagens aos processos de subjetivação (novas formas deensino), isto é, profissionais que não foram propriamente instruídos para atuarem como instrutores, mas que, frente às possibilidades inauguradas pela mídia, podem assim atuar.