3.3 RSA cryptosystem
4.1.2 Analysis of the determinant of M
Se a assertiva de Constantius de que o interessante e a repetição são incompatíveis é em seu todo verdadeira, então não se pode falar dele como uma categoria limite ou como uma categoria que aponte para o domínio da ética ou mesmo o interpenetre. No entanto, como já foi mostrado, a fala de Constantius acerca do interessante encontra-se na primeira parte do livro, e segundo ele próprio tudo o que é dito ali ou é bufonaria ou uma meia verdade. Esta assertiva abre a possibilidade para que a categoria do interessante seja concebida do ponto de vista da infinitude da idealidade ética, de tal modo que ela se configuraria no ideal como o infinitamente interessante, que já se distingue da forma simples e imediata do interessante que é “amar a mudança”332. A Selbstgenugsamkeit de Constantius, o querer a repetição sem sofrimento, é mais um indício da ironia dessa sua fala, o que faz com que ele afunde na sua própria descoberta. A primeira assertiva, o amor à mudança, e a segunda, o querer insuficientemente a repetição, consistem na primeira e na segunda forma do interessante. A terceira, exemplificada pelo jovem da repetição, indica um movimento a mais, cujo significado, encontra sua explicação para além do interessante; e para compreendê-lo é preciso pensar não o interesse como uma conformidade a fins, mas agora transfigurado no inter-esse, num estar entre duas infinitudes, e num confronto paradoxal com a própria noção de infinito. A retórica trabalhada no texto da Repetição, bem como nas notas que remetem a ele, mostra que essa abertura para a infinitude traz a possibilidade de uma interpretação estética, embora num sentido específico.
O fracasso em se atingir a repetição leva Constantius a uma descrença na sua possibilidade; no entanto, ele aconselha o jovem a seguir em sua busca, ainda que não acredite mais nela. O
330Idem, p. 50.
331Idem, p. 50. A relação da repetição com a metafísica será melhor detalhada no capítulo seguinte. 332Fear and Trembling/ Repetition, p. 326.
jovem, por sua vez, mesmo quando tudo parece perdido, continua a crer, e por fim a repetição aparece para ele, embora numa forma não plenamente adequada. Mas para o próprio jovem isso não importa: “que é a repetição de bens terrenos, que são indiferentes no que respeita à determinação do espírito, quando comparada a uma repetição como esta? (…) Só é possível a repetição do espírito, embora nunca seja tão perfeita na temporalidade como na eternidade, que é a verdadeira repetição”333. O seu estado de ânimo é, nessa ocasião, de regozijos inexplicáveis, cuja descrição só pode ser dada em que ele diz: “sou de novo eu mesmo”334. A sua repetição foi a recuperação e a retomada de si próprio, livre da “fórmula mágica”335 que o aprisionava.
Chama a atenção, no entanto, o modo como ele descreve o “júbilo festivo” que o arrebata na última sentença de sua última carta: “que viva a dança do turbilhão do infinito, que viva o movimento das ondas que me esconde no abismo, que viva o movimento das ondas que me lança pra lá das estrelas”336. O sentimento inefável que o jovem experimenta aqui é o da sua interioridade em movimento, “onde a cada instante se arrisca a vida, onde a cada instante se perde a vida e se volta a ganhá-la”337, mas um movimento que oscila no interstício entre o abismo e as estrelas. Esse estar-entre é aqui novamente a figura do inter-esse, mas num sentido distinto, não mais teleológico e conformado à generalidade do universal. Vê-se portanto em que medida o interessante ultrapassa, nesse sentido, o meramente estético descrito enquanto esfera da existência, contudo preservando paradoxalmente um elemento fundamentalmente estético que remete à questão do sublime. Aquilo que Holmgaard chama de estética da repetição se confirma no sublime por meio da noção com que o jovem aguarda a resolução o seu conflito: a tempestade, que é a superação do seu estado de suspensão: “a segurança de que ele foi harmoniosamente 'unificado' consigo mesmo novamente é acompanhada do fato estranho de que o movimento de sua alma é tão assustador quanto elevado, transformando a própria ideia de unidade e identidade em uma luta interior com o infinito”338.
A concepção do “substrato” religioso que acompanha o ânimo de poeta do jovem sob a rubrica do sublime indica que o seu movimento religioso encontra de algum modo uma expressão exterior no poético, sob a determinação da comunicação indireta, cujas figuras determinantes (entre elas a pseudonímia e a ironia) são elementos indispensáveis. Mas isso não é o suficiente, pois em Kierkegaard os elementos estéticos se mostram o tempo todo como artifícios que, na manifestação explícita de sua artificialidade, só podem ser concebidos no seu caráter estético como não estando à altura do religioso, e portanto não podem expressá-lo nunca de maneira adequada; o que os leva, dessa maneira, em todo momento a conflagrar-se com seus próprios limites e com o saber de sua
333Repetição, p. 132. 334Idem, p. 132. 335Idem, p. 132. 336Idem, p. 133. 337Idem, p. 132.
própria superficialidade. Tal é o sentido negativo do poético que designa esse substrato religioso do jovem; e como é sabido, tal negatividade poética, ou como se chama no Conceito de Ironia, a subjetividade negativa absoluta339, é a própria figura da ironia.
Nesse sentido, cabe apontar novamente que a origem da própria noção de interessante é a mesma da ironia. O solo comum entre as duas é, pois, a cisão fundamental entre o dito e o significado (Meinung), ou seja, a ambiguidade infinita340: enquanto a ironia a tem como fundamento de sua manifestação, o interessante designa propriamente o locus onde a ideia se determina – ou ainda, onde ela se esforça por se determinar, pois o interesse como ambiguidade é aqui a marca do seu esforço por determinação, no qual ele ainda não se precipita no abismo do nada, nem se consuma no ser-si-mesmo. A ironia, com relação ao saber de si mesma em validade positiva, encontra-se num “estádio intermediário, que não é o novo princípio e contudo o é”341. Desse modo, no que se refere ao poético que determina o espírito do jovem da Repetição, tanto o interessante como a ironia encontram sua subsistência, sem que no entanto se tornem nele o traço predominante. O caráter fundamental da sua disposição poética funda-se, bem entendido, no substrato profundo do religioso, no “voo do pensamento” e no “perigo da vida a serviço da ideia”342, a quem o poético se torna, pelo bem da própria possibilidade de comunicação, um elemento subjugado. Tal relação assemelha-se à chamada ironia dominada, naquilo em que ela deixa de circunscrever uma disposição meramente estética, e passa a subsistir a serviço da ideia como um pressuposto de consciência, em que “não encontra-se presente em algum ponto particular da poesia, mas sim onipresente, de tal modo que a ironia visível na poesia é por sua vez dominada ironicamente”343.
Essa relação assume em A Repetição a forma da relação de Constantius, o prosador irônico por excelência, com o jovem poeta que vive pela ideia, e a quem, portanto, a ironia encontra-se subordinada. Nesse sentido, a ironia também permeia a relação autor-obra, no sentido de que nela “a realidade dada é imperfeita (…) assim parece tornar-se necessário mais uma vez relacionar-se ironicamente com toda e qualquer produção poética individual, já que cada produto individual é mera aproximação”344; e, como a realidade mais alta se corporifica no efetivo apenas de modo imperfeito, a ideia não encontra-se na poesia, mas “em permanente vir-a-ser”345. Eriksen nota que essa relação designa na verdade o positivo do ponto de vista socrático, na medida em que o saber de Sócrates encontra o seu momento positivo no saber de sua negatividade: “a ignorância socrática não é somente uma falta de sabedoria, mas o saber da falta de sabedoria, e portanto uma relação com o 339V. Conceito de Ironia, p. 226.
340Conceito de Ironia, p. 168.
341Essa é a designação que Kierkegaard pretende dar à validade histórico-universal do princípio socrático, em que aos olhos do geral ele torna-se um herói. Por isso sua vida pode ser designada "a mais interessante de todas". Cf.
Conceito de Ironia, p. 164.
342Repetição, p. 133.
343Conceito de Ironia, p. 275. 344Idem, p. 272.
desconhecido enquanto desconhecido”346.
Ora, essa relação irônica com o efetivo deve, se se a quer posta adequadamente em prática, ter como um pressuposto a negação da completude ao próprio efetivo; dito de outro modo, o resultado deve ele próprio ser visto como algo inacabado e em permanente vir-a-ser de si mesmo. O resultado disso é que a determinação estética da contemplação é posta em xeque, na medida em que ela é possível somente numa totalidade plenamente atualizada, o que permanece de fato impossível, a não ser na ideia. Isso indica por que razão uma repetição do ponto de vista do poético é sempre inadequada com relação à sua perfeição na eternidade; mas mostra também, por outro lado, que a atitude do indivíduo perante a repetição, para que se preserve a sua designação fundamental de categoria de movimento, deve se estabelecer na medida em que a própria liberdade individual é posta em movimento347. Constantius, na carta a Heiberg, desenvolve em vários momentos uma crítica à atitude contemplativa do indivíduo com a repetição, em que o indivíduo estaria supostamente num locus privilegiado em que tanto ele quanto a repetição seriam concebidos em pleno ato. Ele começa a opor a contemplação à liberdade:
“(...) qual o significado que a repetição possui no domínio do espírito, pois de fato todo indivíduo, apenas ao sê-lo, é qualificado como espírito, e seu espírito possui uma história. Aqui o problema emerge novamente, e a questão se torna: qual significado a repetição possui aqui (…). Aqui o indivíduo não se relaciona contemplativamente com a repetição, pois os fenômenos em que ela aparece são fenômenos do espírito, mas ele se relaciona com eles na liberdade” 348
A crítica de Constantius a Heiberg temo como mote o fato de que este último vê a repetição como um problema estético. Para ele, o ideal da repetição é a da lei do fenômeno natural, enquanto que no mundo do espírito haveria somente progresso. Mas dessa forma, a repetição é externa ao indivíduo, e cabe a ele frente à repetição apenas uma atitude contemplativa, pois ele não pode dessa forma ser concebido como capaz de uma ação livre que interfira no curso do mundo349. Assim, põe- se como essencial na pergunta sobre a repetição a questão da individualidade histórica na relação com a repetição, que se traduz na pergunta sobre se no indivíduo por pressuposto situa-se na continuidade com o passado individual e histórico e com o desenvolvimento espiritual do mundo:
“A questão concerne à relação da liberdade com os fenômenos do espírito, no contexto no qual o indivíduo vive, enquanto a sua história avança em continuidade com o seu próprio passado e com o pequeno mundo que o rodeia. Aqui a questão se torna aquela da repetição
346ERIKSEN, N. N.; Kierkegaard's Category of Repetition: a reconstruction, p. 163. 347Esse tema desenvolver-se-á no cap. 4 dessa exposição.
348“(...) what meaning does repetition have in the domain of the spirit, for indeed, every individual, just in being an individual, is qualified as spirit, and his spirit has a history. Here the issue arises again, and the question becomes: What meaning does repetition have here (...). Here the individual does not relate contemplatively to the repetition, for the phenomena in which it appears are phenomena of the spirit, but he relates to them in freedom”. Fear and
Trembling/ Repetition, p. 289.
nas fronteiras da sua vida, da repetição dentro da sua vida”350
O indivíduo contemplativo permite a si mesmo o privilégio de assistir a sua própria existência pois ele pressupõe inadvertidamente essa continuidade histórica com o presente como algo dado de antemão, e não chega a perguntar-se sobre a possibilidade mesma de uma distonia em algum ponto; o que se traduz na questão sobre a possibilidade ou não da repetição no espírito. Heiberg, segundo Constantius, concebe a repetição na natureza, pois a havia dado como pressuposta na individualidade qualificada como espírito livre, o que mostra que o primeiro problema da liberdade: se há ou não repetição, sequer chega a ser posto em questão:
“Quando se fala sobre individualidade, sempre se a concebe como contemplativa ou como esteticamente ambígua. Que há uma repetição é sempre certo, e o que te preocupa é ajudar o indivíduo a ganhar um sentido para a repetição. Mas a primeira tarefa da liberdade – se há ou não repetição – não é posta de maneira nenhuma”351
A pergunta pela repetição vincula-se à questão da contemplação especialmente através da questão temporal do início, em que a individualidade livre vem a tornar-se efetiva. A questão concerne especificamente à possibilidade de o indivíduo perder-se a si mesmo no seu início e portanto ter de recomeçar; se tal início é possível e se é possível recuperar (repetir) aquilo que se perde nesse início. O ponto é que aqui o indivíduo, pelo simples fato de encontrar-se em jogo na situação temporal, o tempo todo arriscando perder-se e recuperar-se a si mesmo, não pode ser situado esteticamente como um indivíduo contemplativo: este último já percorreu o caminho, já atingiu a plenitude do absoluto; é, no dizer de Hegel, o ponto de vista do acabamento. Ele é, para si mesmo e para o mundo efetivo, como uma divindade. A lamentosa interpelação de Constantius sobre a vaidade, em que o tempo deixa de fazer qualquer sentido, diz respeito a este ponto de vista estético contemplativo em que a repetição não foi posta enquanto questão pertinente: "quando tudo é vaidade e tudo passa, viaja-se mais depressa que num comboio (...) Continua, tu, drama da vida; que ninguém lhe chame uma comédia, ninguém uma tragédia, pois que ninguém lhe viu o fim!"352.
O discurso de Heiberg vê a repetição com relação ao estético apenas no domínio da metodologia analítica: a repetição seria um modo de deparar-se novamente com o prazer de desfrutar uma obra de arte como também um meio de aprofundar-se nela. Constantius rebate afirmando que a sua experiência da repetição com a viagem a Berlim também pode ser lida desse modo; pois é uma bela cidade, assim como uma obra também é bela. Mas nesse sentido qualquer coisa pode ser submetida a esta operação estetizante, e tudo pode tornar-se belo de alguma maneira. 350“The question concerns the relation of freedom to the phenomena of the spirit, in the context of which the individual lives, inasmuch as his history advances in continuity with his own past and with the little world surrounding him. Here the question becomes that of repetition within the boundaries of his life, of repetition in his life”. Idem, p. 288. 351“When you speak about the individuality, you always conceive of him only as contemplating or as esthetically
ambiguous. That there is repetition always remains certain, and what preoccupies you is assisting the individual to gain a feeling for repetition. But the first issue of freedom—whether there is repetition—is not touched on at all”. Idem, p. 289.
Nesse sentido, tomar algo como belo passa ser o mesmo que tomá-lo como divertido, algo que não deve ser levado a sério, um mero entretenimento, coisa a que Constantius não está disposto: “este é o aspecto divertido da repetição, que jamais deve-se levar a sério”353. A concepção da repetição nesse sentido termina por aniquilar a própria possibilidade do estético. A exclusão da repetição do domínio do theoréin contemplativo termina, assim, por salvar o mesmo, na medida em que ele precisa de uma neutralidade exterior que não pode ser concedida pelo conceito de repetição, que refere-se somente à interioridade do indivíduo na liberdade. A repetição deve ser concebida como seriedade, mas a seriedade na contemplação é totalmente distinta do ponto de vista contemplativo em que tudo passa a ser regido pelo espectro do entretenimento e da distração. O ponto é que a ideia em sua totalidade, o que inclui também o aspecto do belo, não se efetiva por esta via; tudo o que pertence a este âmbito deve engajar-se na positividade do espírito na repetição em sentido pleno: a repetição da própria individualidade elevada a uma nova potência354. A ideia não somente
preserva-se neste movimento, mas eleva a si própria, no movimento que constitui a repetição sensu eminentiori e o interesse mais profundo da liberdade355.
Mas na medida em que constitui um interesse, tem-se novamente nessa nova potência uma designação de cunho estético; de tal forma que se faz necessária uma categoria que dê conta da vertigem da subjetividade na liberdade dentro de seu próprio movimento. Tal é a função do sublime; mas no sentido de que o caráter estético que permeia seu conceito já não se determina mais pelas características do esteticismo romântico vulgar, em que o interessante se degenera numa busca arbitrária pelo novo em si e por si, e em que o conceito de beleza é reduzido ao entretenimento superficial. Ao contrário, estes conceitos transfiguram-se na condição fundamental do artístico em sentido elevado e ao mesmo tempo profundo, mas de uma forma tal que o sentido do estético ultrapassa a si próprio na instauração de seu sentido último, apontando para um substrato que em Kierkegaard se designa como o religioso, mas ao qual ela permanece subordinada, dominada – é o que se dá no caso do jovem com o poético, na transfiguração da melancolia na produção poética por meio da dialética da exceção, que instaura, do mesmo modo que em Abraão, a "presença de um paradoxo que escapa a todas as mediações"356.