Tomando em consideração os principais objetivos da presente investigação, ou seja, analisar a participação desportiva na natação portuguesa, especificamente os motivos do abandono e as determinantes motivacionais do divertimento e das intenções dos nadadores continuarem na prática, os resultados dos diferentes estudos contemplados nesta investigação permitem- nos retirar as seguintes conclusões:
i) A natação pura é a disciplina mais praticada; o abandono tem vindo a diminuir, no entanto, ainda é necessário um grande trabalho pois as percentagens de abandono ainda são elevadas; o género feminino apresenta maiores percentagens de abandono relativamente ao género masculino e as regiões autónomas (Madeira e Açores), são as que apresentam maiores percentagens de abandono;
ii) O abandono não surge como uma razão isolada, mas sim pelo conjunto diversificado de razões;
iii) Foi colmatado uma lacuna na literatura internacional, nomeadamente pela validação confirmatória do único questionário que avalia os motivos para o abandono após os atletas abandonarem a prática; o estudo foi realizado com uma amostra muito grande (a maior amostra conhecida até à data, só numa modalidade); identificação de áreas primárias de atuação de forma a minimizar e /ou atenuar o desenvolvimento deste fenómeno, percebendo-se que quando os atletas abandonam (e.g., pressão e exigência da modalidade), não têm intenções de voltar à prática. Este indicador poderá ser de extrema importância e incluído, com carácter de urgência na formação de treinadores;
iv) Os instrumentos de medida das diferentes variáveis analisadas (motivos para o abandono, clima motivacional, necessidades psicológicas básicas, divertimento), podem ser utilizados com elevado grau de validade de fiabilidade no contexto da natação e revelaram ser invariantes em função do género e/ou outras modalidades enaltecendo a sua robustez psicométrica;
v) Um clima com envolvimento para a tarefa prediz positivamente as necessidades psicológicas básicas (responsável pela sua satisfação), estas por sua vez predizem as formas mais autónomas da motivação (regulação identificada, integrada e motivação intrínseca) e estas predizem positivamente o divertimento e este por sua vez, prediz as intenções de continuar na prática, pelo que quando isto acontece os atletas persistem na prática. À semelhança do já referido anteriormente, este tópico deverá também ser incluído no âmbito da formação de treinadores.
Assim, a partir dos resultados encontrados na presente investigação é possível concluir importantes orientações para a intervenção dos treinadores de natação, nomeadamente nos seguintes aspetos:
i) Promover a diversidade no treino (i.e vertente lúdica) e não apenas centrar o mesmo no desenvolvimento exclusivo de capacidades físicas e técnicas;
ii) Articular o planeamento de treino, tendo em conta outras atividades em que o nadador está envolvido (e.g., reuniões periódicas com os encarregados e educação), privilegiando a relação pais, treinadores e atletas, bem como projetar a natação como promotora de rendimento académico (e.g., nadadores de excelência e bons alunos);
iii) Centrar o planeamento do treino sobre a tarefa (i.e. critérios autorreferenciados) e não tanto no resultado, dando autonomia ao atleta (i.e. descoberta guiada), para que ele percecione a sua competência em contexto de competição e sinta prazer na prática da natação;
iv) Valorizar a evolução pessoal (superar-se a si próprio), em detrimento do resultado;
v) Ponderar a inclusão de provas/encontros no calendário que possam valorizar mais a componente lúdica e recreativa, podendo estudar-se a sua organização em cada associação;
vi) O treinador deverá dar “atenção” a todos, sem exceção, independentemente da qualidade física ou técnica que os nadadores possam ter. Os nadadores devem sentir que o treinador é uma referência, olhando para ele como alguém que esta ali para os apoiar;
vii) Definir objetivos equilibrados, centrados na tarefa e apenas com algum relevo no resultado, ou seja, objetivos atingíveis e reais e não utópicos, devendo ser definidos em função do atleta e não dos pais ou treinadores. Uma inadequação nestes objetivos poderá conduzir a uma errada gestão de expetativas por parte do atleta, o que consequentemente poderá levar a um abandono precoce e a um excesso de pressão na busca de resultados por parte do atleta;
viii) Dar especial atenção aos momentos das transições escolares, designadamente a transição do ensino básico para secundário e deste para o ensino superior, uma vez que nestas fases existe um grande conflito com a prática da natação. A transição do ensino secundário para o ensino superior é caracterizada essencialmente por alterações de rotinas (e.g., mudança de cidade, casa, grupo de pares, etc), o que leva muitas vezes ao conflito com a prática desportiva e consequentemente ao abandono. Como tal, torna-se necessário mudar o paradigma atual, e esta mudança poderá passar por uma reformulação do estatuto de atleta de alto rendimento no ensino superior (e.g., carreiras duais), com as condições necessárias e um maior apoio.
Em suma, consideramos que os resultados obtidos com a realização desta investigação, neste contexto desportivo em particular, colocam à disposição dos treinadores e dos diferentes agentes desportivos, um conjunto de conhecimento e de ferramentas de
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intervenção que permitem o desenvolvimento de estratégias e de políticas de prevenção do abandono, bem como do aumento da longevidade na carreira desportiva. Estas estratégias devem ser tomadas com base nos aspetos motivacionais, tanto ao nível de treino como na tomada de decisão sobre políticas desportivas a serem implementadas, auxiliando não só os treinadores e dirigentes a entenderem como determinadas variáveis funcionam, adequando as suas intervenções às necessidades e constrangimentos de cada grupo na prevenção do abandono desportivo, como os próprios atletas e pais, possibilitando o prolongamento da sua carreira desportiva, evitando assim o abandono precoce.
Como consequência do presente estudo, já foram implementadas algumas medidas, de forma a reduzir o abandono na natação, no plano estratégico da FPN (2014-2024), nomeadamente:
- Alterações no calendário competitivo, com modificações na tipologia de provas, nomeadamente nos escalões de formação;
- Implementação de um plano de formação de treinadores, não apenas na formação inicial, mas também na formação contínua, com a discussão e atualização de conteúdos; - Implementação de medidas institucionais de apoio à conciliação entre a vida desportiva, a vida académica e a vida social.