Os testemunhos dos exilados enquanto memórias narradas levantam uma questão epistemológica relevante no diálogo entre a História e as outras ciências sociais110: como é que a historiografia pode utilizar o conhecimento proporcionado pela memória social e proceder à sua transformação em conhecimento histórico?111 De facto, a transformação de testemunhos resultantes de experiências individuais em fontes orais encerra limitações, na medida em que esse passado evocado no presente «não é o mesmo que aquele constituído pelos eventos decorridos num tempo pretérito», adverte desde logo Elsa Peralta, acrescentando que «é, antes, uma interpretação criativa e plástica que permite preencher a distância que medeia a experiência e a recordação, convertendo o passado em memória»112.
Nesse sentido, as memórias são um «sistema de representação»113 do passado que pode ser ao mesmo tempo «permanente e mutável»114, no sentido em que, apesar de estar encerrado naquilo que de facto aconteceu, é susceptível de sofrer as alterações que decorrem da sua adequação ao presente, isto é, da interpretação de quem recorda: «La memoria individual o colectiva és una visión del pasado siempre matizada por el presente», sintetiza Enzo Traverso115.
A transmissão da memória é assim um processo dinâmico de recriação que fornece um quadro de significação e assegura a estabilidade e identidade116, mas que também por isso dificulta a activação da memória como fonte histórica. O que representa naturais obstáculos à construção do conhecimento histórico neste âmbito disciplinar, tendo em
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Os estudos sobre a memória têm evoluído de forma considerável como metodologia de investigação, por exemplo, na Antropologia. Nesse sentido, esta tese beneficiou da imersão no plano de estudos «Memória, Risco e Incerteza» orientado pelos investigadores Elsa Peralta e Paulo Granjo, no âmbito do doutoramento em Antropologia do Instituto de Ciências Sociais.
111 O debate pode ser seguido em Maurice Halbwachs, Le Mémoire Collective (Paris: Presses
Universitaires de France, 1950); Paul Ricoeur, Memory, history, forgetting (Chicago: The University of Chicago Press, 2006); Pierre Nora, Entre histoire et mémorie. La problématique des lixeus (Paris: Editions de Syrtes, 2000).
112 Peralta, Abordagens teóricas…, 16.
113 Stuart Hall, Representation – Cultural representations and signifying practices (Londres: Sage
Publications, 2003), 1-14.
114 Peralta, Abordagens teóricas…, 17. 115
Enzo Traverso, El pasado, instrucciones de uso – Historia, memoria, política (Madrid/Barcelona: Marcial Pontos, 2007), 22.
116 Cfr. Geoffrey Cubitt, History and memory (Manchester: Manchester Press, 2007); Memory: Histories
Theories, Debates, edit. Susannah Radstone and Bill Schwarz (New York: Fordham University Press,
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consideração o papel do indivíduo enquanto agente interpretativo autónomo num determinado universo cultural.
As memórias dos exilados comunistas constituem um «quadro de referência partilhado de recordações individuais»117, no sentido em que traduzem uma memória social que agrega diferentes passados118 individuais num passado comum, e que encontra o seu significado precisamente no colectivo. O facto de partilharem uma visão do passado através das experiências colectivas viabiliza «o processo de activação e interpretação discursiva das memórias associadas»119 e a sua posterior fixação como conhecimento. Mas também levanta problemas decorrentes dos testemunhos serem necessariamente subjectivos120 na forma como representam o passado, ainda que veiculem uma versão da identidade colectiva que permite a generalização e um certo consenso moral como base estrutural de análise121.
Segundo Elsa Peralta, sendo uma construção particular, o sujeito, como centro perceptivo, emocional e intelectual a partir do qual as particularidades do carácter individual são expressas, «pode ser considerado centro válido para a produção de significado e de conhecimento historicamente determinado». O que resulta da interacção entre as representações íntimas e a consciência histórica (entre memória e História). Mais do que uma construção pessoal, trata-se de uma construção de carácter histórico e, nesse sentido, «a memória, mesmo que autobiográfica, converte-se numa forma outorgada de conhecimento sobre o mundo»122.
Os limites anteriormente considerados para a activação das memórias dos exilados necessitam de uma instrumentalização específica, na medida em que os estudos da memória interpretam o passado com uma «rede de malha mais larga do que a utilizada pela História». O que resulta numa «dose maior de subjectividade» daquilo que foi
117 Peralta, Abordagens teóricas…, 18.
118 Passado articulado para se constituir como memória. 119
Elsa Peralta, A memória do mar: património, tradição e (re)imaginação identitária na
contemporaneidade (Lisboa: ISCSP, 2008), obra que resulta da tese de doutoramento da autora.
120 As memórias significam necessariamente coisas diferentes para pessoas diferentes. Recordar é um acto
individual. Porém, diversos autores de outras ciências sociais que não a História têm conceptualizado a memória enquanto fenómeno eminentemente colectivo.
121
Emile Durkheim, The division of labour in society (New York: Free Press, 2014).
122 É também necessário considerar que a construção da memória implica precariedade e conflito.
Alexandra Barahona de Brito refere que o «processo de criação da memória é parte integrante de um processo de construção de diversas identidades sociais, políticas ou culturais, que determina a forma como distintos grupos sociais vêem a política nacional e os objectivos que pretendem alcançar no futuro».
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vivenciado123, mas sem que isso trave o seu potencial na produção do conhecimento historicamente determinado.
É neste sentido que a sua transformação em fontes históricas depende da História Oral. Esta metodologia permite activar o passado através dos testemunhos directos dos protagonistas, interpretar essas representações no contexto concreto dos colectivos de exilados assim constituídos e introduzir um sentido histórico na articulação e verificação com todas as outras fontes. «Apesar desta independência relativamente à memória social, a prática da reconstituição histórica pode receber, de formas importantes, um impulso orientador da memória dos grupos sociais e, por sua vez, dar- lhe um contorno significativo», aponta Paul Connerton124.
Nesse sentido, a historiografia possui os instrumentos que permitem superar eventuais contradições decorrentes desta forma de activação do passado e utilizar a memória social através da verificação empírica e documental. Ou seja: se a memória poder eternizar o passado no presente, não deixa de ser igualmente verdade que a historiografia pode proceder à sua fixação como conhecimento histórico em recortes temporais concretos e organizado de forma objectiva e verificável.
4.2 A identidade dos colectivos de exilados
É precisamente a memória social que permite categorizar a identidade dos comunistas exilados, na medida em que a sua afirmação assenta nas representações que resultam dos processos de rememoração e consequente inscrição no presente através da narração do sucedido125. A construção da identidade dos colectivos estudados no âmbito desta tese pode assim ser efectuada através do «conjunto estruturado de elementos identitários» que permitiram aos seus membros identificarem-se como «um nós»126. Os comunistas portugueses no exílio constituíram-se desde logo como um grupo autónomo na base da sua identificação como comunistas revolucionários associados a uma certa ideia de universalidade, ou seja, a luta permanente para transformar a
123
Traverso, El passado…, 22.
124 Paul Connerton, Como as sociedades recordam (Oeiras: Celta Editora, 1999), 14. 125 Michel Wieviorka, A diferença (Lisboa: Fenda edições, 2002).
126
Xénia Venusta de Carvalho, Identidade e memória na comunidade israelita de Lisboa (Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2014).
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sociedade segundo o modelo comunista internacionalista. É isso que os torna diferentes dos outros exilados e permite fixar parte da sua identidade colectiva.
Trata-se de uma componente diferenciadora também por estar associada a ideais de
sacrifício e de martírio, que acabam assim por se traduzir também numa certa sobrevalorização identitária, na medida em que, explica Nanci Adler, o comunismo era
para muitos «o único sistema de crenças que tinham conhecido durante grande parte das suas vidas e, como tal, tinham chegado a ocupar o lugar que noutras sociedades é das religiões como a procura do sentido da vida»127.
Mas a categoria-base comunistas revolucionários não representa por si mesma um factor absoluto de caracterização, na medida em que também no interior existiam comunistas revolucionários. É o exílio que os distingue. Esta terceira característica diferenciadora dos comunistas revolucionários decorre da circunstância que Denys Cuche classifica como um «tipo extremo de estratégia» de identificação «para escapar à discriminação, ao exílio ou até ao massacre»128.
Quanto à sua agregação como colectivos, no estudo que elaborou para distinguir entre «acção individual» e «acção colectiva», Luc Boltansk fala do colectivo como um «universo sujeito à lógica das relações pessoais em que os indivíduos estão ligados por um passado comum e muitas vezes fechado numa rede de dívidas recíprocas»129. Acrescenta que «o uso de retórica política (especialmente quando é emprestada da tradição do movimento operário) é a maneira perfeita de se relacionar com um grupo e gerar discurso geral». O sociólogo destaca ainda que «a proximidade de um colectivo pode ser realizada através da identificação com uma pessoa», no sentido em que a ligação ao grupo e a aquisição da identidade são executadas ao mesmo tempo. Álvaro Cunhal funcionou como elemento identitário agregador e o PCP como transmissor da verdade do grupo, ou seja, a verdade que existia fora do sujeito individual130.
127
Nanci Adler, «Em busca de uma identidade: o derrube da União Soviética e a refundação da Rússia», em Política da memória – Verdade e justiça na transição para a democracia, coord. Alexandra Barahona de Brito et al. (Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2004, 313-338.
128 Denys Cuche, A noção de cultura nas ciências sociais (São Paulo: Editora da Universidade do
Sagrado Coração, 1999), 197.
129
Luc Boltansk, L’amour et la justice comme compétences (Paris: Métailié, 1990), 255-356.
130 Cfr. António José Saraiva e Óscar Lopes, Correspondência (Lisboa: Gradiva, 2005), 75. O autor
enquadrou a sua dissidência como uma recusa do comunismo como ideologia totalizante que vinculava uma moral e comportamentos determinados a um grupo, ou seja, uma recusa da alienação da
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Estas características identitárias desenvolveram-se enquanto categoria como produto da experiência no exterior, já que o seu processo de construção decorre precisamente dessa relação antagónica131. Por isso, a investigação inclui as circunstâncias da saída para o
exterior e as dinâmicas locais, ou seja, a construção dos vínculos afectivos e a lealdade
a Moscovo, os processos de dissidência, o relacionamento com rivais ideológicos e outros exilados. A inserção nos países de acolhimento, ou seja, o posicionamento dos exilados como produto histórico, permitiu ainda uma abordagem articulada com os fluxos e refluxos do próprio movimento comunista.
5. A História Oral como metodologia132