Logo no dia 04 a gente tentou negociar com a empresa,a empresa se fez de dura, vê se eles fazem abertura. No dia 05, a gente tentou de novo, a empresa se comprometeu a partir da 17 horas começar a negociar, que ia falar com os chefes. Esse pessoal são muito multinacional, ninguém sabe o que são nem onde moram, né? Daí foram levando, vou falar aqui no linguajar do trabalhador, nesse enrolar. (Representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Limoeiro do Norte) Apenas no dia 11 os representantes da empresa dispuseram-se a sentar com os trabalhadores grevistas, na presença da FETRAECE, da Via Campesina, de representantes do governo do Estado e da secretaria do desenvolvimento agrário.
Figura 38: Representantes da empresa na mesa de negociação, 2008.
Fonte: Acervo da Pesquisa.
Anterior à tentativa de negociação formal, o advogado da empresa, acompanhado do seu diretor,
chegaram, desceram do carro e os trabalhadores cercaram esse carro. E eles ficavam lá, conversando com os trabalhadores, até que nós percebemos que um cara estava gravando, sabe? O outro cara que estava em silêncio estava gravando tudo. Aí a gente foi lá pra dizer que eles estavam ali justamente pra saber quem era o agitador da greve, para depois haver a retaliação, a perseguição. Aí ele (advogado) disse assim pra mim: 'Como é que a senhora já vem dizendo que nós vamos perseguir trabalhadores se a greve nem terminou, a senhora já vem acusando'. Aí eu disse: 'É porque é isso que vocês sabem fazer antes, durante e depois. É isso que vocês fazem e vocês fazem isso sempre. E você, meu caro, você não é diferente, esta empresa não é diferente, muito pelo contrário, vem é reforçar a idéia de que é uma crueldade extrema com os trabalhadores'. […] Aí eu disse: 'Olhe, pessoal, todas essas perguntas que ele está fazendo aqui, ele está querendo saber quem é quem aqui porque nós não estamos aqui em nenhuma mesa de negociação, não está havendo aqui nenhuma rodada, o sindicato não está aqui'. (Professora de História do Ensino Público Municipal)
hermética da empresa de que os grevistas deveriam voltar a trabalhar e aguardar a negociação coletiva, que aconteceria em setembro, momento em que suas reivindicações poderiam ser apresentadas à empresa, que decidiria pelas concessões possíveis.
A questão era mostrar pro governo do Estado que não estava nem no período deles fazerem greve, porque o período de negociação ainda iria chegar e quando chegasse esse período era que (os trabalhadores) levariam isso aí (suas reivindicações) e eles (empresários) poderiam acatar. (Professora de História do Ensino Público Municipal)
Não houve negociação porque o que era que os trabalhadores queriam, pelo menos como garantia pra greve parar? Seria a cesta básica. Esse foi o ponto crucial da greve e naquele momento não houve negociação nenhuma com a empresa. […] A empresa não abriu mão de nada. (Integrante da Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte)
O momento foi, ainda, aproveitado pela empresa para contabilizar aos presentes os gastos sofridos até então, em decorrência da paralisação. “Aí ele disse também do quanto a empresa já tinha perdido nesse período de greve” (Professora de História do Ensino Público Municipal).
Militantes mantêm fechada, desde a última sexta-feira, a via de acesso aos campos de produção, a conhecida estrada do Melão, no Leste cearense. Dezenas de caminhões carregados de melões e abacaxis estão impedidos de sair da fazenda para o Porto do Pecém. A multinacional, que produz em 150 países, assume prejuízos com a paralisação: “a greve, que já foi considerada ilegal, tem sido bastante prejudicial, já tivemos mais de 400 mil dólares em prejuízo”, afirmou Gerente Jurídico e relações institucionais da Del Monte, Newton Assunção.20
As cifras anunciadas, se por um lado, indicavam o quantum que vinha significando prejuízo, por outro, indicavam aos trabalhadores o quantum de riqueza que, produzido por eles, pela empresa era apropriado. Tornava-se, assim, inaceitável a escusa de que a empresa não suportaria os custos decorrentes da concessão de cesta básica aos seus trabalhadores.
A questão da paralisação que houve lá na semana passada, o gerente fez uma reunião com nós […] e ele disse que a empresa teve um prejuízo de cinco milhões, aí nós pegamos e falamos: 'E o que ela ganha nas nossas custas aqui dentro, onde é que está? O que nós sacrificamos a nossa vida, aonde é que está?' Vão contar o prejuízo que ela teve agora, mas não vão olhar pelo sofrimento que nós passamos aqui todo dia. (Trabalhador rural 9)
A questão é só o problema que nós passamos lá, as humilhações que nós passamos nessas empresas, que quero dizer pra vocês aqui todos, ela lá está enricando a nossas custas. E quando chega lá, a fruta chega cem por cento, chega cem por cento lá, mas nem sabem eles como é que essa fruta é produzida aqui, através desses venenos valentes que são produzidos aqui dentro. A empresa hoje está pagando a questão
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dessa paralisação aí, como dizem eles, ela está pagando muito porque o navio deles viajou cedo porque não tinha abacaxi pra viajar, porque nós estávamos parados, sem colher, sem aplicações, sem fazer o plantio. Aí a questão é que nós falamos com o gerente, falamos assim pra ele: 'Por que é que vocês estão tendo esse prejuízo, meu amigo, por que é que você está tendo esse prejuízo hoje por causa de uma coisa tão fácil, por causa de um alimento que nós queremos, o alimento que nós queremos de vocês. A empresa está tendo um prejuízo de cinco milhões de dólares, mas vocês não vêem que nós estamos atrás somente de uma cesta, somente de nosso alimento?' Ele abaixa a cabeça e diz que não tem condições, aí a gente falou assim, falamos em voz alta: 'Pois que a empresa feche e vá embora, que ela não tenha um prejuízo de cinco mil não, mas tenha um prejuízo de dez mil, pra ela largar de ser tão miserável'. (Trabalhador rural 9)
Na reunião que nós participemos lá dentro com o gerente, […] o gerente falou: 'a empresa não tem condições de dar alimentação a vocês, não tem condições de dar uma cesta', mas ela tem condições de ganhar às nossas custas. (Trabalhador rural 9) A negociação em nada resultando, coube aos trabalhadores aguardar pela decisão final da justiça, que confirmaria ou não a liminar concedida acerca da ilegalidade da greve. Os dias de espera, entretanto, não foram dias de paz, pois a polícia, mais uma vez posta a serviço dos interesses privados da Del Monte “esteve presente lá de forma permanente, amaçando retirar os trabalhadores” (Militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST-CE).