8. FOOD FOR THOUGHT
8.6 Analyses of Consumption Estimates and Models
Em essência, a biblioteca tradicional tem como objeto de seu labor a salvaguarda da memória coletiva e, como foi visto, na maioria dos tipos de bibliotecas, será a memória científica, técnica e da cultura erudita que, geralmente, se escolhe para preservar e disseminar. Contudo, esse não será o caso da biblioteca comunitária que, se pensada e efetivada sob os moldes conceituais elucidados anteriormente, terá maior liberdade para criar seu próprio caminho de atuação, constituindo-se como um espaço de mediação de cultura, informação e
memória para sua comunidade.
É justamente sobre esse tipo de biblioteca que Feitosa (2014, p. 14) reflete, quando discorre sobre uma biblioteca que “não só deve conhecer os livros, mas também a vida. Uma biblioteca que pode até lidar com o conhecimento erudito de uma Dona Benta, mas que deve também se entregar aos conhecimentos de vida e os imaginários de um Tio Barnabé”. Vista por esse sentido, a biblioteca comunitária pode incutir em sua constituição e ações tanto os conhecimentos eruditos, como os conhecimentos populares, ou seja, seria um espaço que promove a cultura ligada às identidades e culturas locais.
Uma biblioteca que terá maior liberdade em focar nas “artes do fazer” cotidiano e que reflete a práxis sociocultural de onde se insere. Atuando dessa maneira, a biblioteca comunitária se inscreve mais fortemente em seu contexto, tornando-se, assim, partícipe deste, pois, como se observou no decorrer dessas interlocuções, partilhar memórias significa fortalecer o sentimento de pertencimento nos grupos. É, então, sob esse prisma, que surge a possibilidade de se pensar a biblioteca comunitária como território de memória, lugar que “além do livro e da leitura que se constituem nos seus principais suportes físicos e intelectuais, incorpora também outras atividades socioculturais, políticas, desportivas e/ou recreativas das comunidades usuárias” (PRADO; MACHADO, 2008, p. 11).
Contemplando o conceito de lugares de memória de Nora (1993), sobre o qual falamos anteriormente, Prado e Machado (2008) afirmam que ao aplicá-lo às bibliotecas comunitárias, seu entendimento se atualiza, haja vista, que a memória ligada a essa biblioteca advém de um empreendimento comunitário, cuja missão volta-se a tornar essa memória sempre viva e presente.
Os autores, desse modo, conferem à biblioteca comunitária a condição de lugar de memória, mas, de forma que ela vá além do entendimento explicitado por Nora (1993), que trata do mesmo conceito, sob os olhos da crise da memória e do esquecimento dela. O lugar de memória, na perspectiva da biblioteca comunitária, defendido por Prado e Machado (2008), se reveste de um entendimento desta como um lugar onde memória, cultura e identidade ainda vivem e emanam do lócus em que reside, o que deve ser sempre perceptível em suas ações e acervos.
Freire, na década de 1980, já havia atentado para a perspectiva da biblioteca popular atuar como mediadora dos processos culturais e sociais. Para o autor, essa biblioteca teria a tarefa de preservar o passado local e promover ações de difusão dessa memória, contribuindo, assim, para a formação de cidadãos conscientes de sua história e que podem se posicionar como sujeitos históricos (FREIRE, 1984).
Mesmo se referindo às bibliotecas populares, e não especificamente à biblioteca comunitária, o autor enseja a perspectiva de que, ao trabalhar as questões das memórias de sua comunidade, a biblioteca comunitária abre caminho para a construção e fortalecimento das identidades dos seus sujeitos, estes como personagens ativos em sua história. Para o autor, a informação e a leitura terão papel de destaque na construção da consciência cidadã das classes populares. Não obstante, confere grande relevância aos conhecimentos que o sujeito precisa ter do contexto em que se insere, ou seja, a história e a memória do lugar em que habita.
Sob essa perspectiva, é importante perceber que a biblioteca comunitária, como território de memória, irá conjugar valores da memória e identidade de sua comunidade, os quais participam e são “disputados em conflitos sociais e intergrupais de conflitos que opõem grupos políticos diversos” (PRADO; MACHADO, 2008, p. 6). Ou seja, atuar como espaço de promoção da memória poderá significar assumir posicionamentos políticos e/ou de luta.
Ao colocar a promoção da memória e cultura local na agenda de suas ações, a biblioteca comunitária poderá contribuir também no sentido de desenvolver “um fluxo de democratização da informação que seja recíproco entre elas e suas respectivas comunidades, a consolidação de um sistema autônomo e de integração sociocultural e desenvolvimento local se tornará possível” (PRADO, 2009, p. 381).
Feitosa (2014) apresenta alguns dos aspectos que compõem o cenário comunitário e que podem estar inclusos na dinâmica de atuação da biblioteca comunitária, como: a cultura ou imaginário cultural, que são as teias de significação que estão envoltas no cotidiano da comunidade; as memórias, como fator de grande importância no tecido social que compõe a vida comunitária, e que se perpetuam mediante tradições, imaginários e identidades; as identidades, que são resultados da cultura, tradições, e hábitos; as tradições, entendidas como o movimento sempre renovado da cultura e da memória, ao longo do tempo, e que irão influenciar nas dinâmicas, tanto do presente quanto do futuro do grupo; os cotidianos, sendo estes os espaços nos quais a cultura acontece; os sotaques e dicções, ou seja, as linguagens pertencentes ao contexto, o que abrange o modo de falar, as danças, etc., o que inclui também os modos de comunicação, os diálogos e as formas de dialogar que são próprios do local; os patrimônios que se constituem dos indivíduos (especialmente os idosos), das casas, das ruas etc.
Congregando esses aspectos, a biblioteca comunitária estará atuando como um território de articulação entre a memória e a cultura, tornando-se, assim, “um lócus de leitura e também de criação, de inventividade; um lugar de encontro, de convivência e de produção do saber, da memória, da tradição e da cultura” (FEITOSA, 2014, p. 117).
Prado e Machado (2008) elencam alguns pontos que podem auxiliar a melhor compreender como uma biblioteca comunitária poderá se configurar no conceito de lugar ou território de memória, são eles:
1. Considerar a biblioteca comunitária como território de memória (ou de cidadania); o espaço material dinâmico que se transforma mediante as ações sociais, culturais, religiosas, econômicas e tecnológicas concretas de quem dela participa;
2. Ter um passado histórico de atuação que revele características socioculturais e políticas que transcendam ao seu acervo existente;
3. Estar localizada em regiões periféricas seja na zona urbana ou na zona rural; 4. Ter sido criada horizontalmente, pela e não apenas por uma pessoa física ou
jurídica da comunidade. Em outras palavras, pela vontade e iniciativa própria da comunidade;
5. Apresentar-se como um espaço público, aberto à participação ampla e democrática da comunidade e ao acesso à informação, à leitura, ao livro e a quaisquer outros instrumentos informacionais nela existentes;
6. Atuar como um centro cultural local com evidente valorização da ação cultural; 7. Não ser uma instituição governamental e nem ter subordinação direta com a esfera
pública tanto municipal, quanto estadual ou federal, a não ser de parcerias formais;
8. Não deve ter vínculo, nem tampouco restrição a qualquer tendência política, ideologia e/ou religiosa, e sobretudo não ser utilizada exclusivamente para benefício próprio de um indivíduo ou do grupo que a dirige;
9. Deve seguir os princípios da gestão participativa, estabelecendo articulações locais no sentido de fortalecer sistematicamente os vínculos com a comunidade (PRADO; MACHADO, 2008, p. 10)
Nos pontos elencados pelos autores, pode-se perceber que os aspectos necessários para a caracterização da biblioteca comunitária, como território de memória, se misturam aos atributos conceituais dados a ela, aqueles anteriormente aqui elucidados. O que demonstra que para esses autores, as questões ligadas à memória e à cultura local encontram-se presentes na própria constituição do sentido de biblioteca comunitária. Isso significa dizer que, se a biblioteca comunitária retira de sua agenda de atuação os aspectos ligados à memória e à cultura local, ela caminha para um esvaziamento de sua própria identidade como um projeto
social oriundo de iniciativa comunitária.
Machado (2005), ao relatar a experiência da Biblioteca Comunitária de Heliópolis, localizada em uma favela da cidade do Rio de Janeiro, apresenta o exemplo de um projeto de implantação de biblioteca comunitária, pensado para ser, além de um espaço privilegiado de intervenção social, de acesso à informação e à leitura, também um lugar de “criação de um novo projeto de sociedade, na busca de identidade de grupos marginalizados pelo e do sistema dominante” (MACHADO, 2005, p.116).
Na metodologia do referido projeto, a autora destaca que é dada especial atenção à questão da memória comunitária e dentre as atividades propostas, estão previstas a coleta e a organização de depoimentos dos moradores acerca da história local. De acordo com Machado (2005), essas ações teriam o intuito de preservar e recuperar a memória local, além de “colaborar para o reconhecimento e o fortalecimento dos laços dessa comunidade por meio da própria identificação com o seu passado” (MACHADO, 2005, p.119).
Nesse exemplo dado por Machado (2005), encontra-se aplicada a potencialidade de atuação da biblioteca comunitária como espaço de memória coletiva, a qual é defendida pela própria autora, assim como por Prado (2009), Feitosa (2014), Cavalcante (2014) e Freire (1984). Desse modo, ao acompanhar o pensamento desses interlocutores, permite-se entender que a atuação da biblioteca comunitária permeia, enquanto espaço promotor e difusor da memória da comunidade, alguns aspectos que envolverão, principalmente, uma atuação guiada pelo desejo de conhecer a memória da localidade em que atua. Para além desse desejo, encontra-se também uma vontade de identificação com a comunidade e sua história.
À guisa das discussões aqui tecidas acerca da comunidade e da biblioteca comunitária, percebe-se o quão fecundo e rico de memória, cultura e identidade são cada um desses elementos. Combinar memória e cotidiano pelas bibliotecas comunitárias é promover a perpetuação de culturas, saberes e identidades populares que, por vezes, são esquecidos por poderes dominantes. A despeito disso, esses mesmos grupos encontram formas criativas e independentes de não deixar que suas culturas jazam no esquecimento, a exemplo da própria biblioteca comunitária.