Apesar da organização da pesquisa mostrar especificidades entre diferentes países17, a criação de mecanismos de interação universidade-empresa apresenta uma certa homogeneidade. Os mecanismos de cooperação universidade- empresa mais freqüentes são os acordos de cooperação, criação de empresas e estabelecimento de trabalhos de consultoria, projetos de pesquisa cooperativa, ensaios e testes.
De acordo com WEBSTER & ETZKOWITZ (1991), as duas principais formas de relação entre a universidade e a indústria são:
· a ligação de empresas antigas a universidades, para injetar-lhes novas tecnologias de base científica; e
· formar novas empresas, onde cientistas e engenheiros transformam-se em capitalistas, na medida em que a ciência e a tecnologia tornam-se os elementos mais importantes do capital, favorecido pela tendência das Novas Tecnologias em aumentar o conteúdo formal, científico, do valor da produção.
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A abordagem referente às especificidades na organização da pesquisa nos diferentes países será tratada no próximo tópico deste capítulo (2.5).
Com isso em mente, esses autores argumentam que o rápido crescimento de novas e tradicionais formas de ligação e a forte crença de que o crescimento econômico futuro dependerá não apenas de um novo ciclo de inovações, senão de uma nova estrutura de inovação, capaz de relacionar pesquisa básica e aplicada de forma a torná-las cada vez mais próximas, conduziu a uma fusão de políticas e programas estatais nacionais e internacionais, voltados para a promoção e, em menor medida, para a avaliação dos laços entre a universidade e a indústria.
Parece ficar claro que estudos prospectivos sobre a cooperação universidade-empresa são de fundamental importância para o esclarecimento das dinâmicas envolvidas no processo de transferência de conhecimento, principalmente com base na visão atual sobre os sistemas locais de inovação, que permitam a elaboração de diretrizes políticas direcionadas ao desenvolvimento econômico e social de uma determinada região.
Para o caso dos Estados Unidos, recolheu-se um maior número de informações sobre esses mecanismos. Assim, os acordos de cooperação universidade- empresa sem o envolvimento do governo federal tornaram-se freqüentes nos anos 70 e 80 nos Estados Unidos. Por exemplo, em 1975 a Monsanto e a Harvard Medical School firmaram um acordo de 10 anos, envolvendo US$ 23 milhões. Em 1980, o MIT recebeu US$ 7-8 milhões da Exxon Research and Engineering Company para pesquisas em ciências da combustão. O mais famoso acordo, entretanto, é o formado entre a Hoechst e o Massachusetts General Hospital, pelo qual o hospital recebeu US$ 50 milhões para montar um departamento de biologia molecular (DICKSON, 1988). Geralmente esses acordos não são alternativos e sim complementares à P&D “intra-muros” de cada uma dessas empresas.
A criação de empresas para buscar capital de risco em grandes companhias é outra característica das universidades americanas nos anos 80. Um dos exemplos mais citados é a Eugenics. A Genentech Corporation, criada no início dos anos 80 por um professor da University of California, San Francisco e por um empresário, também é citada como o “modelo” para as empresas de biotecnologia molecular (DICKSON, 1988; ETZKOWITZ & PETERS, 1991).
Na área da computação, a participação de professores no board de empresas também foi muito intensa. As spin-off mais citadas são: MIT – a Thinking
Machines Corporation; a partir da Stanford University – a Stanford University Netwok –
SUN Corporation que fabrica estações de trabalho, a Hewlett-Packard em 1939, a
Watkins-Johnson em 1957, a Systan em 1966; a Advanced Decision Systems em 1979; a Equatorial Communication em 1979 e a Adelphi Technologies em 1988 (ETZKOWITZ
& PETERS, 1991).
A criação de empresas a partir dos resultados de pesquisa acadêmica (spin-off), descrita por WEBSTER & ETZKOWITZ (1991) como uma das principais formas de relação universidade-empresa, está tomando uma dimensão ainda mais importante com a nova lógica do “cientista empreendedor”. Segundo ETZKOWITZ (1998), a completa integração da pesquisa com o empreendedor acontece sempre que o cientista funda sua própria empresa e continua perseguindo um certo tipo de pesquisa a partir de resultados básicos em busca de produtos para o mercado.
Os projetos de pesquisa cooperativa envolvendo diversas empresas e as melhores universidades em áreas chave foram outro mecanismo de interação bastante citado na literatura. A pesquisa cooperativa é uma espécie de contrato onde o trabalho geralmente é publicável, assim que o parceiro industrial tenha garantias de proteção como patentes, por exemplo. Na verdade, essa configuração pode ser otimizada, pelo lado da universidade, através de novos modelos de pesquisa cooperativa onde o cientista acadêmico e a universidade possam usufruir os benefícios da comercialização, inerentes aos direitos de propriedade industrial, ao invés de apenas repassá-los para as empresas parceiras em troca de recursos para a pesquisa (ETZKOWITZ, 1998).
A implantação dos parques tecnológicos, cuja origem é vinculada à experiência de Princeton na preservação das características urbanas no entorno da universidade, tem sido outra alternativa discutida em diferentes regiões para aproximar universidades e empresas. O modelo de parque tecnológico criado nos anos 50 vinculado à Stanford University-Stanford Industrial Park, bem como os de Cambridge (EUA e Inglaterra) difundiram-se amplamente e fizeram com que a política de implantação de parques tenha se tornado meta de diversos países e regiões (BRISOLLA et al., 1998b).
Os escritórios de contratos e convênios e os escritórios de relações industriais, para viabilizar a interação, também foram criados em universidades latino- americanas. É o caso do atual Escritório de Difusão e Serviços Tecnológicos
(EDISTEC)18 da UNICAMP. De acordo com BRISOLLA et al. (1998b) a criação de instrumentos de ligação consistiu num paliativo para os problemas de restrição orçamentária decorrentes da crise econômica e, principalmente, da crise do Estado, com base nas iniciativas verificadas nos países centrais. As medidas são louváveis, mas devem partir de uma análise profunda das condições concretas da cooperação para poderem ter o êxito desejável.
O exemplo do EDISTEC não é único. Estruturas semelhantes, como é o caso do Núcleo de Extensão UFSCar-Empresa (NUEMP) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), criadas na década de 90, têm o objetivo básico de contribuir para um melhor aproveitamento do conhecimento e do potencial comercial gerado a partir da pesquisa acadêmica.
2.5 O Contexto Científico e Tecnológico nos Países Centrais, na América Latina e