Os objetivos específicos determinados no tópico 1.2.2 servem de base para este capítulo, que trata da influência na aversão à perda de características pessoais dos respondentes, como idade, gênero, formação acadêmica e localidade geográfica (região de origem), utilizada como proxy para cultura.
3.1.9.1 Aversão à perda em subamostras por clusters de área de formação acadêmica (O1),
Ocupação (P1), localidade geográfica (Q1), gênero (R1) e idade (S1).
Bentham (1781) explica a importância da dor e do prazer para o ser humano e como esses dois fatores dominam as ações do indivíduo, inclusive no processo de tomada de decisão. Ao relacionar prazer e dor ao conceito de utilidade, afirma que o indivíduo analisa o objeto em busca de uma decisão que possa gerar prazer ou felicidade, ou reduzir ou evitar uma dor ou infelicidade.
Szasz (1975) estudou a percepção de dor entre homens e mulheres e relatou que estes percebem o fenômeno de forma diferenciada. Hallin (2005) afirma que estímulos dolorosos são percebidos como mais intensos nas mulheres saudáveis do que em homens saudáveis. Além disso, a percepção da intensidade da dor depende da idade do indivíduo.
Defende que o nível de sensibilidade à dor é influenciada por fatores socioculturais, como idade, etnia, história familiar; fatores psicológicos, como depressão, ansiedade, fatores cognitivos e comportamentais; e, fatores biológicos, como genética, hormônios sexuais e inibição da dor, sendo que esses três aspectos interagem entre si.
Korff et al. (1988) demonstram que a sensibilidade das mulheres a dores crônicas é maior que a dos homens e que essa diferença persiste, independentemente da idade. Destacam que a percepção de dor diminui com a idade e em todos os tipos de dores estudadas, as mulheres são mais sensíveis que os homens.
Assim, é de se esperar que, como as mulheres possuem um nível maior de sensibilidade à dor que os homens, elas apresentem um comportamento maior de aversão a operações potenciais causadoras de dor, e, portanto, maior aversão à perda. Esses resultados servem de base para a formulação da hipótese secundária da pesquisa (R1), que investiga se o
gênero impõe heterogeneidade aos parâmetros das variáveis latentes para formação da aversão à perda. Nesse sentido, é importante destacar que Johnson et al. (2006), Hjorth e Fosgerau (2009) e Gachter et al. (2010) investigaram a influência do gênero na aversão à perda e concluíram que, não só o gênero, mas, também, a idade influencia em seu nível.
Hjorth e Fosgerau (2009) acrescentam que a aversão à perda depende de fatores socioeconômicos como gênero, idade, renda, ocupação e características familiares, como história e nível de escolaridade, o que é condizente com as conclusões de Bentham (1781) e Kahneman (2000).
Nesse sentido, Hjorth e Fosgerau mostram que o nível de aversão à perda aumenta até os 55 anos e depois decresce rapidamente, o que guarda alguma semelhança com os
resultados de Korff et al. (1988), apesar da diferença de 10 anos para o decréscimo da intensidade de dor (65 anos) e do nível de aversão à perda (55 anos). Essas evidências amparam a hipótese secundária (S1) da tese, que propõe investigar se os parâmetros do
modelo estrutural geral está sujeito à instabilidade em submaostras de clusters de idades distintas. No mesmo trabalho, Korff et al. (1988) observaram que os indivíduos com maior escolaridade são menos avessos a perdas. Em relação à renda, evidenciam que os indivíduos com maior renda são menos avessos à perdas.
Em relação à variável formação acadêmica, Andrade (2012), observou que os profissionais da área de humanas demonstram maior nível de aversão à perda que os demais participantes da pesquisa, e Grable e Lytton (1999) apresentam resultados que confirmam os de Hjorth e Fosgerau (2009), de que as pessoas com maior escolaridade são menos avessas a riscos. Como neste estudo há amostra de estudantes de graduação e profissionais, das diversas áreas de conhecimento, pretende-se verificar se a formação acadêmica (hipótese secundária O1) influencia a estabilidade dos parâmetros do modelo geral de aversão à perda,
e se a ocupação (se estudante, se profissional – hipótese secundária P1) também imputa
diferenças significativas nos parâmetros do modelo geral de aversão.
Melo e Silva (2010) se propuseram a investigar se a aversão à perda é influenciada pelo gênero, idade e ocupação profissional. Os resultados apontaram indícios de influência dessas variáveis na aversão à perda. Entretanto, os resultados captaram divergências entre as respostas obtidas de profissionais e estudantes do curso de Ciências Contábeis no Brasil e as obtidas por Kahneman e Tversky em 1979.
Já em relação à variável localidade geógrafica, Zola (1966) explica que o país de origem do indivíduo influencia seu nível de sensibilidade à dor. Blavatskyy e Pogrebna (2007) encontraram evidências de que o nível de aversão à perda é influenciado pela nacionalidade dos indivíduos e Maddux et al. (2010) mostraram que os europeus e norte- americanos apresentam níveis maiores de aversão à perda que os chineses, taiwaneses, coreanos e japoneses, o que justifica a hipótese secundária (Q1) que investiga se a localidade
geográfica influencia o nível de aversão à perda. A localidade geográfica será utilizada como proxy para cultura, como forma de tentar captar aspectos de cultura regionais e sua influência na aversão à perda.
A análise dos dados possibilitará, para além das hipóteses concernentes ao objetivo geral, investigar as seguintes hipóteses de pesquisa que se alinham com os objetivos específicos:
O1.: Os parâmetros do modelo estrutural de aversão à perda em subamostras de
discentes de graduação e de profissionais é estatisticamente distinta quando se observa a área de formação acadêmica.
P1.:Os parâmetros do modelo estrutural de aversão à perda é estatisticamente
diferente quando se observa a ocupação dos respondentes, se estudantes, se profissionais. Q1.: Os parâmetros do modelo estrutural de aversão à perda em subamostras de
discentes de graduação é estatisticamente diferente quando se observa a variável região de origem do pesquisado.
R1.: Os parâmetros do modelo estrutural de aversão à perda em subamostras de
profissionais e discentes de graduação é estatisticamente diferente quando se observa a variável gênero do pesquisado.
S1.: Os parâmetros do modelo estrutural de aversão à perda em subamostras de
profissionais e discentes de graduação é estatisticamente diferente quando se observa a variável idade dos pesquisados.