Nos idos da década de 1970 o governo militar apoiou a Educação Física na escola objetivando tanto a formação de um exército composto por uma juventude forte e saudável como a desmobilização de forças oposicionistas. Assim, estreitam-se os vínculos entre esporte e nacionalismo. Fortaleceu-se dessa maneira o conteúdo esportivo na escola, reforçando valores como a racionalidade, a eficiência e a produtividade explicitados no capítulo anterior.
A partir da década de 1980, em função do novo cenário político, esse modelo de esporte de alto rendimento para a escola passa a ser fortemente criticado, e como alternativa surgem novas formas de se pensar a Educação Física na escola. Essas considerações resultaram em um período de crise da Educação Física que culminou com o lançamento de diversos livros e artigos que buscavam além de criticar as características reinantes na área, elaborar propostas e pressupostos enfatizando conteúdos que viessem a tornar a Educação Física próxima da realidade e da função escolar.
Algumas abordagens tiveram maior impacto: a psicomotricidade, a desenvolvimentista e a construtivista, com enfoque psicológico e as críticas (superadora e emancipatória) com enfoque sociocultural. Ressalta-se que a discussão e o surgimento dessas abordagens não significaram o abandono de
práticas vinculadas ao modelo esportivo ou biológico que podem ser considerados mais freqüentes na prática da Educação Física escolar.
O estudo aqui proposto se detém a descrever a abordagem crítico- emancipatória para a Educação Física escolar. Elaborada pelo professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Elenor Kunz, tem como base autores e teóricos da escola de Frankfurt: Adorno e Horkheimer, e visa propiciar um esclarecimento crítico sobre práticas humanas corporais desvelando o agir comunicativo.
Com base nas informações anteriores, a abordagem crítico-emancipatória foi posta em discussão no Brasil por Kunz no ano de 1991, por ocasião da publicação do seu livro “Ensino e Mudanças”. A abordagem apresentada por Kunz difere da abordagem crítico-superadora, principalmente no seu aporte teórico, pois as análises propostas pelo Coletivo de Autores se pautam principalmente em um referencial materialista histórico dialético e visa um ensino baseado nos interesses da classe trabalhadora. Já a abordagem crítico- emancipatória, tem por objetivo a formação de sujeitos críticos e autônomos para transformação (ou não) da realidade em que estão inseridos, por meio de uma educação de caráter reflexivo e fundamentada no desenvolvimento de três competências:
1) A competência objetiva, que visa desenvolver a autonomia do aluno através da técnica;
2) A competência social, referente aos conhecimentos e esclarecimentos que os alunos devem adquirir para entender o próprio contexto sócio-cultural;
3) A competência comunicativa, que assume um processo reflexivo responsável por desencadear o pensamento crítico, e ocorre através da linguagem, que pode ser de caráter verbal, escrita e/ou corporal (KUNZ, 1994).
Em função desses três pressupostos é que a abordagem em questão possibilita a melhor compreensão da forma de institucionalização e legitimação dos conteúdos da Educação Física no contexto social. Isso propiciará aos alunos
um entendimento para além da prática corporal, alcançando assim, uma maior percepção da realidade em que está manifestação se insere.
Segundo Kunz (1994), é por meio de um processo de reflexão-ação (acrescenta-se ao final novamente a reflexão), possibilitado pelos três planos apresentados, que os discentes tomam consciência de que o esporte, por exemplo, nada mais é do que uma invenção social e não um fenômeno natural, pois sendo uma instituição socialmente construída na moderna sociedade industrial, acaba reproduzindo as ideologias e a imagem do homem e do mundo propostos por este modelo social. O autor, também, acredita que as proposições metodológicas presentes neste processo de ensino possibilitam aos alunos uma permanente busca por soluções individuais e/ou coletivas, permitindo ao mesmo tempo o agir independente, a cooperação e a comunicação com o grupo, e com o professor, adquirindo assim, um saber de maior relevância para sua emancipação21.
Deste modo, afirma-se que a abordagem em questão visa à formação de um sujeito crítico e emancipado (liberto de condições alienantes geradas por falsas interpretações da realidade), que deve ser instrumentalizado para além da capacidade técnica. Pois, os alunos não precisam apenas reproduzir movimentos, mas devem também ser incentivados a compreender os fenômenos e contextos que permeiam a sociedade e, por meio de um “agir comunicativo22”, questionar as manifestações corporais presentes em seu contexto sócio-cultural.
A linguagem, portanto, tem um papel importante no agir comunicativo, funcionando como uma forma de expressão/comunicação de entendimentos do mundo social, proporcionando a participação dos sujeitos em todas as instâncias
21 Concebida a partir de uma leitura crítica da realidade por meio do esclarecimento, (termo definido por Kant como: tendência secular de confiança na razão, sob restrito controle da crítica permanente). Superação de uma visão superficial, gerada por uma falsa realidade. Segundo Habermas, ela só é alcançada pela “expansão dos processos de ação comunicativa”, que se fundamentam necessariamente na capacidade da humanidade em alcançar consensos racionais por meio da argumentação (ADORNO, 2000).
22 Termo retirado do pensamento habermasiano e que se torna eixo central da metodologia de ensino proposta por Kunz. É fundado na criticidade dos fatos presentes na realidade que estimula o aluno a expor seus pensamentos por meio da linguagem sobre o fato em questão (ADORNO, 2000).
de decisão, na formulação de interesses e preferências para assim agir de acordo com as situações e condições do grupo em que está inserido e do trabalho no esforço de conhecer, desenvolver e apropriar-se de cultura.
Assumindo uma dimensão crítica e emancipatória para a educação, o professor levará seus alunos à reflexão. O ensino, desse modo, deve libertar o aluno de falsas ilusões, de falsos interesses e desejos criados e construídos pela visão de mundo que se apresenta. O ensino escolar necessita, dessa forma, se basear numa concepção crítica, pois é pelo questionamento crítico que se chega a compreender a estrutura autoritária dos processos institucionalizados da sociedade que formam as convicções, interesses e desejos.
Para tanto, é preciso enfatizar as categorias de interação e da linguagem que, junto com a intervenção pedagógica dos professores, poderá contribuir para a produção de cidadãos autônomos, com capacidade para se situar na cultura de movimento, sendo sujeitos da sua construção.
De acordo com Kunz (1994), os esportes devem ser abordados na escola de forma que leve os alunos a criticarem, através do conhecimento sistematizado adquirido, para compreendê-lo em relação a seus valores, normas sociais e culturais. O mesmo se estende aos outros conteúdos tratados pela disciplina. Assim, a tarefa da Educação Física em uma perspectiva crítica é promover condições para que estas estruturas autoritárias sejam suspensas e o ensino encaminhe no sentido de uma possível emancipação, possibilitada pelo uso da linguagem.