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5. Analyse

5.3 Analyse prosessmåling

Afastando-se momentaneamente do tema da reflexividade, nesta parte a análise de Hércules 56 dedica-se à mobilização documentária da autoridade e da pluralidade das vozes testemunhais na construção de uma narrativa coerente e linear dos eventos em torno do sequestro e da libertação dos presos políticos. Por meio das inserções de planos de arquivo, são adicionadas ao mosaico de entrevistas a presença dos protagonistas ausentes no momento de produção do filme e a evidência documental das imagens sobrepostas aos testemunhos. A hipótese fundamental é que o documentário de Silvio Da-Rin possui um impulso estético e narrativo à totalidade que, ao silenciar sobre o papel de Fernando Gabeira na ação – seja como militante, seja como narrador –, indicaria um desejo de substituição das versões “impertinentes” da memória veiculadas em O que é isso, companheiro?, livro e filme.

“Montagem paralela”: autoridade e pluralidade testemunhais

Em Hércules 56, a rememoração coletiva das lideranças e as entrevistas individuais dos libertos são editadas de forma a compor uma espécie de “montagem paralela” que sugere o desenrolar sincrônico dos eventos ligados ao planejamento e execução do sequestro e à libertação e viagem dos quinze presos políticos. Nesta seção, a análise deixará momentaneamente de lado as inserções de imagens de arquivo para buscar a coerência narrativa e temática estabelecida na montagem das vozes testemunhais.

Logo após a sequência de abertura, tem início um segundo segmento voltado à apresentação das testemunhas e à contextualização política da ação. O tema do engajamento no movimento estudantil é introduzido por Mario Zanconato. Em seguida, José Ibrahin relata a sua entrada no movimento operário de Osasco. No núcleo dos dirigentes, Franklin Martins traça um panorama que vai desde o golpe de 1964, passa pelos protestos estudantis, pela formação da Frente Ampla e pelas greves operárias, em 1968, concluindo com o fechamento da ditadura, ratificado pelo AI-5. Por fim, ele declara que sua convicção pessoal, já em 1969, era de que a luta armada era a única opção política. Cláudio Torres arremata dizendo que, no momento do sequestro, a sociedade brasileira encontrava-se impedida de se manifestar, o Congresso estava cerceado e a imprensa, amordaçada.

No núcleo dos libertos, é a vez de José Dirceu relatar seu engajamento no movimento estudantil, decisão tomada quando constata, segundo ele, o ambiente desolador na Faculdade de Direito da PUC. Em seguida, Ricardo Vilas também menciona sua entrada na política

estudantil, ocorrida de modo paralelo à carreira de músico profissional que já seguia. Vladimir Palmeira pontua as duas grandes manifestações de rua ocorridas em 1968: o enterro de Edson Luiz e a Passeata dos Cem Mil. No núcleo dos dirigentes, Franklin Martins narra o modo como surgira a ideia do sequestro de Elbrick.

José Ibrahin, um dos libertos, relata a invasão da Cobrasma pela polícia, em Osasco, pondo fim à greve liderada por ele. José Dirceu menciona a repressão aos sindicatos, o aumento da censura, a tortura, o fechamento dos partidos, o fim das eleições diretas para presidente e para prefeito nas capitais, o enfraquecimento do Poder Legislativo, o cerco ao XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, a batalha da rua Maria Antônia, tudo isso culminando, em sua opinião, no AI-5. Maria Augusta Carneiro Ribeiro também relata a prisão dos estudantes no Congresso de Ibiúna. No núcleo dos dirigentes, Paulo de Tarso Venceslau diz que o AI-5 foi a “pedra fundamental” do sequestro, cuja motivação inicial teria sido a libertação das lideranças estudantis presas. Daniel Aarão Reis Filho pondera que a dimensão de soltar presos estava implícita na realização do sequestro. Os cinco debatem sobre o quão decisiva teria sido a participação da ALN para a efetivação da operação. Cláudio Torres conclui dizendo que o sequestro daria conta da libertação das lideranças estudantis, ao mesmo tempo em que serviria como ação de propaganda armada.

No núcleo dos libertos, Flávio Tavares fala de seus contatos com Jango e Brizola no Uruguai, na tentativa de organização de uma resistência armada nos quartéis, referindo-se ainda à conversão de Brizola ao “foquismo”. O depoimento de Ricardo Zarattini dá prosseguimento ao tema da guerrilha, que deveria, segundo ele, ter sido desenvolvida no Nordeste, onde os camponeses já estariam mobilizados. Zarattini conta que foi preso em 1968 por seu envolvimento na realização de greves em engenhos. Justaposto a essas menções à luta armada e à prisão de Zarattini, o testemunho de Agonalto Pacheco toca o tema de sua ação no movimento de massas e seu encarceramento. Entre as lideranças, Daniel Aarão revela detalhes sobre o planejamento do sequestro: sua realização na Semana da Pátria foi pensada como artifício que potencializaria a contrapropaganda armada; fato desconhecido no momento de preparação, a subida ao poder da Junta Militar acabou aumentando, segundo ele, a vulnerabilidade do regime às exigências dos guerrilheiros. Tais elementos justificariam, em sua opinião, as condições táticas precárias em que a ação foi levada a cabo.

Até este ponto do documentário, as falas testemunhais dedicam-se à descrição do ambiente político em que surgiu a ideia do sequestro. De modo geral, de um lado, os libertos vão contando suas experiências individuais de engajamento e, de outro, os dirigentes traçam um panorama conjuntural, desde o golpe até o contexto imediato em que se cogita a ação. A

justaposição das vozes constrói uma tensão progressiva entre mobilização social e fechamento do regime, repassando os eventos canônicos de 1968 que culminam na radicalização de lado a lado, cujos marcos são a promulgação do AI-5 e a opção pela luta armada. Diante do impasse, o sequestro desponta na narrativa como ação apta a romper a censura, cada vez mais acirrada, e libertar presos políticos.

A partir daí, os eventos relatados decorrem da efetivação da captura de Elbrick. Vladimir Palmeira conta o momento em que recebe, na prisão, a notícia do sequestro e de sua inclusão na lista dos presos a serem libertados. Flávio Tavares dá sequência ao tema da chegada da informação na cadeia e da tomada de conhecimento de que era um dos quinze. Maria Augusta, por seu turno, diz que, quando foi conduzida ao aeroporto, ainda não sabia da ação; ela declara, emocionada, a gratidão que sentiu quando tomou ciência de que estava entre os quinze. No núcleo dos dirigentes, Franklin Martins relata questões em torno da redação do manifesto e da escolha dos nomes a serem arrolados na lista.

No núcleo dos libertos, Vladimir Palmeira e Flávio Tavares relatam, em planos sucessivos, a ocasião em que foram retirados de suas respectivas celas. Agora, é a vez de José Dirceu narrar o momento em que recebeu a notícia do sequestro e de que seu nome estava na lista. Ele conta que Luís Travassos não queria sair da prisão, tendo sido forçado a fazê-lo sob coronhadas. Mantendo a temática, José Ibrahin explica o raciocínio que, à época, fez com que refutasse a possibilidade de não aceitar a liberdade em troca do diplomata. Ricardo Vilas faz menção ao modo como ficou sabendo que estava no rol dos quinze e, em seguida, Maria Augusta nega os boatos, que diz terem sido veiculados pela imprensa à época, de que ela e Vilas teriam se recusado a sair da cadeia. Franklin Martins, no núcleo dos dirigentes, discute as chances de os militares aceitarem ou não a troca do diplomata pelos presos políticos. Cláudio Torres relata o episódio em que foi perguntado por um militar, sob tortura, se executaria o embaixador; ele conta que sua resposta foi afirmativa, afinal, ironiza, ele também cumpria ordens.

Ricardo Zarattini narra seu transporte até o aeroporto do Galeão; José Ibrahin menciona a tensão no embarque; Flávio Tavares reconstitui o instante da tomada da fotografia dos libertos diante do avião Hércules 56. Este último prossegue relatando a apreensão que cercava o embarque, motivada, ele o saberia depois, pela ação dos paraquedistas revoltados contra a concessão do regime às exigências dos guerrilheiros e dos EUA. Maria Augusta refere-se ao clima de desconforto no interior da aeronave e alude, ainda, à escala no Recife, onde embarcou Gregório Bezerra. Imediatamente em seguida, Flávio Tavares descreve com minúcias a entrada no avião do, segundo ele, altivo Bezerra, fazendo a mimese de seus gestos

e expressões. Dando prosseguimento ao tema das escalas, Zanconato relata as circunstâncias de sua libertação em Minas Gerais e de seu embarque em Belém. Flávio Tavares completa a narração do embarque de Zanconato na parada em Belém, mais uma vez encenando mimeticamente a situação testemunhada, inclusive assoviando e cantarolando. As lideranças, por sua vez, rememoram a postura digna de Elbrick no interior do cativeiro, tendo ele se revelado, na opinião de Franklin Martins, um típico “liberal”, sem muita noção da gravidade da situação no Brasil. Discutem em seguida o conteúdo dos documentos encontrados na pasta do diplomata.

Flávio Tavares continua descrevendo os pormenores da viagem até o México, relatando o momento em que foi veiculada a ordem do dia pelos alto-falantes do avião. Maria Augusta narra o constrangimento vivido por ela quando, sendo a única mulher do grupo, necessitou ir ao banheiro, destacando o clima de tensão no interior da aeronave. Ibrahin diz ter suspeitado do tempo excessivo levado no trajeto até o destino. Flávio Tavares mantém o tom performático para reproduzir o clima tenso do desembarque na Cidade do México, complicado, segundo conta, pela determinação do comandante do voo em entregar os libertos à embaixada brasileira. Tavares dramatiza a entrada do representante do governo mexicano no avião, ordenando a retirada das esposas (algemas, em espanhol) imediatamente. Ibrahin relata o mesmo episódio, divertindo-se ao lembrar a confusão gerada pelo falso cognato. Tavares retoma a narrativa, concluindo que a determinação da retirada das algemas significou a mudança do status dos quinze de prisioneiros a imigrantes. Ricardo Vilas relembra a multidão de jornalistas que os aguardavam na pista. Maria Augusta explica a resposta evasiva que havia dado em entrevista concedida ainda no aeroporto. José Ibrahin define a ocasião em que pôde, junto com João Leonardo Rocha, beber uma garrafa de tequila como o marco da sensação de liberdade. No núcleo dos dirigentes, Franklin Martins declara que a chegada dos presos ao México concluía os objetivos da ação, mas que restava ainda a arriscada operação de retirada do grupo do cativeiro e de libertação de Elbrick. Segundo ele, a decisão de realizá-la em horário coincidente com o fim do jogo no estádio do Maracanã lhes deu melhores condições de fuga. Em seguida, as lideranças reconstituem conjuntamente a situação de perseguição e intimidação em que ocorreu o transporte do embaixador rumo à liberdade.

Com uma hora de filme, conclui-se a narrativa do sequestro e da libertação dos presos. O efeito “montagem paralela” é nítido. Os libertos falam das ocasiões em que tomaram ciência da inclusão de seus nomes na relação dos quinze; os dirigentes rememoram as questões em torno da elaboração da lista. Os libertos narram as respectivas saídas do cárcere e certas polêmicas em torno do aceitar ou não a libertação; as lideranças discutem as

possibilidades de rejeição da troca por parte dos militares e o risco de serem obrigados, por isso, a executar o diplomata. Os libertos relatam as tensões do embarque no Galeão e as escalas no Recife e em Belém, com destaque para a entrada altiva de Gregório Bezerra na aeronave; os dirigentes descrevem a postura digna do liberal Elbrick no interior do cativeiro. Por fim, os libertos contam a viagem e o desembarque no México, e as lideranças rememoram a operação de libertação do diplomata. Pelo jogo de justaposição dos distintos núcleos narrativos, o documentário monta a concomitância dos eventos e traça uma progressiva coerência temática. Agenciado dessa maneira, o mosaico das vozes testemunhais, seja de dirigentes, seja de libertos, constitui um relato linear e cronológico dos acontecimentos em torno do sequestro.

Em prol da clareza analítica, as reflexões sobre cada um dos núcleos testemunhais serão desmembradas em duas subseções dedicadas aos sentidos da “montagem paralela” que estão para além do estabelecimento da coerência documentária.

- As vozes autorizadas: rememoração das lideranças

No capítulo anterior, o debate sobre a diluição da reflexividade em Hércules 56 fez referência ao tom de conversa que caracteriza o encontro das lideranças, apontando o efeito certificador suscitado pela impressão de livre registro da situação coletiva de rememoração.191 Também já foram mencionadas as implicações que a condição de testemunha traz à recepção do discurso, em geral marcada pela empatia com a experiência vivida.192 Neste ponto da análise específica do núcleo dos dirigentes, cabe acrescentar outra dimensão de chancela: aquela derivada da condição de protagonistas dos eventos relatados. De fato, na apresentação do livro que traz a íntegra dos depoimentos concedidos ao documentário, Da-Rin explica:

Para reavaliar a própria operação, optei por filmar uma reunião dos três dirigentes da DI-GB que assumiram fazê-la. Cláudio [Torres] era um deles. Os demais eram Franklin Martins e Daniel Aarão Reis. Em um segundo momento, me dei conta de que a ALN, convidada a somar-se à execução da ação, não poderia ficar fora daquele encontro. Convidei então Paulo de Tarso Venceslau e Manoel Cyrillo.193

191 Sobre o “efeito conversa” no documentário, cf. NICHOLS, Bill. Representing Reality: issues and concepts in

documentary. Bloomington: Indiana University Press, 1991. p. 51.

192 Sobre o tema, cf. SARLO, 2007; SELIGMANN-SILVA, Márcio. O testemunho: entre a ficção e o “real”. In:

______ (org.). História, memória, literatura: o testemunho na Era das Catástrofes. Campinas: Editora Unicamp, 2003. p. 375.

193 DA-RIN, Silvio. Hércules 56: o seqüestro do embaixador americano em 1969. Rio de Janeiro: Jorge Zahar

Em seguida, embora se declarando convencido de que “não seria produtivo” para seus “propósitos reunir um grupo muito numeroso, e de ter feito uma escolha criteriosa”, o diretor lamenta as ausências de “João Lopes Salgado, Cid Queirós Benjamin e Vera Sílvia Magalhães, todos membros da Frente de Trabalho Armado da DI-GB, que tiveram participação destacada na captura do embaixador”.194 Ou seja, para reavaliar a ação,

interessava ao documentarista ouvir os dirigentes da DI-GB/MR-8 e da ALN que sobreviveram àqueles tempos (lembre-se: Jonas e Toledo foram mortos pelo regime), em uma seleção criteriosa das testemunhas. Porém, tal opção não o impediu de lastimar a ausência de militantes que tiveram uma “participação destacada” na captura de Elbrick. Em síntese, a escolha das vozes a serem ouvidas foi tão seletiva que levou à exclusão de importantes quadros cujo protagonismo não estava diretamente ligado à condição de liderança das organizações guerrilheiras.

Retomando as reflexões do Capítulo I, sugiro a hipótese de que nas imagens desse núcleo narrativo estariam sobrepostas três camadas de autoridade: 1) a autoridade documental derivada do livre registrar da conversa; 2) a autoridade testemunhal oriunda da empatia pela experiência vivida; 3) a autoridade resultante do papel protagonista das lideranças. Triplamente autorizada, a rememoração dos dirigentes dialoga com a outra ponta da “montagem paralela”, composta pelos relatos dos libertos.

- A pluralidade das vozes dos libertos

Para além da convergência da “montagem paralela”, a edição dos fragmentos das entrevistas individuais dos libertos195 possui uma coerência interna ao núcleo narrativo que segue o fio da linearidade discursiva. Diferentemente do debate coletivo das lideranças, e excetuando-se o “prólogo” e o “epílogo” reflexivos já analisados, esses depoimentos são filmados na chave da entrevista documentária convencional: a testemunha é enquadrada de modo mais ou menos frontal e seu olhar, em um eixo próximo ao da câmera, dirige-se ao cineasta, que a interpela fora de quadro. Nesse tipo de enquadramento, no qual a presença do diretor se faz ausência, a entrevista adquire o aspecto de um pseudomonólogo que acaba apagando a mediação do cineasta, como se a testemunha falasse diretamente ao espectador.196

194 DA-RIN, 2007, p. 25.

195 À época da realização do documentário, apenas nove dentre os quinze libertos estavam vivos e concederam

entrevistas a Da-Rin: Agonalto Pacheco, Flávio Tavares, José Dirceu, José Ibrahim, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, Mario Zanconato, Ricardo Vilas, Ricardo Zarattini e Vladimir Palmeira.

Próximo do final do filme, é verdade, há momentos em que Da-Rin interroga, em off,197 seus entrevistados. Em um dos planos da entrevista com Ricardo Zarattini, a câmera chega mesmo a surgir no quadro diante do sujeito que narra.198 (Ver ANEXO, Figura 23.) Porém, dispersas na torrente retórica do filme, tais ocorrências não chegam a provocar um distanciamento perante a situação de entrevista. Nas tomadas do núcleo dos libertos, o tom geral é o das “cabeças falantes”.

Fernão Ramos faz uma interessante descrição do que considera a tendência dominante do documentário contemporâneo, à qual, sustento, Hércules 56 estaria vinculado:

No documentário contemporâneo clássico, o qual denomino documentário cabo, as vozes aparecem misturadas na maneira de postular. A voz do saber, em sua nova forma, perde a exclusividade da modalidade over. Ainda temos a voz over, mas os enunciados assertivos são assumidos por entrevistas, depoimentos de especialistas, diálogos, filmes de arquivo (flexionados para enunciar asserções de que a narrativa necessita). O documentário, portanto, se caracteriza como narrativa que possui vozes diversas que falam do mundo, ou de si.199

Em outra passagem, o autor desdobra sua definição:

O documentário cabo é um documentário assertivo. Mas, ao contrário do documentário típico do período clássico, as asserções são estabelecidas por vozes múltiplas. A narrativa enuncia não apenas através da locução, em sua posição de voz de Deus falando sobre o mundo, mas através de uma multiplicidade de vozes, representada por entrevistas, depoimentos, material de arquivo, diálogos. A multiplicidade de vozes não exclui, no entanto, a unicidade da asserção do saber veiculada pelo documentário cabo, dentro de um contexto ideológico próximo ao documentário clássico.200

Penso que a denominação “documentário cabo” é um tanto redutora, pois relaciona diretamente à televisão à cabo uma tendência do documentarismo que hoje pode ser copiosamente observada também no cinema. Mas é pertinente a associação feita pelo autor entre formas contemporâneas de enunciação documental e a tradição do documentário clássico assertivo.201 De fato, as descrições acima realizadas tentaram demonstrar que Hércules 56 lança mão de uma multiplicidade de vozes que, entretanto, é mobilizada documentalmente de modo a estabelecer a unicidade narrativa e a progressão temática. Lidando com os relatos dos libertos que, já à época dos eventos, estavam ligados às mais

197 Este trabalho adotará o termo off para as vozes e sons emitidos fora de quadro e over para as fontes sonoras

que estejam absolutamente isoladas do espaço diegético.

198 0:38:25

199 RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008. p. 24.

(grifo do autor)

200 Ibid., p. 41. (grifo do autor)

201 Sobre a tradição do documentário clássico, cf. SUSSEX, Elisabeth. The rise and fall of British Documentary:

The story of the film movement founded by John Grierson. Berkeley: University of California Press, 1976; DA- RIN, Silvio. Espelho partido: tradição e transformação do documentário. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2006.

diferentes correntes ideológicas, o filme possui um impulso à univocidade que fica explícito na montagem. Constituído por meio do corte insistente e da rearticulação do que foi dito, o discurso documental nesse núcleo não deixa de ter um quê de ventriloquismo, ou seja, da face vista que recita o argumento de outrem. Como se a voz de Deus do documentário clássico tivesse encarnado nas testemunhas contemporâneas.

Vale lembrar: existem outras formas de mobilização das entrevistas que não essa que as submete à continuidade retórica documental. Sem sair do campo do documentarismo brasileiro sobre o período ditatorial, há o exemplo de Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984), filme que, entre outras qualidades, exibe a entrevista como o momento do encontro, da rememoração e da escuta atenta.202 Nele, a dimensão plural da memória não nega ao espectador o caráter complexo e contraditório da história e da própria fatura fílmica. Entre Cabra marcado para morrer, de 1984 (tempos incertos, tempos de transição democrática203), e Hércules 56, de 2006, a pluralidade testemunhal no documentário afasta-se da complexidade e aproxima-se da univocidade.

Imagens de arquivo: presença e evidência

A análise agora passa a abordar os sentidos das inserções das imagens de arquivo em Hércules 56, até este ponto deixadas de lado. Articuladas às vozes testemunhais, tais