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Nas entrevistas realizadas, quando indagadas sobre as perspectivas de futuro, a maioria manifestou no seu corpo, com seus movimentos, expressões momentos de tristezas e força. Tristezas, por não saberem até quando estarão aqui _- a incerteza do futuro mexe na vida delas, no seu cotidiano - e força, por desejarem construir e sonhar com algumas mudanças. Interessante perceber que as mulheres sempre desejam construir algo para seus filhos e filhas, desejam um mundo sem discriminação e sem Aids. O cuidado com o outro ainda se faz presente na vida dessas mulheres. São mulheres fortes, corajosas, destemidas, mas sofridas.Falar de futuro é algo incerto.
Eita, falar de futuro? Quero que meus filhos se cuidem e tenham trabalho, que lembre da mãe com carinho, porque tomando o que posso a eles...Quero ter vida e muitos amigos. Que nenhuma mulher venha a ficar doente por causa do marido. Isso acaba com qualquer uma, sabe? Nenhuma mulher merece. Que o mundo tenha mais amor e compaixão e que a aids acabe de existir, que tenha cura. É pedir demais? (Sol, 33 anos, do lar).
Quero ser feliz, que meu filho cresça lindo, que tenha uma profissão, que seja independente e se cuide. Minha felicidade é ver meu filho ficar velhinho... Não sei se vai dar tempo pra isso, mas que as pessoas se cuidem, que não exista mais preconceito, que ache a cura o quanto antes, antes que muitas mulheres fortes e lindas venham a falecer, venham a viver situações como eu. Espero que nenhuma mulher, nem aqui e nem no mundo vivam com hiv... Amar, sempre, mas com responsabilidade, cuidado e muito carinho e respeito. Que os homens respeitem suas esposas!!!(Ceiça.39 anos, do Lar ).
Aparece na fala de Ceiça um elemento importante. Ela pede para que os homens respeitem suas esposas, sinalizando neste desejo que os homens ainda
são os maiores transmissores da doença para as mulheres, neste caso, as mulheres casadas que foram pesquisadas. Esta fala está diretamente respaldada pelos dados do boletim epidemiológico da Aids no Brasil, onde aponta que as mulheres heterossexuais, casadas estão mais vulneráveis à contaminação pelo vírus, dados que também são constatados nesta pesquisa. Todas as mulheres pesquisas adquiriram o HIV dos seus maridos/companheiros.
Neste sentido, percebe-se a ausência dos homens, na perspectivas de futuro das mulheres. Cuidar dos filhos, da mãe, da saúde e ter um emprego são fundamentais e fazem parte dos sonhos delas, conforme expressa Ana Paula:Primeiro, de cuidar do meu filho, depois da minha mãe...e eu, ficar bem, ter
TECITURAS FINAIS
A realização deste estudo partiu da necessidade de analisar, a partir de um olhar de gênero, a política de saúde voltada para as mulheres, em especial as soropositivas, traçando seu perfil com recorte geracional, socioeconômico, de raça, de expressão religiosa e possibilitou dar voz às mulheres para que pudessem falar do seu cotidiano, suas angústias, necessidades e de como se vêem após sua soropositividade. Neste sentido, revelou alguns pontos de extrema importância focados nos entraves na política e na vivência da sexualidade no que se refere a essas mulheres.
Também consideramos que a realização da pesquisa representou a síntese das inquietações próprias de alguém que se inicia como pesquisadora e, consequentemente, se enfrenta com as dificuldades de sistematização dos conhecimentos adquiridos. Entretanto, reconhecemos que a experiência de dar forma e vida às idéias, vivências e reflexões nos proporcionou um crescimento impar. Acreditamos que os objetivos pretendidos com a elaboração do mesmo foram alcançados, uma vez que foi possível ouvir as pessoas, seguir um roteiro científico de investigação e analisar, à luz das teorias existentes sobre a temática, algumas categorias, sentimentos, pensamentos e perspectivas identificadas por nós, as quais retomaremos de forma breve. O momento do diagnóstico revelou a perspectiva da visão ampla da vivência da sexualidade, percebendo a falta de cuidado com sua saúde sexual e reprodutiva, o que possibilitou incorporar novas formas de se ver e de ver o mundo, constatando-se uma nova identidade – a de ser soropositiva e suas implicações cotidianas o que para Maksud, 2008, receber a notícia significa iniciar um processo de “aprendizado do sofrimento”:
a) A representação da Aids na vida das mulheres concebe ainda o medo da morte, o isolamento, a solidão, a discriminação. O medo da rejeição as leva a enfrentar tudo sozinhas. Falar significa publicizar uma doença estigmatizada; b) A continuidade do vínculo com seu parceiro tornam-se, ao mesmo tempo
desafiante, onde a confiança não mais existe, e reafirmadora de seu papel de cuidadoras, deixando muitas vezes de lado seu próprio cuidado, o que se reflete em seu processo de adoecimento de forma gradativa.
c) A reflexão sobre gênero, saúde sexual e reprodutiva acrescenta ao debate sobre a epidemia de AIDS um conjunto de desafios, entre eles superar a chamada “cegueira de gênero”, que fez com que em grande medida, as mulheres ao longo da história da epidemia do HIV/Aids tenham sido invisibilizadas que sua importância como grupo vulnerável tenha sido subestimada; que as ações dirigidas às mulheres em grande parte se limitem à prevenção da transmissão perinatal – tratando a mulher como meio, e não como finalidade da assistência.Neste sentido, essa análise aponta para a dificuldade de reconhecer e lidar com o diferencial de poder entre homens e mulheres como fator determinante da transmissão do HIV/AIDS.
d) As políticas de Saúde ainda não atendem às especificidades das mulheres soropositivas. Há necessidade de insumos, como gel e camisinhas, que ainda não fazem parte da vida das mulheres. Poucas informações são repassadas, a exemplo da lipodistrofia e sobre a garantia para fazer reposição de massa muscular através do SUS;
e) Necessidade de ações nos serviços públicos de saúde e educação que debatam, informe e disponibilizem a partir de um processo de conscientização os métodos de prevenção ao HIV/Aids e ou de re-contaminação do vírus (condom feminino), promovendo capacitação dos profissionais envolvidos nas suas diversas áreas do atendimento. Entendendo que a informação é fundamental, mas não suficiente, mas a mudança de mentalidade só pode vir se estiver associada a mudança de comportamento, onde o trabalho deve incluir a oportunidade de reflexão sobre prioridade aos métodos de barreira, dupla proteção, hierarquia de proteção entre os métodos, responsabilidade do parceiro, comunicação e negociação destes recursos, contracepção de emergência, entre outros temas.
f) As campanhas educativas do governo federal sobre Aids ainda surtem pouco efeito junto à população. As informações não alcançam o objetivo de estimular práticas sexuais mais seguras, como evidenciado nas falas das mulheres “ouvi falar...”. Também têm tido uma efetividade aquém da necessária, no sentido de reverter preconceitos e atitudes discriminatórias na sociedade em relação às pessoas que vivem com HIV/Aids, conforme relatado pelas entrevistadas.
Não poderia deixar de mencionar que as maiores dificuldades sentidas nesse trabalho versaram sobre o limite de tempo que o pesquisador tem para realizar a pesquisa de campo. As leituras e análises dos dados aconteceram quase que de maneira simultânea. Outro desafio sentido foi de ordem financeira que incidiu em alguns limites de uso de recursos e tecnologias, entretanto tais limites e dificuldades foram parte da aprendizagem e amadurecimento do pesquisador.
Apesar de considerar este estudo concluído, face aos objetivos traçados, nesse momento dado, o mesmo não deve ser considerado como inteiramente esgotado, mas deve ser retomado e ampliado para que a temática possa ser constantemente atualizada, possibilitando leituras diferentes e contextualizadas que possam subsidiar políticas públicas e ações concretas de qualidade no trato das DST/Aids na Paraíba e no Brasil.
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ROTEIRO DA ENTREVISTA EM PROFUNDIDADE
I - DESCOBERTA DA SOROPOSITIVIDADE
1) Vamos começar nossa entrevista falando um pouco sobre o início do HIV/AIDS em sua vida...
2) Desde quando você sabe que é soropositiva, que vive com HIV? Como descobriu? Sabe como adquiriu o vírus
3) Você tinha alguma informação sobre o HIV/AIDS antes de se saber soropositiva? Quais e como adquiriu?
4) Quem informou sobre sua soropositividade? Poderia falar um pouco
sobreesse momento? O que representou na sua vida? Seu cotidiano mudou? Em que?
5) O que pensou ao receber o diagnóstico de soropositividade? Como foi suareação?Teve algum tipo de apoio? Qual? De quem? Onde?
6) No momento do teste tinha algum parceiro(a)? Comente um pouco sobre esta relação.
7) Essa pessoa também fez o teste? Por quê? (Se sim, de quem partiu a sugestão do teste e por quê).
8) Vocês mantém algum tipo de relação? Como é essa relação? 9) Em geral, como é conviver no cotidiano com o HIV?
II - VIDA AFETIVO SEXUAL
1) Atualmente mantém relacionamento com alguém? De que forma? Fale um