Todos os procedimentos realizados nesta pesquisa foram aprovados pelo CETEA-UFMG (protocolo n° 44/2009).
O experimento foi realizado em um bezerreiro do tipo argentino (apêndice 1), localizado na Escola de Veterinária da UFMG (Belo Horizonte, MG). O bezerreiro tem capacidade para 42 animais, alojados de forma individual, com 5 m de arame para correr e espaçamento de 4 m entre os arames. Os animais foram presos aos arames por correntes de 1 m de comprimento. Em uma das extremidades do arame há um suporte para dois baldes, com altura média de 40 cm, e na outra extremidade fica a área de sombra (8,5 m2/animal, proveniente de tela com bloqueio de 80% da radiação solar). O piquete onde está instalado o bezerreiro possui cobertura de grama batatais (Paspalumnotatum) e é cercado por tela de arame. O período experimental foi de setembro de 2010 a março de 2011.
Bezerros machos de raça Holandesa foram captados em fazendas leiteira distantes até 100 km de Belo Horizonte - MG, em um total de 74 animais. Os procedimentos realizados no local de nascimento foram cura de umbigo (solução de iodo a 10%) e fornecimento de dois litros de colostro, de um banco previamente preparado, em até seis horas após o nascimento e quatro litros de leite/dia em dois fornecimentos até o momento da transferência para a unidade experimental, o que ocorreu entre um e três dias de vida.
Na chegada ao local do experimento, os bezerros foram pesados, sendo o tratamento designado de acordo com este peso. A cura de umbigo foi realizada por mais três dias com solução de iodo a 7%. Todos os animais foram mantidos em adaptação até o terceiro dia de idade, recebendo quatro litros de sucedâneo/dia e água à vontade. Na manhã do terceiro dia de vida o tratamento já pré-definido foi iniciado, assim como o fornecimento de concentrado à vontade.
Cinquenta e quatro bezerros foram distribuídos em três tratamentos com 18 animais cada, sendo:
- Grupo 4L-60d: quatro litros (500 g) de sucedâneo de leite/dia distribuídos em dois fornecimentos até 60 dias de idade.
- Grupo 6L-29d/4L-60d: seis litros (750 g) de sucedâneo de leite/dia distribuídos em dois fornecimentos até 29 dias de idade e quatro litros (500 g) de sucedâneo de leite/dia distribuídos em dois fornecimentos de 30 a 60 dias de idade.
- Grupo 6L-60d: seis(750 g) litros de sucedâneo de leite/diadistribuídos em dois fornecimentos até 60 dias de idade.
Cada tratamento foi composto por subgrupos de seis animais, definidos pelo período de vida sendo seiseutanasiados aos 30 dias, seis aos 60 e os seis restantes aos 90 dias. Todos os animais do tratamento 90 dias foram desaleitados de forma abrupta aos 60 dias, procedimento comumente utilizado em fazendas leiteiras no Brasil.
O aleitamento foi realizado com sucedâneo de leite (Lacthor, Tortuga Companhia Zootécnica Agrária), composto de soro de leite (70%), óleo vegetal (óleo de coco), premix vitamínico, proteína concentrada de soja e proteína isolada de trigo. Os níveis de garantia e os resultados da análise bromatológica realizada no Laboratório de Nutrição da EV-UFMG são apresentados nas tabelas 3 e 4, respectivamente. O sucedâneo foi diluído em água a 45°C para 12,5% de sólidos totais (1:8).
Tabela 3. Níveis de garantia do sucedâneo
Por kg do produto Por litro do sucedâneo preparado (1:8) Proteína bruta (mín.) 225,0 g 28,1 g Gordura vegetal (mín.) 170,0 g 21,3 g Matéria mineral (máx.) 95,0 g 11,9 g Fibra bruta (máx.) 2.000,0 mg 250,0 mg Cobre (mín.) 9,0 mg 1,1 mg
Vitamina A (mín.) 55.000,0 U.I. 6,9 U.I.
Vitamina D3 (mín.) 45.000,0 U.I. 562,5 U.I.
Vitamina E (mín.) 80,0 U.I. 10,0 U.I.
Lactose 440,0 g 55,0 g
Tabela 4. Composição nutricional dos alimentos
Composição Concentrado Capim³ Sucedâneo
MS 96,5 22,0 94,6 PB¹ 20,4 3,9 20,7 EE¹ 6,9 1,7 17,0 FDN¹ 12,50 11,86 - FDA¹ 4,00 6,11 - Cinzas¹ 16,00 3,10 9,70 Ca¹ 2,95 0,77 2,88 P¹ 1,26 0,06 0,76 EM² - - 4,16 ¹Valores em percentual da MS
²EM (Mcal/kg) do sucedâneo calculada a partir da equação EM = 0,9 {(9,21 x %gordura) + (5,86 x %proteína) + (3,95 x %lactose)}, segundo Drackley, 2008).
³Valores relativos à matéria seca total
A quantidade total de sucedâneo foi fornecida em duas porções iguais às 8:00h e 16:00h. O sucedâneo foi fornecido desde o início em balde. Quando o consumo não era espontâneo, o bezerro recebia ajuda com dedo ou bico de mamadeira, e, em último caso, o fornecimento era realizado com mamadeira. As sobras de sucedâneo foram mensuradas e anotadas a cada
aleitamento.Os baldes eram lavados após cada aleitamento e recolocados nos suportes para o fornecimento de água.
Foi disponibilizada água à vontade, em baldes de metal com capacidade para oito litros, desde o momento da chegada ao local do experimento. A água era trocada duas vezes ao dia, após cada aleitamento, e reposta às 12 e às 15 horas quando necessário. Todos as animais receberam concentrado farelado à vontade a partir do terceiro dia de vida. O concentrado era composto por núcleo proteico, mineral e vitamínico e milho moído fino (tabela 4). Na formulação foi incluído ionóforo (monensina – 21,05 mg/kg). Inicialmente todos os bezerros receberam 100 g de concentrado/dia, quantidade que foi aumentada de acordo com o consumo de cada animal.
Os baldes para fornecimento de concentrado, identificados com o número do bezerro, eram retirados sempre antes do aleitamento da manhã, para pesagem das sobras, e recolocados com a quantidade total de concentrado do dia em até uma hora após o fim do aleitamento. No final da tarde, era avaliada a quantidade de concentrado em cada balde e adicionado mais concentrado se necessário. Estes baldes eram lavados uma vez por semana. Nos dias de chuva não foi possível avaliar o consumo de concentrado, de modo que nestes dias somente os dados daqueles bezerros que consumiram todo o alimento disponível foram registrados.
Os bezerros foram inspecionados diariamente de acordo com metodologia proposta por Diaz et al. (2001), exceto pela mensuração da temperatura retal que foi realizada em todos os dias após o aleitamento. Neste momento foi feita avaliação do estado geral do bezerro, hidratação e ocorrência de diarreia. Durante todos os dias em diarreia foi fornecido soro oral (dois litros, duas vezes ao dia; 20 g de glicose de milho, 5 g NaCl, 4 g NaHCO3 e 1 g KCl para um litro de água morna). Quando necessário, foi realizado exame clínico completo e adotadas as medidas necessárias. Todas as ocorrências de doenças e tratamentos realizados foram registrados. Devido à severidade dos casos de diarreia, a partir do dia 8 de dezembro de 2010, o primeiro caso de diarreia de cada bezerro foi tratado com enrofloxacino intramuscular (7,5 mg/kg; durante cinco dias) e flunixina meglumina intramuscular (2,2 mg/kg; durante três dias), além do soro oral duas vezes ao dia. A partir de quatro de janeiro de 2011 iniciou-se um protocolo preventivo para diarreia, com a inclusão de 400 mg/bezerro/dia de enrofloxacino em pó (75% enrofloxacino) no sucedâneo fornecido pela manhã entre cinco e onze dias de idade. Dessa forma, os bezerros que apresentaram diarreia neste período foram tratados com o enrofloxacino oral e anti-inflamatório intramuscular e soro oral.