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A romanização apresentou como consequência a transformação da realidade e da estrutura urbana da Hispânia. Isto se sucedeu uma vez que após a conquista romana, realizou-se uma progressiva implantação dos modelos urbanísticos e arquitetônicos romanos no território peninsular (BENDALA GALÁN, 2000-1).

Através da análise da organização territorial e urbana, e as suas mudanças, podemos verificar a integração das culturas hispanas e do Império Romano, em uma convivência das tradições pré-romanas e das novidades fornecidas pela romanização. Deste modo, podemos perceber dados que apontam tanto para a influência da tradição local, quanto o triunfo cultural da potência dominante, com a romanização (Idem, 2000-1).

O estudo das estruturas territoriais, de modelos urbanos e arquitetônicos, permite compreendermos a natureza cultural e sua longa duração, através de uma leitura histórica e arqueológica que valoriza o território e sua transformação antropogênica, cujos elementos mais valorizados constituem-se de aglomerações

populacionais e urbanas. A análise da romanização e sua incidência ou relação com as estruturas territoriais, caracterizadas pelos sistemas de cidade, adquire uma nova importância ao atingir as diferentes culturas hispânicas e sua evolução. Das mudanças mais importantes que ocorrem com a romanização, a mais evidente são as transformações urbanísticas (BENDALA GALÁN, 2000-1).

A conquista de territórios tão distantes e rentáveis como os da Hispânia, foi resultado, como acompanhamos, das ambições e aspirações da aristocracia dirigente de Roma, e causa principal da crise que acabou com a República e deu lugar ao Principado. O controle e o governo das províncias hispânicas, em constante crescimento, se realizavam improvisando soluções de progressos, explorando o poder militar que impunha e mantendo a posição de domínio, por meio da organização das cidades e regiões que incorporavam o Império para satisfazer os interesses de Roma. A existência de uma organização suficiente da Hispânia era uma condição necessária para a conquista romana na época. A estrutura interna cumpria o princípio de autonomia administrativa, subordinada ao estado romano, no caso, a estrutura urbana, próxima aos modelos romanos ou itálicos (Idem, 2000-1).

A existência de uma longa trajetória na implantação de formas de organização urbana no território da Hispânia adquiriu diferente caráter e grau de desenvolvimento segundo suas regiões (Ibidem, 2000-1). A chegada dos romanos trouxe consigo uma grande atividade urbanística, sendo o urbanismo muito desenvolvido na região da Bética (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975). O amplo desenvolvimento urbano desta Hispânia mais “politizada”, da costa mediterrânea, facilitou a conquista e dilatou a romanização, enquanto as terras do interior demonstravam-se limitadas as incorporações urbanas, que sem esta condição estrutural necessária dificultou a conquista dos romanos e o estreitamento da romanização. Estas últimas regiões, por uma dissintonia estrutural, se impulsionaram a rechaçar o domínio estrangeiro romano e a manter sua independência e suas próprias tradições (BENDALA GALÁN, 2000-1).

O ponto de sintonia estrutural da região mais urbanizada sofreu, em primeiro momento, um grande processo de integração helenística pelos cartagineses, e em seguida facilitou a conquista romana e, consequentemente, a romanização. A romanização foi possível através da continuidade e aproveitamento da dinâmica cultural em andamento com a presença cartaginesa, facilitando o plano estrutural de Roma para a conquista. Deve-se considerar que a presença cartaginesa em território da Hispânia se organizava econômica e territorialmente com a influência de matriz

helênica, ou de sua projeção de modelos urbanísticos e arquitetônicos. As principias cidades se construíam de forma monumental com modelos urbanos helenísticos, um espaço configurado por uma arquitetura ao serviço do poder, criadora de referências às manifestações helenísticas. Se exaltava a super-humanidade dos príncipes, com projeção no âmbito militar do dirigente soberano, um modelo condutor da trajetória dos líderes da Antiguidades até a consagração do Principado em Roma (BENDALA GALÁN, 2000-1).

Estes fenômenos observados a partir da estrutura urbana em Hispânia, conecta o antes e o depois da conquista romana, permitindo compreendermos que parte do território com configurações helenísticas, consentia os dirigentes romanos a aumentar a absorção imperialista nos territórios hispanos, em termos de conflitos ou encontros com elites urbanas ligadas aos padrões de conduta helenísticos, que se colidiam ou concordavam com as buscas de poder ou influências. Os Cipiões, principais protagonistas da conquista romana da Hispânia, encarnavam em Roma os ideais dos príncipes helenísticos, que como depositários da província de Hispânia e da organização de suas províncias, conduziram-na com grande independência de Roma; coincidindo com os Barca em relação a Cartago, também feitos à figura de príncipe helenístico (Idem, 2000-1).

Para melhor compreensão, nota-se que o contato com a divindade facilitava definitivamente a conversão do soberano em um deus, que garantia a relação necessária ente homens e deuses. À imitação de Alexandre, o Grande, foi o ideal que encorajou os líderes das sociedades expansionistas e imperialista a lutarem pela hegemonia na Antiguidade, no período helenístico. Os líderes cartagineses que aspiravam criar um império praticamente universal, com os Barca, seguiram o modelo de Alexandre. E assim também fizeram os líderes romanos, com os Cipiões, no final da República (Ibidem, 2014).

Encontros entre hispanos e romanos que exaltavam o soberano geravam a fusão de tradições aristocráticas ibéricas, com influxos helenísticos vinculados aos gregos e cartagineses. Disto permaneceu uma base hispana que configurou o mesmo culto imperial romano, precoce na Hispânia pelas próprias tradições, e outros fatores (Ibidem, 2000-1).

Esta Hispânia politizada, cenário de desenvolvimento urbano antes da conquista romana, oferecia as condições adequadas para se integrar ao Império de Roma, uma vez que incluía também incorporações aos padrões culturais helenísticos

que apontavam uma nova potência hegemônica. A região meridional da Península Ibérica fora caracterizada por uma diversidade regional vinculada a correntes culturais e organizativas de influxos coloniais gregos e fenício-púnicos, em que o urbanismo se apresentava de forma helenística. Esta porção da Hispânia constituiu-se como o território de ocupação inicial de Roma, que como verificamos, estruturou as províncias de Hispânia Citerior e Hispânia Ulterior, consolidadas desde 197 a.C., base logística e militar de uma extensão da conquista do resto do território peninsular, que demandou muito empenho e tempo, muito pela necessidade de proceder a reformas estruturais profundas (BENDALA GALÁN, 2000-1).

Através deste quadro, e ao situarmos a romanização no plano estrutural, compreende-se que corresponde a um plano definido pela existência de formas de vida urbana que entraram em contato na ocasião da conquista. A pesquisa do desenvolvimento da cidade na Hispânia pré-romana permite localizar os fenômenos decorrentes da conquista, começando com sua própria possibilidade: o êxito inicial da conquista romana – resultante dos anos entre 218 a 206 a.C., época da luta contra os cartagineses – deveu-se ao fato de Roma dispor de uma estrutura válida para apoiar seu domínio; além de aliado a estes propósitos, observa-se uma prévia integração de uma parte substancial da Hispânia na corrente helenística, através do domínio dos Barca, que se constituía uma realidade. Assim, a romanização assumia a dinâmica de continuidade da anterior, com um novo significado, de modo que sob a ação de Roma a romanização iniciava um processo de sintonização que facilitava a integração dos principais setores da Hispânia ao Império (Idem, 2014).

Confrontando a ideia de que a conquista de Roma representou uma mudança total ou radical da realidade, quanto mais assentada ou sólida fosse a estrutura urbana que começava, maiores eram as tendências estruturais que persistiam. Dentro da visão tradicional, a província da Bética era a mais romanizada, porém frente a realidade arqueológica e dados históricos e culturais disponíveis demonstram o contrário: uma continuidade substancial do domínio estrutural de época pré-romana em período de domínio de Roma; o território seguiu apresentando uma rede de estrutura urbana, instituições, sistema de organização e de exploração do território, minas e produtos marinhos e etc. Isso aconteceu nos primeiros séculos de dominação romana, contudo, ao longo do tempo, Roma tornou suas contribuições mais substanciais nas culturas ou nas culturas que se iniciaram a dominação, acabando

impostas como determinantes da paisagem cultural da Hispânia (BENDALA GALÁN, 2014).

As contribuições dos romanos ou a romanização devem ser encaradas como adições importantes em todos os seus sentidos a uma realidade prévia, sem que sua existência apagasse necessariamente a anterior. A romanização, muitas vezes, se compreende como algo que manchou ou determinou a totalidade do corpo cultural que se projetava, como o que ocorria com uma cultura ou região, no caso a Bética, que estava em determinado momento “completamente romanizada”, ou seja, que tudo nela havia de romano, porém sem melhorias ou rachaduras. Como se as realidades culturais pré-existentes desaparecessem em uma massa cultural uniforme apresentada como romana. Entretanto, constata-se que as culturas pré-romanas perderam sua entidade ao se introduzirem na cultura romana, desta forma, com a ação dos romanos as culturas pré-romanas permaneceram submissas em uma totalidade dominante, Roma (Idem, 2014).