As “primeiras experiências” da “radiotelephonia” em Fortaleza datam de 1924 com a criação do Rádio Club Cearense, sociedade fundada pelos Srs. Elesbão de Castro Velloso – Engenheiro Chefe do Distrito Telegráfico –, Antonio Eugênio Gadelha, Humberto Monte, João de Carvalho Góes e Clovis de Araújo Janja – respectivamente, Chefe da Via Permanente e Engenheiros da Rede de Viação Cearense –, Clóvis Meton de Alencar e Alfredo Euterpino Borges – funcionários da Rede de Viação Cearense –, Dr. Carlos da Costa Ribeiro – Diretor do Instituto Pasteur – e Augusto Menna Barreto – telegrafista. Este grupo declarava acreditar que a fundação de uma sociedade era o “meio
mais efficaz para se poder acompanhar, de perto, o assombroso desenvolvimento que vão tendo as ondas hertzianas no domínio da prática”.215
A sociedade consistia num grupo de engenheiros que se reunia para estudar as “ciências do rádio” – como eram então chamados os estudos envolvendo radiofonia naqueles dias.216
Nesse período, possuir um aparelho de rádio em casa era para poucos bolsos. Raimundo de Meneses, no seu livro Coisas que o Tempo levou – oriundo do programa homônimo de crônicas, que ia ao ar pelos microfones da Ceará Rádio Club em 1938 – reconta a construção do primeiro rádio-receptor na cidade de Fortaleza:
De volta do Rio, onde fora assistir aos festejos retumbantes ali realizados, e onde tivera ensejo de assistir ao funcionamento de um aparelho de rádio, na residência do então ministro Francisco Sá, o engenheiro cearense (Clóvis Meton de Alencar) meteu-se de corpo e alma na empresa árdua de fabricar coisa idêntica.(...) Para a consecução do seu desejo, lutou com várias dificuldades, principalmente com a falta de material adequado. Ainda no Rio tratou de munir-se do necessário. Percorreu inutilmente várias casas comerciais cariocas e grande foi a sua desilusão ao verificar que não existia permissão para a venda de tal material. Por informação de um amigo, soube que a companhia West Electric, com estação experimental instalada no alto do Corcovado, a fim de funcionar durante a exposição centenária, tinha distribuído, a título de propaganda, no recinto da feira comemorativa, algumas lâmpadas
215 Rádio. Rio de Janeiro: 1924, p. 35-37.
receptoras [válvulas] 216-A, fabricadas por aquela empresa. Com não pequenos embaraços, comprou uma dessas pequenas lâmpadas pela importância de 150$000. Foi esse todo o material que obteve para o seu receptor, o qual trouxe para Fortaleza, onde desembarcou a 25 de setembro. Logo no dia seguinte deu início aos seus trabalhos, vindo montar o receptor num simples pedaço de madeira medindo trinta centímetros de cumprimento, tendo vinte e cinco de altura. Os elementos componentes, tais como o soquete, condensadores variáveis e fixos, resistência, bobinas e baterias, afora a lâmpada adquirida na capital do País, foram confeccionados por ele próprio. O aparelho assim armado apesar de nada ter de artístico, passou a funcionar satisfatoriamente. E naquele dia 4 de outubro, com um grupo de amigos, Clóvis conseguiu, a tantas horas da noite, ouvir com perfeita nitidez uma audição irradiada do Rio pela estação, então em experiência no Corcovado, que era o Rádio Clube do Brasil. Foi grande a satisfação que sentiram todos, principalmente Clóvis Meton, que era a primeira pessoa que tinha ouvido radiotelefonia, não só em Fortaleza como também em todo o norte.217
Apesar do teor de exaltação – enaltecendo “o feito” de Clóvis Meton de Alencar – a crônica acima, é significativa das dificuldades em torno do rádio nos seus primeiros anos. Tem-se que levar em conta que Clóvis Meton de Alencar era um engenheiro experimentado – estando envolvido na introdução dos primeiros automóveis na cidade218 – e funcionário da Rede de Viação Cearense. O que quer dizer que construir um aparelho receptor de rádio, mesmo a quem tivesse acesso às peças, não era possível a todos. Há de se lembrar que as emissoras mais próximas se localizavam no Rio de Janeiro e em Recife, o que necessitava uma regulagem precisa do aparelho.219 Além
disso, a ausência de uma legislação específica vigente – a primeira é de 1924 – proibia a construção e o comércio de aparelhos receptores de rádio.220
Mesmo na Capital da República, o grupo liderado por Henrique Morize e E. Roquette Pinto encontrou dificuldades para lidar com a legislação vigente, que determinava apreensão para os “miseráveis Galenas” que eram construídos.221
Em novembro de 1924, deu-se a criação do “regulamento dos serviços
civis de radiotelegrafia e radiotelephonia” que legalizava as emissoras de rádio
217 MENEZES, Raimundo de. 2000, Op. Cit., p. 146-148.
218 Sobre os primeiros carros no Ceará, conferir: ALENCAR, Edigar de. Fortaleza de Ontem e de Anteontem. Fortaleza: Edições UFC / PMF, 1980, p. 50.
219 Apesar de já existir uma emissora funcionando em Recife, não foi encontrada nenhuma
referência, na documentação pesquisada, a esta estação. O que, provavelmente, aponta para uma potência diminuta da estação pernambucana.
220 PINTO, Edgar Roquette. Ensaios Brasilianos. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1940, p. 73-74.
– que deveriam ter o alcance limitado ao Estado onde se encontrava e pertencer a sociedades nacionais – e aparelhos receptores – mediante cadastro na repartição de serviços telegráficos e pagamento de uma taxa anual de 5$ (preço correspondente, em média, à metade do preço de um disco de 78 rotações).222 No país, não havia fabricação de válvulas para aparelhos de rádio
e a maior parte dos aparelhos existentes no Brasil era importada, construída pelos próprios proprietários ou encomendada. Esses aparelhos, obtidos a um alto custo financeiro – apenas a lâmpada citada por Edigar de Alencar custava 150$000, correspondia ao preço de uma Victrola em Fortaleza, e um aparelho receptor da marca Pekam variava de 500$000 (com apenas uma válvula – Nº 170) a 2.300$000 (com 4 válvulas – Fada) – eram quase obsoletos na década de 1920, conseguiam “ouvir somente a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro,
porém sem a nitidez e segurança que é para desejar”.223
Para os que estavam dispostos a comprar um aparelho, mesmo sabendo das dificuldades que a radiofonia passava, havia, ainda, um outro empecilho: “não há no Estado nenhuma casa comercial que negocie com
aparelhos de rádio e acessórios”.224 Para encontrarem depositários de artigos radiofônicos em Fortaleza, os “amadores” tiveram que esperar até 1929, quando a “Casa Columbia” – “a vendedora dos afamados DISCOS COLUMBIA
novo processo sem chiado, e das GRAPHONOLAS VIVA-TONAL a última palavra em phonografo 225 – anunciava no Almanach do Estado do Ceará possuir “DEPOSITARIOS de artigos RADIO-PHONICOS. [e] Montadores de
estações nos lares”.226
No texto intitulado “Rádio Club Cearense” – publicado em 1924 na revista Rádio – sobre a situação da radiofonia no Ceará, o correspondente escreveu que em Fortaleza existiam cinco aparelhos rádio receptores e havia por parte do Rádio Club a vontade de construir uma estação transmissora de 3
222 CALABRE, Lia. Políticas Públicas Culturais de 1924 a 1945: o rádio em destaque. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: FGV, n. 31, 2003, p. 162-163.
223 Rádio. Rio de Janeiro: 1924, p. 4 e 34. 224 Idem., p. 35.
225 Almanach Estatístico, Administrativo, Mercantil, Industrial e Literário do Estado do Ceará para o Ano de 1929. Fortaleza: Typographia Progresso, 1928, p. 191.
watts de potência, que deveria ser trocada por outra de maior alcance assim que se tornasse viável financeiramente.227
Não é possível saber se o projeto do Rádio Club em construir uma estação transmissora foi efetivado. Havia entre os sócios do Rádio Club Cearense o desejo em fundar uma emissora de rádio em Fortaleza, conforme se lê em seus estatutos. No entanto, é mais provável que essa pretensão nunca tenham saído do campo do entusiasmo. Não há fontes que afirmem que este desejo, apesar da relutância de alguns pesquisadores em afirmar o contrário, tenha sido posto em prática.
Parece mais prudente afirmar que transmissões regulares só tiveram início na cidade com as irradiações provenientes das Casas Dummar. Isto é justificável, em primeiro lugar, por conta do pequeno número de receptores existentes na cidade – cinco228 – e o caráter ainda “experimental” da radiofonia na capital do Ceará.
Isso não significa que o Rádio Club Cearense foi pouco importante para o estabelecimento da radiofonia em Fortaleza. Pois, mesmo os projetos não efetivados são testemunhos de desejo, de sonhos, todos históricos e datados, concebidos por homens de uma época. Afinal, não somente os projetos efetivados interessam à história. O grupo entusiasmado com a novidade adotou o modelo corrente no restante do país: a rádio-sociedade, para o Ceará – ao contrário do que é possível pensar numa reflexão precipitada, o rádio não iniciou seu funcionamento dentro do modelo que o tornou célebre nos seus “anos de ouro” e foi grande influenciador da forma de fazer televisão “à brasileira”. O Rádio Club Cearense buscou primeiro dominar a técnica para depois descobrir o que fazer com ela.
As rádio-sociedades funcionavam através das colaborações dos seus sócios, com discos e dinheiro, e traziam nos seus estatutos a obrigatoriedade da colaboração dos associados com uma determinada quantia mensal. Caberia aos sócios do Rádio Club Cearense, segundo artigos 6°, 7° e 8° dos seus estatutos, contribuir mensalmente com cinco mil réis (5$000), “satisfeito” até o
227 Rádio. Rio de Janeiro: 1924, p. 35-37.
228 Quatro aparelhos pertencendo aos sócios do Rádio Club Cearense e um, com alto-falantes,
dia dez de cada mês. O sócio que atrasasse a respectiva mensalidade, por mais de seis meses, seria eliminado da sociedade.229
O Rádio Club Cearense surgiu como um projeto que visava uma intervenção direta dos “mais esclarecidos” sobre o restante da população, buscando uma sociedade mais “patriótica, instrutiva e recreativa” e destinada “a todas as classes”, bem aos moldes da pioneira rádio-sociedade brasileira: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.230 Anseios irradiados do Rio de Janeiro que em Fortaleza encontravam solo fértil, não apenas distribuídos pelo éter, mas, também, pelas páginas das revistas oficiais da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro: Rádio (1923-1926) e Electron (1926).