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Com o intuito de aprofundar a análise sobre a relação do processo de trabalho na QV dos enfermeiros, procedeu-se o cruzamento dos dados provenientes de ambos os instrumentos para identificar os possíveis pontos convergentes e divergentes entre os relatos provenientes das entrevistas e os dados apresentados pelo instrumento WHOQOL-bref.

De modo geral, levando em consideração o escore médio apresentado para a QV geral do instrumento WHOQOL-bref, os participantes indicaram estarem satisfeitos com a QV. Todavia, a análise das entrevistas identificou relatos nos quais os enfermeiros descreveram situações que os afetaram, física e emocionalmente, de maneira a interferir nos seus momentos de lazer e nas relações sociais.

Embora os fatos acima descritos possam ser vistos como uma divergência entre os resultados encontrados, alguns participantes revelaram que estas mesmas situações negativas serviram de oportunidades de aprendizado para melhor lidarem com as adversidades que enfrentam no processo de trabalho. Além disso, eles afirmam que tais adversidades não geram interferência negativa do processo de trabalho na QV. Tal fato foi evidenciado na avaliação da QV geral no instrumento WHOQOL-bref, cujas facetas obtiveram escores que indicaram ―satisfação‖ tanto com a saúde, quanto com a QV, consistindo, portanto, em um ponto de convergência entre os resultados do referido questionário e os relatos das entrevistas.

Ainda assim, faz-se importante destacar que alguns relatos apresentados nas entrevistas apontaram a existência de elementos inerentes ao processo de trabalho e que os entrevistados consideraram interferir negativamente em sua QV. Alguns desses elementos se referem às inadequadas condições de trabalho, aos problemas relacionados com a gestão, à deficiência de recursos materiais e às ausências do profissional médico. Estes fatores dificultam a organização do processo de trabalho, consequentemente a realização do atendimento de qualidade, gerando angústia e ansiedade no profissional.

Apesar da percepção positiva da QV por parte dos sujeitos da pesquisa através do instrumento WHOQOL-bref, os domínios meio ambiente e psicológico apresentaram facetas negativamente avaliadas, as quais podem possuir relação com os fatores supracitados que interferem negativamente na QV de vida dos enfermeiros, são elas: ―quão saudável é o seu ambiente físico?‖, ―quão disponíveis pra você estão as informações que precisa no seu dia-a-dia?‖ e ―com que freqüência você tem sentimentos negativos tais como mau humor, desespero, ansiedade, depressão?‖.

No que se refere à avaliação do ―ambiente físico‖ no questionário WHOQOL-bref, no qual os enfermeiros responderam que este é ―muito pouco‖ saudável, pôde-se inferir que estes profissionais o associaram ao ambiente de trabalho, visto que na faceta ―quão satisfeitos você está com as condições do local onde mora?‖ demonstraram estarem ―satisfeitos‖.

Quanto às ―oportunidades de adquirir novas informações e habilidades‖, estas também podem ter sido associadas ao processo de trabalho, pois alguns

relatos apresentados nas entrevistas mencionaram problemas de comunicação como dificultadores da obtenção de informações e das tomadas de decisão.

Por outro lado, vale ressaltar que mesmo os entrevistados tendo elencado as dificuldades de comunicação entre eles e os membros da equipe, os gestores e até mesmo entre eles e os usuários, quando perguntados no questionário WHOQOL-bref acerca da satisfação com as relações pessoais, as quais abrangem não somente os amigos e familiares, mas também colegas de trabalho, os mesmos responderam estarem ―satisfeitos‖. Neste aspecto, que abrange o domínio relações sociais, duas perspectivas merecem ser consideradas: a da conformação das relações no ambiente de trabalho, e a conformação das relações fora dele.

No que diz respeito ao ambiente de trabalho observou-se, nos relatos, que em algumas USF a conformação efetiva do trabalho em equipe é prejudicada tanto pela falta de alguns profissionais, quanto pelas dificuldades de comunicação entre os profissionais existentes, interferindo nas relações interpessoais entre os membros da equipe. Lembrando que o trabalho em equipe consiste em um dos elementos essenciais para a reorganização do processo de trabalho com a finalidade de garantir a assistência integral ao usuário.

No que se refere às relações pessoais fora do ambiente de trabalho, estas ficam prejudicadas devido ao estresse a que os profissionais são submetidos, tanto que, em alguns discursos, os enfermeiros sinalizaram a necessidade de mudança nos seus hábitos de vida como uma maneira de resgatar os laços familiares e de amizade que foram perdidos ou afetados pelos problemas que vivenciam nas USF.

A relação do trabalho dos enfermeiros com seu sono foi outro motivo que levou à percepção da necessidade de mudança de hábitos. Eles tinham o sono prejudicado à medida que as expectativas dos enfermeiros para a resolução dos problemas da comunidade não eram correspondidas, gerando frustrações, preocupações e sentimentos de impotência. Pode-se afirmar que isto refletiu na avaliação da faceta do Domínio Físico, no WHOQOL-bref, relacionada ao grau de satisfação dos pesquisados com o seu sono, na qual revelaram estarem ―nem satisfeitos, nem insatisfeitos‖, indicando neutralidade nesta avaliação quando se esperaria uma avaliação negativa neste aspecto. Podendo-se concluir, portanto,

que este se conformou em um ponto de divergência entre as respostas do questionário e da entrevista.

A insatisfação com o salário relatada pelos sujeitos da pesquisa também se constituiu em gerador de angústia, primeiro porque não corresponde às responsabilidades que lhe são atribuídas, segundo porque não é suficiente para a satisfação de suas necessidades. Isto foi facilmente visualizado através da avaliação deste aspecto no instrumento WHOQOL-bref cuja faceta ―você tem dinheiro suficiente para satisfazer suas necessidades?‖ (Tabela 7) obteve o menor escore dentre todas as facetas do instrumento, indicando que os recursos financeiros de que dispõem são ―muito poucos‖. Consistindo assim em um outro ponto de convergência entre os resultados provenientes da entrevista e do WHOQOL-bref.

Um fato curioso que surgiu nos discursos das entrevistas foi a dissociação que os enfermeiros fizeram entre o ―processo de trabalho‖ nas USF e o ―trabalho de enfermagem‖, como se este não fizesse parte daquele. Tal dissociação foi identificada quando, ao serem perguntados sobre a sua satisfação com o trabalho e interferência deste na QV, os mesmos responderam que o ―trabalho enquanto enfermeiro‖ não lhes trazia insatisfação e não interferia em sua QV, eles descreveram sentimentos de prazer e satisfação por estarem exercendo a profissão que escolheram.

Por outro lado, revelaram que aspectos relacionados ao processo de trabalho lhes traziam insatisfação, desmotivação e até sentimentos de depressão, sendo manifestado inclusive o desejo de mudança de emprego. Este dado corrobora com o achado no WHOQOL-bref e permite inferir que, diante da faceta relacionada com a capacidade para o trabalho, os mesmos avaliaram estarem ―nem satisfeitos, nem insatisfeitos‖, pois a associaram com os aspectos do processo de trabalho e não do ―trabalho em enfermagem‖.

Diante do exposto, verifica-se que os relatos provenientes da entrevista trouxeram algumas características da percepção da QV dos enfermeiros entrevistados que não foram possíveis serem detectadas no instrumento WHOQOL-bref, no entanto, as informações de um complementou e explicou as informações do outro .

E pode-se observar que, apesar dos sujeitos da presente pesquisa reconhecerem alguns aspectos relacionados ao processo de trabalho influenciando na sua QV, os mesmos apresentaram percepção positiva em relação a ela.