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Os preços dos alimentos orgânicos podem ser considerados um dos entraves para o rápido desenvolvimento da produção orgânica no Brasil (DAROLT, 2001). O preço final da mercadoria no mercado tem que cobrir, de alguma forma, as remunerações das três grandes classes sociais existentes no capitalismo: os trabalhadores, cujos salários fazem parte do preço de custo, o lucro como a retribuição ao capital empregado pelos capitalistas-arrendatários e a renda da terra reservada aos seus donos. Assim, o preço, ao refletir as relações de produção sob o regime capitalista, vai comportar, além dos custos de produção em que se encontra a remuneração dos trabalhadores, as frações correspondentes às remunerações dos agentes econômicos das outras classes sociais (CARMO 1995).

A concorrência econômica entre o sistema orgânico e o convencional é injusta, pois a agricultura convencional exclui dos cálculos da formação de preço a contabilidade ambiental, exteriorizando os impactos ambientais (DAROLT, 2001). E, diante da produção orgânica reduzida e bastante pulverizada, quando comparada à produção convencional reforça-se as questões econômicas destacadas por CANO (1937):

'“Quanto mais escassa for a oferta de um bem em um dado mercado, maior o nível absoluto e relativo atingirá o seu preço, e, em sentido inverso, quanto mais abundante sua oferta, menor será seu nível de preço. O preço em si nada mais é que a quantidade de moeda requisitada para a compra ou a venda de uma unidade de um bem qualquer – preço absoluto. Quando, no entanto, cotejamos o preço de um bem em relação ao preço de outro bem, estamos tratando de preços relativos. Os preços relativos, portanto, traduzem-se em importantes indicadores para os organizadores da produção, em termos de decisões de escolha de produtos, processos técnicos, insumos e fatores a serem utilizados na produção. O sistema de preços, portanto, presta-se a “ajustar” a oferta à procura, constituindo-se, pois, no elemento básico da distribuição do fluxo real entre as famílias, não levando em consideração as necessidades individuais ou coletivas, mas tão-somente o poder de compra individual (CANO, 1937)”.

Nos gráficos a seguir comprova-se que a quantidade de morango (no caso convencional) ofertado/vendido no CEASA - Campinas é inversamente proporcional ao preço médio do quilo do produto. A produção de base ecológica também apresenta, proporcionalmente, tais oscilações ligadas à safra, principalmente em produtos com alto valor agregado, como o morango.

Figura 26 Oferta de morango (convencional) e preço médio (Kg) comercializado no CEASA- Campinas, ano 2009. Fonte: Programa Brasileiro de Modernização do

Mercado Hortigranjeiro (PROHORT/CONAB)

Quando sobram produtos, no fim de feira, por exemplo, ou com prazo de validade vencido, diminui-se o preço final. Ou seja, a necessidade de se fazer

vendas rápidas, para evitar as perdas é uma preocupação constante, e dessa forma os preços acabam caindo, para melhorar as vendas. Um produtor ecológico relata:

“O padrão de preços dos alimentos é ditado por uma lógica perversa. Vender abaixo do preço é normal.” Os agricultores entrevistados afirmam que assim como os custos de produção estão aumentando, as receitas também estão. A produção de alimentos diferenciados (como ervilha torta, abobrinha italiana, morango, etc.) acaba compensando as eventuais diferenças entre os preços. Dos produtores entrevistados nota-se que muitos definem o preço antes de uma análise sobre os custos de produção, levando-se em conta essencialmente o preço ditado pelo mercado. Assim sendo, a formação do preço de produtos agrícolas pela agricultura familiar - que ainda não se apropriou de métodos de gerenciamento de produção - acontecem especialmente em função do mercado consumidor e das indicações dadas pela concorrência. Sobre este ponto, um agricultor entrevistado afirma:

“O produtor até tenta embutir os custos de produção no preço, contudo é inviável, já que o consumidor já tem um padrão de preços que está acostumado a pagar.”

Quando se leva em conta os distintos canais de comercialização e os tipos de produtos ofertados, observam-se diferenças na variação do preço final. A figura 28 representa uma comparação entre venda direta, venda através de distribuidor local – para coletivo de consumidores - e em circuito longo, através de distribuidor atacadista, na cadeia produtiva do morango de base ecológica.

Figura 27 Representação do fluxo de transação do preço, na cadeia produtiva do morango ecológico, em três diferentes canais de comercialização, na região de

Campinas. Fonte: Dados da pesquisa.

Nos circuitos curtos de comercialização, diferentemente das redes varejistas, os preços dos produtos oscilam menos ao longo do ano. Os agricultores afirmam que o preço da feira não sofre variação de forma intensa como acontece no mercado convencional, permanecendo por muitos meses, e até anos com o mesmo preço.

Realizar a venda direta permite que o produtor coloque um preço coerente (justo) para com sua atividade produtiva, sendo menor que o preço aplicado pelas redes varejistas e eventualmente até maior do que quando comercializado por distribuidores locais. Feirantes e produtores que comercializam direto na propriedade afirmam que vale a pena esta forma de venda, pela manutenção da autonomia para com seu projeto produtivo.

Contudo, como nem todos os produtores possuem perfil e condições para realizar a comercialização por este canal, o distribuidor acaba sendo um parceiro importante no escoamento da produção. No caso do grupo de consumidores, nota-se que a centralização e volume de pedidos permitiram o estabelecimento de uma negociação entre consumidor e produtor.

As duas pontas do circuito longo de comercialização assumem os reflexos desta cadeia, quando se fala sobre o preço do produto. De um lado o

consumidor encontra preços altos e, de outro, o produtor é pressionado pelos demais agentes da cadeia, tendo que aceitar um preço ditado pelo distribuidor. Nos circuitos convencionais, os produtores entregam os produtos sem saber o valor que será pago, recebendo somente algumas semanas após a venda. Já nos circuitos longos de produtos ecológicos as dificuldades são com as devoluções de produtos e dependência quanto à formação do preço, e neste sentido o depoimento de um produtor orgânico confirma:

“O varejista sempre ganha porque ele tem os instrumentos. Se o preço sobe, ele sobe, se o negócio desce, ele não desce o preço”- produtor local.

Já no mercado local de base ecológica, nota-se a importância dada pelos distribuidores locais para que os agricultores determinem o preço de seu produto. E, pelo fato de a cadeia ser curta e conseqüentemente mais transparente que os circuitos longos, o preço tende a não ficar oscilando ao longo do ano.

Um produtor ecológico que comercializa para distribuidores atacadistas identifica que é importante fortalecer os meios alternativos de produção e comercialização, porém destaca que os consumidores estão atentos à lógica global, ou seja, os supermercados, que por sua vez, dependem dos distribuidores:

“nas feiras você não dá conta de comprar tudo que precisa ou deseja, além de ter somente algumas vezes por semana.” Assim, a estratégia produtiva adotada é a produção em quantidade para ganhar em escala, além de optar por um produto como “carro-chefe”, o que demanda maior especialização. Tais fatores, como escala de produção e assistência técnica, implicam em maiores custos (investimento técnico, em mão-de-obra e insumos) por unidade de produto, refletindo no relativo aumento de preços.