Vejamos agora o segundo aspecto no planejamento cultural de acordo com uma perspectiva skinneriana. Outra objeção a uma cultura planejada decorre do exercício do controle do comportamento. Em uma análise skinneriana, o planejamento apenas explicita o controle e o maneja, um controle que já existe em qualquer ambiente independente de qualquer planejamento. Entretanto, ao explicitar o controle estamos,
grosso modo, contrariando os princípios decorrentes de uma concepção tradicional de
liberdade e de dignidade. Simplificadamente, esses princípios defendem que o ser humano deve ser livre de qualquer controle e, em função disso, é responsável pelos seus atos em termos de culpa ou de mérito.
A crítica de Skinner (1971/2002) ao conceito tradicional de liberdade refere-se à afirmação de que o comportamento humano pode ser indeterminado, no sentido de que pode ser “não-controlado”. Uma concepção filosófica behaviorista radical sustenta que o comportamento é determinado por contingências ambientais, tais contingências podem ou não implicar controle aversivo do comportamento. Skinner (1971/2002) enfatiza que a literatura tradicional da liberdade sugere que o controle não produz
liberdade, mas o tipo de controle ao qual essa literatura se refere é frequentemente o controle coercitivo. Essa literatura, quando trata das condições pelas quais considera que o ser humano pode ser livre, não leva em consideração que mesmo nesse caso há controle, embora seja um controle não coercitivo. Além disso, essa literatura generaliza tais fatos e defende que toda espécie de controle é “ruim”, portanto, opõe-se ao planejamento cultural.
A proposta de Skinner (1971/2002) é a de que planejemos uma cultura que possibilite que o comportamento humano esteja “livre”, o máximo possível, de controles aversivos e de certos tipos de controle, como aqueles que geram consequências aversivas postergadas ao comportamento do indivíduo ou consequências que acabam por não fortalecer uma cultura. Sendo assim, uma Ciência do Comportamento deve considerar, em sua análise, todas as formas de controles das quais o comportamento humano é função.
Uma vez que o planejamento implica em explicitar o controle, as pessoas se opõem a ele por temerem a “exploração”. Os dados da história nos sugerem inúmeros exemplos de controles abusivos, e na maioria deles o controle era coercitivo.
Além disso, o controle exercido por um planejador (seja ele uma agência controladora ou uma única pessoa) retira os méritos do controlado. Assim, um professor que utilizou técnicas para melhorar o desempenho de seus alunos recebe “os méritos” pela boa aprendizagem, sendo que em um contexto em que os alunos fossem “mal ensinados” ou não tivessem uma educação formal, os méritos de uma “boa” aprendizagem seriam destinados a esses alunos. Skinner (1969c) enfatiza que em uma comunidade planejada, como o exemplo fictício de Walden II, onde as contingências são planejadas para possibilitar ao comportamento humano o máximo de eficiência, “méritos” e “admirações” seriam desnecessários. Para Skinner (1969c), “méritos” e
“admirações” são exemplos de reforçadores condicionados e são utilizados para induzir as pessoas a se comportarem de acordo com o comportamento que seja admirável. Tendemos a utilizar esses reforçadores quando outras formas de controle não estão disponíveis. Segundo Skinner (1969c, p. 44). A utopia as a completely managed culture
seems to work a wholesale despoliation of this sort. Its citizens are automatically good, wise, and productive, and we have no reason to admire them or give them credit29
(Grifos do autor).
Portanto, temos que a partir de princípios emergidos do estudo científico do comportamento, Skinner (1971; 1971/2002; 1969c; 1969d) defende o planejamento de contingências para a promoção de “um mundo melhor”, o que em termos comportamentais seria traduzido por uma cultura que possibilite práticas que a fortaleçam. O critério de avaliação para um planejamento cultural é fundamentado no valor principal da ética skinneriana: o “bem” da cultura, ou seja, sua sobrevivência. Entretanto, defendemos que a obra de Skinner sugere um planejamento cultural que proporcione o “bem” do indivíduo, o “bem” dos outros e por fim o “bem” da cultura. É em função desse equilíbrio que devemos planejar, e não deixar que as mudanças sejam frutos de simplesmente alguns acasos e acidentes.
Passando a palavra ao autor.
“A well-designed culture is a set of contingencies of reinforcement under which members behave in ways which maintain the culture, enable it to meet emergencies, and change it in such a way that it will do these things even more effectively in the future. Personal sacrifice may be a
29 Uma utopia como uma cultura totalmente gerida parece funcionar como uma espoliação em massa desse tipo. Seus cidadãos são automaticamente bons, sábios e produtivos, e não temos razões para admirá-los ou atribuir-lhes méritos.
dramatic example of the conflict of interests between the group and its members, but it is the product of a bad design. Under better contingencies behavior which strengthens the culture may be highly reinforcing” (Skinner, 1969c, p. 41) (Nossos grifos).30
Entretanto, salientamos que essa é uma proposta skinneriana que precisa ser discutida em seus aspectos que implicam consequências para a prática do analista do comportamento e, em última instância, para o fortalecimento das culturas. Quando entramos no campo do planejamento cultural, algumas críticas são destinadas à proposta skinneriana. Carrara (1988/2005) levanta alguns questionamentos decorrentes dessa proposta, assim, devemos perguntar, quem será controlado? Quem exercerá o controle? Que tipo de controle será exercido? O que implica em questões diretamente ligadas ao planejamento cultural. Logo, questionamos, quem seria o planejador cultural? Como evitar que o planejador (ou os planejadores) usufrua mais dos recursos da cultura que planejou que os membros daquela cultura? Como evitar um sistema autoritário? Pensar em planejamento cultural nos dias atuais é pensar que poucos que detêm o poder usufruem dos recursos de uma sociedade enquanto que a imensa maioria da população não tem acesso ao mínimo de recursos para a sua sobrevivência.
Passando a uma discussão teórica, primeiro é preciso não perder de vista que o comportamento é determinado por suas consequências, o que implica que planejadas ou não as contingências determinam o comportamento. Com isso, não cabe nesta proposta a crítica de que não devemos planejar porque devemos ser “livres” em nossas escolhas.
30 “Uma cultura bem planejada é um conjunto de contingências de reforçamento, sob o qual os
membros se comportam de acordo com os procedimentos que mantêm a cultura, capacitam-na a enfrentar emergências, e modificam-na de modo a realizar essas mesmas coisas mais eficientemente no futuro. Sacrifícios pessoais podem ser exemplos dramáticos do conflito de interesse entre o grupo e seus membros, mas são produtos de um mau planejamento. Sob
melhores contingências, o comportamento que fortalece uma cultura pode ser altamente
Mas as questões que nos perturbam dentro de uma proposta skinneriana são: Quem seria o planejador (ou planejadores)? Quem planejaria a modificação nas contingências de uma sociedade? Os planejadores seguiriam realmente a ética skinneriana de fortalecimento das culturas? O equilíbrio entre o “bem” do indivíduo e o “bem” da cultura seria mantido?
Tais questionamentos estão diretamente relacionados com a discussão do planejamento cultural. Skinner, já em 1953/1965, apontou os perigos do desenvolvimento de uma tecnologia científica que poderá ser utilizada para fins que não foram anteriormente planejados, ou seja, uma ciência não conteria necessariamente em si os meios para controlar os usos para os quais suas pesquisas serão dirigidas. Temos vários exemplos atuais, como as pesquisas de enriquecimento de urânio que permitiram a construção da bomba atômica, as pesquisas no campo da microbiologia que podem levar a construção de armas biológicas, etc.
Uma primeira direção fornecida por Skinner (1948/2005; 1971/2002) é a de que o planejador deve fazer parte do grupo sobre o qual as contingências são planejadas, assim, ele estaria sendo diretamente afetado pelas contingências que planejou, o que pode contribuir com um melhor conhecimento da efetividade das práticas implementadas bem como sua real contribuição com o fortalecimento do grupo. Além disso, Skinner (1953/1965) defende que devemos “instrumentalizar” as pessoas para que se engajem em comportamentos de contracontrole eficazes quando necessário, ou seja, se em um dado momento os planejadores de uma cultura ou as agências de controle (governo, lei, religião, psicoterapia, educação, economia, etc.) não estiverem trabalhando para o bem do grupo, este mesmo grupo poderá produzir modificações nas práticas culturais para que práticas traduzidas pelos valores daquela cultura sejam restabelecidas.
A nosso ver, planejar uma cultura de acordo com uma perspectiva skinneriana consistiria primeiramente em educar a população dentro de uma ética da sobrevivência das culturas e dentro disso, em uma ética cooperativa. Planejamento que poderia ser iniciado por especialistas na Ciência do Comportamento, mas que posteriormente deveria ser realizado por todos. A instrumentalização da população sobre as técnicas comportamentais poderia também seguir o mesmo caminho. Assim, poderíamos alcançar uma sociedade em que todos seriam planejadores de sua cultura baseando-se na ética skinneriana, uma ética que em termos leigos defende práticas igualitárias, colaborativas e cooperativas. Mas tudo isso são possibilidades implicadas da teoria, o que necessitaria de mais pesquisas teóricas, empíricas e pessoas engajadas na discussão social e política elucidada pelo Behaviorismo de Skinner. Uma vez que temos como “pano de fundo” a Ciência do Comportamento, qualquer decisão em termos de planejamento cultural implicaria em experimentação, controle e previsão. Ou seja, quem seria o planejador? Como evitar o despotismo? Como possibilitar a sobrevivência da cultura? São questões a serem respondidas em “experimentos de comportamento”, em última análise, experimentar, prever e controlar. Assim, talvez nunca encontremos respostas absolutas. Tentaremos indicar no decorrer da tese como algumas práticas são planejadas de acordo com uma perspectiva skinneriana. Dentro disso, Walden II sugere vários possíveis exemplos de soluções para questionamentos desse tipo, mas isso é assunto para o próximo capítulo.
1.5.O CONCEITO DE HOMEM NA TEORIA DE B.F.SKINNER: UM COMPROMISSO COM O