Em Cebus capucinus, os estudos de longa duração de Perry et al. (2003) identificaram várias tradições em comportamentos sociais, como brincadeiras de morder o dedo de outro indivíduo, segurar e cheirar as mãos de outro indivíduos, ou enfiar o dedo na narina ou olho do outro. Apesar de comuns em alguns grupos, esses comportamentos não ocorrem em todos os grupos de C. capucinus na Costa Rica. Muitos são temporários, como “modas”, surgindo, às vezes independentemente, em vários grupos, se mantendo por meses, anos ou décadas, e eventualmente desaparecendo. Essas convenções sociais poderiam, segundo Perry et al., serem usadas como um modo de testar a qualidade das relações sociais entre os indivíduos dos grupos ou subgrupos, uma vez que sua ocorrência era mais frequente entre parceiros regulares de brincadeiras ou catação, ou em díades com fortes ligações sociais.
No caso do gênero Sapajus (anteriormente C. apella), a existência da grande variação comportamental, nesse caso do uso de ferramentas, também abre a mesma possibilidade, apesar de determinantes ecológicos e genéticos não terem sido descartados na maioria dos casos (Ottoni & Izar, 2008).
1.4. Objetivos
O objetivo geral da pesquisa foi descrever e comparar as formas de uso de ferramentas e outras potenciais tradições comportamentais em 2 grupos de macacos‐ prego do Parque Nacional Serra da Capivara ainda não estudados sobre esse aspecto e
também comparar os resultados com outros grupos já estudados por Mannu e Ottoni (2009).
A partir das comparações entre grupos vizinhos de macacos‐prego do Parque Nacional Serra da Capivara, mas que habitam um ambiente praticamente igual do ponto de vista ecológico e fazem parte, provavelmente, do mesmo pool genético, verificamos a existência de diferenças no uso de ferramentas entre esses grupos, constituindo potenciais tradições comportamentais. E a comparação com grupos mais distantes, apesar da maior diferença ecológica também permite, dentro de certos limites, inferir comportamentos que poderiam ser tradições.
Sabemos por estudos anteriores sobre a ontogenia dos comportamentos de quebra de coco com ferramenta por macacos‐prego que a motivação dos infantes para a observação do comportamento dos manipuladores de ferramentas, associada à extrema tolerância destes à observação e ao consumo “parasita” de endosperma de cocos (scrounging6) cria condições ótimas para a mediação social da aprendizagem do uso de ferramentas (Resende, Ottoni, & Fragaszy, 2008). E, como mostrado pela pesquisa de Ottoni et al. (2005), pode haver um viés para observação de indivíduos mais proficientes no uso das ferramentas, o que geraria mais recompensas (restos de alimento) e oportunidades de aprendizagem social.
Apesar de não ser possível, nestas condições de observação em campo, o estudo direto da aprendizagem social na disseminação do uso de ferramentas, foi realizado um acompanhamento do desenvolvimento destas técnicas pelos indivíduos jovens através do monitoramento de situações de observação interindividual durante o uso de
6 Na falta de um termo melhor em português manteremos o termo scrounging para definir o
comportamento de pegar, oportunisticamente, restos de alimento adquiridos ou processados por coespecífico.
ferramentas e scrounging dos sítios utilizados. Esta análise fornece indicações sobre o grau de mediação social envolvido na aprendizagem destes comportamentos. Alguns dos outros fatores indicados no modelo de Fragaszy e Perry (2003) para determinar tradições ‐ a duração do comportamento estudado e sua disseminação no grupo ‐ também foram avaliados nesse estudo, ainda que de forma limitada (dada a duração do estudo e as outras limitações inerentes à pesquisa de campo), e utilizados em conjunto com os dados de oportunidade de mediação social na aprendizagem do uso de ferramentas para tentar identificar possíveis tradições comportamentais.
O fato de não existirem estudos comparativos sobre uso de ferramentas em grupos não‐simpátricos de uma mesma população selvagem de macacos‐prego motivou o interesse nesse estudo. Além disso, o estudo de Mannu e Ottoni (2009) com os grupos diferentes do mesmo parque mostrou que existia uma grande diversificação no “kit de ferramentas” dos macacos, sendo, até agora, maior do que qualquer outro já observado para populações desta espécie e, portanto, foi de grande interesse verificar se este padrão se repetia em outros grupos da mesma população. Esse “kit de ferramentas” único poderia ser uma consequência de uma maior capacidade de inovação dos indivíduos da área, mas essa, apesar de não examinada, aparentemente não parece ser diferente dos S. libidinosus de outras localidades. Mas essa capacidade de inovação, em conjunto com os fatores como a grande quantidade de material bruto adequado (no caso das pedras), o tamanho grande dos grupos ‐ que permitiria mais chances de ocorrência de inovações e uma difusão mais rápida da tradição ‐ e vegetação mais baixa e aberta, que proporcionaria mais oportunidades para a observação dos indivíduos tolerantes e mais experientes na utilização de ferramentas, permitiriam que essa grande variedade de comportamentos se disseminassem no grupo. Com isso, as inovações que permitiram a exploração mais eficiente de recursos de difícil acesso, poderiam ter se disseminado
mais facilmente nesses grupos e se mantido por várias gerações. Com as migrações de indivíduos entre os grupos, essas tradições também se difundiriam para os grupos vizinhos. Isso trás a questão de porque essas tradições estão restritas a essa localidade. Uma possibilidade é que elas surgiram após o isolamento dessa população e inda não tiveram tempo de disseminar para outras populações. Outra explicação seria que essas tradições seriam mais efêmeras do que imaginamos e se extinguem antes de se espalharem, como nas convenções sociais dos C. capucinus.
Os objetivos específicos do estudo podem ser divididos em:
1. Descrever o “kit de ferramentas” dos grupos estudados, identificando e registrando a frequência de uso das ferramentas dentre seus usuários, com o objetivo de comparar entre os grupos e identificar diferenças e semelhanças entre os grupos;
2. Descrever fisicamente as ferramentas utilizadas (tamanho, peso e formato), para determinar se há diferenças entre as ferramentas usadas para diferentes tarefas e se a “escolha” ou mudança das ferramentas é feita de forma ativa (i.e., com base nas características das ferramentas e não ao acaso).
3. Determinar se a disponibilidade alimentar (flores/frutos/sementes e invertebrados) e outros fatores ambientais (temperatura, umidade e pluviosidade) poderiam modificar os padrões e a frequência do uso de ferramentas;
4. Examinar as oportunidades para influências sociais na aprendizagem do uso de ferramentas, incluindo o scrounging, para verificar, ou ao menos inferir, se
a aprendizagem social poderia estar ocorrendo durante o desenvolvimento e manutenção desse comportamento nos grupos;
5. Identificar as potenciais tradições comportamentais pela comparação dos grupos estudados com outros grupos/populações, simpátricos ou não (método comparativo) e também tentar identificar, dentro do grupo, os comportamentos tradicionais pelo método de Fragaszy e Perry.