3.4 Validitet og reliabilitet
4.1.1 Analyse av rapportene
Os cânones da ciência moderna erigiram-se sobre uma cosmovisão androcêntrica, que objetivava a dominação do homem sobre a natureza (BOFF, 2000, p.98). Com a confirmação do patriarcalismo e sua extensão ao domínio do conhecimento, a mulher associada à natureza teve um papel relegado à insignificância e que, portanto, explicaria sua ausência da historiografia como sujeito da história.
Esse aspecto veio à discussão na década de 1940, quando a historiadora norte- americana Mary Bead abordou a questão da marginalização da mulher, atribuindo as escassas referências “ao fato de a grande maioria dos historiadores, sendo homens, ignorá-la sistematicamente” (SOIHET, 1997, p.61).
Entretanto, esta situação veio mudar, a partir do advento do movimento feminista, na década de 1960, os questionamentos a respeito da condição social da mulher. Foi a partir de então, que se começou a pensar sobre os papéis exercidos pelos sexos com a noção de historicidade, e se hoje é corrente o pensamento de que “a masculinidade e a feminilidade são
'constituídas‟ socialmente” isto se deve ao feminismo (BURKE, 2002, p. 75).
A partir dos anos de 1970, os historiadores esquivaram-se de uma perspectiva restrita que percebia a situação feminina de vitimada, passando a descobrir os processos históricos em que as mulheres assumiram também o papel de protagonista, através de revoltas (PERROT, 1992; SOIHET, 1997, p. 63). Esse caminho encontra um enfoque que supera a bipolarização entre a vitimização e a "heroicização" da mulher, procurando entender toda a atuação histórica em sua complexidade:
O crescimento da produção historiográfica permite apontar que não se trata apenas de incorporar as mulheres no interior de uma narrativa pronta, quer mostrando que as mulheres lutaram tanto quanto os homens na história, quer destacando as diferenças de uma 'cultura feminina', perdendo-se, assim, a multiplicidade do ser feminino, podendo-se cair numa mera perspectiva essencialista (MATOS, 1997, p. 94).
Daí provém a utilização da categoria de gênero na década de1980, possibilitando que esse campo conquistasse seu próprio espaço, por ser um termo neutro,distante das imediatices ideológicas (SCOTT, 1992, p. 64-65). O referencial significou a ampliação dos interesses dos historiadores das mulheres que passaram a “incluir as relações entre os gêneros em geral e a
construção histórica, tanto da masculinidade quanto da feminilidade” (BURKE, 1992, p.36).
O conceito de gênero parte do princípio relacional entre o feminino e masculino, à medida que se afasta do determinismo biológico baseado na distinção dos sexos. Compreende homem e mulher dentro de um contexto histórico-social de mútua dependência, em que um,
não pode ser entendido sem o outro, sem esquecer que tudo se realiza numa relação de dominação.
Quanto a essa discussão, Del Priore (2003, p.234) realiza uma ponderação a partir da realidade da produção historiográfica sobre a mulher. No Brasil, há uma especificidade diferente das realidades de outros centros. A história das mulheres abriga um leque amplo de estudos que inclui as mulheres e um "vasto território no qual elas se movimentam”. Abarca, portanto, a mulher em suas relações de trabalho, de família, do cotidiano e das representações.
Outra particularidade, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos e Europa, é que essa história também vem sendo praticada por pesquisadores do sexo masculino.
Chartier trouxe uma contribuição concernente à problemática. Ele lembra que a dominação sobre a mulher é uma violência simbólica, sempre afirmada como diferença natural e universal.
Duradouramente, a construção da identidade feminina enraíza-se na interiorização, pelas mulheres, de normas enunciadas pelos discursos masculinos. Um objeto maior da história das mulheres é, pois, o estudo dos dispositivos, desenvolvido sob múltiplos registros, que garantem (ou devem garantir) que as mulheres consintam nas representações dominantes da diferença entre os sexos: a inferioridade jurídica, a inculcação escolar dos papéis sexuais, a divisão de tarefas e dos espaços, a exclusão da esfera pública, etc. [...] as representações da inferioridade feminina, incansavelmente repetidas e mostradas, inscrevem-se nos pensamentos e nos corpos de ambos, delas e deles (CHATIER, 2002, p. 95).
Uma compreensão que elucide os mecanismos de dominação simbólica a permear as diferenças entre os sexos, torna-se possível quando se desvenda os dispositivos responsáveis pela aceitação dos padrões da hegemonia masculina pelas mulheres. Os sujeitos envolvidos na relação apenas têm que se adequar e resignar, independente de sua posição. Apenas o consentimento do conformismo caberia à mulher, pois a ela foi imposto o papel de subordinação.
Todavia, aceitar a dominação é uma prática de resistir-lhe, insurgir contra as suas formas mais insidiosas. Como afirmava Certeau, em relação aos indígenas da América espanhola, durante o processo de colonização, havia uma capacidade para as
[...] inversões discretas e no entanto fundamentais (...) mesmo subjugados, ou até consentindo, muitas vezes esses indígenas usavam as leis, as práticas ou as representações que lhes eram impostas pela força ou pela sedução, para outros fins que não os dos conquistadores. Faziam com elas outras coisas: subvertiam-nas a partir de dentro – não rejeitando-as ou transformando-as (isto acontecia também) mas por cem maneiras de empregá-las a serviço de regras, costumes ou convicções estranhas à colonização da qual não podiam fugir. Eles metaforizavam a ordem dominante: faziam-na funcionar em outro registro (CERTEAU, 2002, p. 94-95).
É desta maneira que as mulheres no cotidiano atuam, transformando os códigos que lhes são impostos, fazendo-os funcionar em outros registros, diferentes da finalidade pela qual foram criados. Assim, através de táticas, as mulheres mobilizam, para seus próprios fins, uma ordem imposta desviada contra aqueles que a produziu. A tática, conforme Certeau
Não tem por lugar senão o do outro. E por isso deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha. Não tem meios para se manter em si mesma, à distância, numa posição recuada, de previsão e de convocação própria: a tática é movimento 'dentro do campo de visão do inimigo', como dizia von Büllow, e no espaço por ele encontrado. (...) Tem que utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário (CERTEAU, 2002, p. 100-101).
As personagens femininas de Lima Barreto, em suas relações com os homens, aceitam as normas, mas sub-repticiamente resistem-lhes, sublevam-nas contra a vontade dos que estão na posição da estratégia e as utilizam em função dos seus interesses. São mulheres que
aparentemente estão subjugadas no interior “do campo de visão do inimigo”, mas que mesmo
na situação de desvantagem esperam uma conjuntura favorável, aproveitam as falhas do
“poder proprietário” e jogam seus lances oportunos.
Apesar de reconhecer o alcance universal que caracteriza o conceito, pois fundado na perspectiva do racionalismo,13 na tentativa de conjugar uma miríade de ocorrências empíricas em termos de leis e teorias, direciono a análise para perscrutar a particularidade do estudo na configuração de época específica, assinalada na trajetória curta de um autor, registarada em sua obra. No próximo capítulo, encontra-se uma discussão em torno das concepções de ciência e realidade em Lima Barreto, com o escopo desvendar as suas preocupações a respeito dos limites do conhecimento científico, da função da filosofia e do mistério da vida.
13 Os filósofos da teoria crítica, ao realizarem estudos sobre o esclararecimento, denotam que ele “só reconhece
como ser e acontecer o que se deixa captar pela unidade. Seu ideal é o sistema do qual se pode deduzir toda e cada coisa.” Desse modo, tanto o racionalismo quanto o empirismo refutam as pesquisas que não se vinculam à descontinuidade (ADORNO; HORKEHEIM, 2006, p.20).