5. Resultater og analyse av empiri
5.4 Analyse av intervju
"Que r el igi ão será est a, que cons i st e em cavar a t er ra e cort ar l enha?”
(Carta de São Bernardo ao monge Roberto)
Não só a vida religiosa, mas especialmente o estilo de vida singular dos monges cistercienses de Alcobaça dos primeiros séculos de história daquela abadia, os fizeram criadores de um capítulo especial na história de Portugal. Por isso mesmo, os historiadores, em geral, reconhecem que "em nenhum outro país da Europa a ordem de Cister exerceu uma
influência tão profunda e tão duradoura.”49
Neste tópico, iremos tratar do estilo de vida dos monges de Alcobaça, no período em consideração, procurando mostrar que eles, inspirando-se no programa que São Bento legou àqueles que buscavam viver a perfeição evangélica, sintetizada no lema ora et labora, e tentando revivê-lo, a
49
par da observância da rígida disciplina monástica, sob os aspectos religioso e material, contribuíram efetivamente para a edificação da sociedade portuguesa de seu tempo.
Destacamos, em primeiro lugar, que a vida comunitária era intensa e levada ao ex tremo. A propósito, Maur Cocheril ressalta que "o monge nunca estava só. No dormitório, dormia sobre um enx ergão, separado dos seus vizinhos por uma divisória de pouca altura. Quando não estava na horta ou nos campos, trabalhava em silêncio."50
Para os monges de Alcobaça, o silêncio tinha um valor singular. Eram, portanto, rigorosos no uso da palavra sonora, a ponto de codificar em sinais as expressões mais utilizadas na comunidade, a ex emplo,
por si gnal de vi rgen, fe ct o o s i gnal do S anct o, f aze o s i gnal de femea que he t r azer o de do demos t rador pel l a t e st a de sobrancel ha a sobr ance lha; por si gna l de pam, f aze si gnal com anbol os dedos pol egar es e com anbol os de most r ador es.51
Ao monge de Alcobaça só era permitido falar sem restrição com o abade ou, na ausência deste, com o prior. P ortanto, o trabalho cotidiano era realizado num silêncio absoluto e somente no Parlatório é que os monges podiam conversar entre si.
50
CO CH E RI L , M . A l c o b a ç a a ba d i a c i s te r c i e n se de P o r t ug a l . p . 2 2 .
51
O objetivo dessa vida silenciosa, como nos esclarece Mário Martins, era
poder conc ent r ar -s e mai s em Deus, que f al a em si l ênci o. Par a i ss o, empr egavam uma l i nguagem por si nai s codi fi cados que f ormam um t r at adi nho à part e, chei o de pi t or esco. Ao l ê-l o, podemos t er a i l us ão de que es sa l i nguagem nos di s t rai r i a mai s do que a pal avr a s onora . Por ém, devemos l embr ar-nos de que os monges es t avam j á acost umados a el a e não a achavam pi t ores ca.52
O mosteiro possuía autonomia administrativa local, mas
simultaneamente era uma casa vinculada à ordem de Cister. Em relação aos aspectos administrativos da ordem, ressaltamos que "o Capitulo Geral era fempre em Cister, & fe celebrava todos os annos; pelo menos temos noticia,
que fe celebrou fem interpolação até o anno de 1380.”53
Isso nos leva a crer que, até a data mencionada, os mosteiros cistercienses, inclusive os de Portugal, estavam ligados entre si por uma organização administrativa e, portanto, o relaxamento dos costumes e a indisciplina, tanto da parte dos monges quanto dos abades, estavam sob um rígido controle e que os infratores deviam ser rigorosamente punidos.
É isso, aliás, o que estipulava a Carta da Caridade, a Regra cisterciense
52 M ART I N S , M . D a V i d a e da M o r t e d o s M o n g e s d e A l c o b a ç a . p . 5 . 53 SAN T O S, M . d o s . A l c o b a ç a I l u st r a d a . p . 2 3 .
os monges f ogei tos ao f eu Abbade; ef t e ao Abbade P ; e t odos ao Capi t ul o Ger al , que f eri a o fupre mo Pr el ado, & o ul t i mo t ri bunal da Orde as vi zi t as dos mof t eyros qui zer ão que fof fem dos Abba des Pa dr es, os quaes vi zi t ar i ão as cazas da fua f i l haçã o t odos os annos compode r, & aut hor i dade de i nqui r i r, cas t i gar & r efor mar a ff i m na cabeça, como nos f ubdi t os, aonde vi f fem f er necef f ari o.54
O abade, além de constituir-se em autoridade máx ima do mosteiro, era também vitalício, todavia, se o abade não observasse as prescrições da Regra de São Bento, poderia ser destituído do cargo:
Se al guu abbade f or achado de spreza dor da Sant a Regl a ou t r espasa dor del l a ou cons i nt i dor nos pe cados de seus f r ades, o abbade da egr ej a madr e per sy ou per sey pr i or ou como mel hor poder ho amoe st e at aa quat ro vezes que se emmende; e se as y s e non qui ser corr eger nem l eyxar de sua võot ade a a badi a, ent om aj unt e al guu cont o dabbades de nossa congr egaçom e r emova o e t i r e de seu of fi ci o assy como t r aspass ador da S ant a Regl a. E depoys enl eya out ro que s ej a di no com consel ho e võot ade do mayor abade e dos monges daquel a egrej a e com os abbades del l a, s e os t ever , ensembr a s egundo acyma di ct o he .55
Fazia igualmente parte da vida monástica consagrar algumas horas do dia à oração: "sete vezes por dia, a horas determinadas, entravam em fila na Igreja para orar. Reuniam-se no coro sentados frente a frente, por ordem de idade."56
54 SAN T O S, M . d o s . A l c o b a ç a I l u st r a d a . p . 1 8 . 55 B I B LI O T E CA N ACI O N AL , L i sb o a , Có d Al c . CCCX X V I / 7 3 . fl . 1 0 5 . 56 FE RRE IR A, M . A. L . P . d a T . M o st e i r o d e Sa n t a M a r i a de A l c o b a ç a . p . 3 8 .
É ex atamente essa intensa vida de oração que impõe aos monges cistercienses de Alcobaça um rigor quanto à questão de horário, pois
a huma or a e mei a depoi s da mei a noi t e t ocam as mat r acas a esper t ar ; e dando as duas or as ent ram os monges a mat i nas; se m have r j amai s dia , ou sol ene ou fer i ado, de veram, nem de i nver no em que se r el axe o r i gor dess a ora.57
Podemos concluir que a oração era de suma importância na vida do monge de Alcobaça, o que, no entanto, não o ex cluía do dever do trabalho. P or isso, os monges salmodiavam, mesmo nas granjas longínquas:
e ss e l avrar em f ora dos t er mos do moes t ei ro, e nom ouve rem de ví í r ao moes te i ro aas hor as , rezem hi as or as, e depoi s t or nem a ss eu l avor . E acabado o l avor façam guar dar ess as fer r ament as, al y honde as s ooem de t omar pe ra o l avor, ou as dem ao pri or , t i radas as t es oyr as e os sac hos, e as f or cas e os for cados e os anci nhos e as f ouci nhas as quaes per t odo t empo da t os qui a dos gaa dos e da sacha e do pam, e out ros sy da s ega das messes , cada huum deve de guar dar j unt o com o s seu l eyt o.58
Conquanto a função "natural" dos monges fosse a oração por si próprios e pelos outros membros da sociedade, indiferentemente, bellatores ou
laboratores ou ainda os demais oratores, vimos que os cistercienses, desde
que surgiram como ordem, assumiram a faina agrícola como uma característica de sua maneira de viver. Com efeito,
por t oda par t e, desde meados do séc ul o XII, da Gr ã-Br et anha à Pol ôni a, da S ué ci a à It ál i a, a Eur opa r ecebeu os monges que, no per íodo áureo da sua expansão, l evar am consi go duas not ávei s cont ri bui çõe s par a a hi s tór i a da humani dade e das s uas vi tór i as: o gót i co i nci pi ent e dos s eus mos t ei ros, e as novas concepç ões agr onômi cas que f ar i am das suas gr anj as aut ênt i cas es col as prát i cas de agr i cul t ur a.59
O trabalho agrícola dos monges era realizado nas granjas. Estas eram unidades agrícolas autônomas, exploradas diretamente pelos religiosos, e sob a administração centralizada, exercida pelo abade do mosteiro. Tais unidades de produção
compr eendi am uma super fí ci e consi derá vel , em ger al de duzent os a t r ezent os hect ar es, que, em vez de s er di vi di da em dependênci as, er a expl or ada s ob a vi gi l ânci a dum monge ( gr angi ari us ) , pel os convers os ou mesmo por f or ast ei r os empregados como operár i os agr í col as.60
Quando nos deparamos com esta assertiva de Pirenne, renomado estudioso da História Econômica, inclusive do medievo, nos veio à mente uma indagação: os monges de Alcobaça, àquela época, avançaram nas relações de trabalho entre si, dignificando-o, ou, por outro lado, simplesmente
57 SAN T O S, M . d o s . D e sc r i ç ã o do R e a l M o s te i r o d e A l c o b a ç a . p . 8 0 . 58 B I B LI O T E CA N ACI O N AL , L i sb o a . Có d . Al c . CX L II I / 2 7 8 . fl . 5 6 . 59 GU S M ÃO , A. N . d e . A Re a l A b a d i a d e A l c o ba ç a . p . 4 0 . 60 HE N RI , P . H i s t ó r i a E c o n ô mi c a e So c i a l d a I d a de M é d i a . p . 7 4 .
implantaram, no âmbito da ordem, uma "divisão de classes"? Ademais, compulsando as fontes e a bibliografia sobre a vida monástica cisterciense, e em particular na mencionada abadia, nos deparamos com o fato de que, nos mosteiros da ordem havia dois tipos de religiosos: os monges do coro e os irmãos conversos, os fratres conversi.
Ora, os monges do coro, por ex emplo, que vestiam um hábito específico, durante as celebrações litúrgicas e a recitação do Ofício Divino ocupavam o topo da nave eclesial. Habitavam numa ala própria, onde estavam localizadas a sala do Capítulo, o dormitório, o parlatório, o refeitório, a biblioteca e a sala de trabalhos. Os conversos, por sua vez, além de no templo ficarem no centro dele, no mosteiro ocupavam uma ala específica, destinada aos mesmos, em que havia apenas o dormitório e o refeitório comuns.
A comunidade monástica de Alcobaça era constituída, portanto, por religiosos de votos perpétuos (monges do coro), os irmãos conversos, que não tinham votos perpétuos, e os noviços, que estavam em processo de
formação, sendo que todos deviam obediência ao abade.61
Ainda sobre a participação dos monges conversos no processo de trabalho, José Mattoso destacou que "uma das características dominantes dos monges brancos é o facto de terem concedido nas suas comunidades um lugar
61
Ab a d e : d o a r a ma i c o Ab b a ( p a i ) ; l a t i ni z a d a e m a b b a s, a b b a t i s, s i gni fi c a p a i e s p i r i t ua l , p o r t a nt o , a b a d e s s ã o o s se r vo s d e D e us c o ns i d e r a d o s c o mo p a r t i c i p a nt e s p ri vi l e gi a d o s d a p a t e rni d a d e d i v i na , e sp e c i a l me nt e p e l o s d o ns e c a r i s ma s. S ã o B e n t o fe z d e c a d a mo st e i r o uma c o muni d a d e a u t ô no ma a t r a vé s d o vo t o d e e s t a b i l i d a d e d o s mo nge s, d e u a o r e s p e c t i vo sup e r i o r o no me d e a b a d e . N ã o o b s t a nt e o a mp l o p o d e r q ue l he e r a c o nc e d i d o , d e vi a t r a t a r a t o d o s c o mo ve r d a d e i r o p a i . O a b a d e e r a vi t a l í c i o e e l e i t o p e l o r e l i gi o s o s d a p r ó p ri a c o muni d a d e .
da maior importância aos irmãos conversos, que não sabiam latim e estavam encarregados dos trabalhos manuais."62
Do que foi exposto, ficam evidentes diversos pontos que diferenciam o monge do coro do converso, inclusive a formação. A esse respeito, André Vauchez esclarece que
a mai ori a dos monges de coro er a or i gi nári a de f amí l i as nobr es: com ef ei t o, em numerosos most ei r os , as cr i anças ofer eci das pel os seus pai s – os obl at os – s ó e ram acei t os se poss uí s sem um dot e, al ém di s so, par a saber em l er l at i m, pr eci savam de te r e st udado, o que nest a época só er a pos sí vel – com al gumas i l us t re s excepções no mei o senhori al .63
Exatamente em função dessa diferença de formação, a distribuição de tarefas em Alcobaça visava a atender a essa realidade, ou seja, havia, além do trabalho no campo, importantes atividades desenvolvidas no próprio mosteiro, dentre elas destaca-se a ação dos copistas, que se ocupavam em traduzir e copiar os famosos códices alcobacenses.
Sobre o trabalho desenvolvido pelos monges na biblioteca do mosteiro, é oportuna a observação de Mário Martins, que nos lembra que “não era copista um monge qualquer e muito menos tradutor. Às vezes, chegavam a pôr à margem observações de ordem teológica, como na versão da vita
christi.”64
62 M AT T O S O , J . Cl un y , C r ú z i o s e C i st e r c i e n s e s n a F o r ma ç ã o de P o r t ug a l . p . 1 2 0 . 63 VAU C HE Z, A. A Esp i r i t ua l i da d e d a Id a d e M é d i a O c i de n ta l : sé c . V I II - X I I I. p . 4 1 . 64 M ART I N S , M . D a V i d a e da M o r t e d o s M o n g e s d e A l c o b a ç a . p . 1 2 .
Indiferentemente, a disciplina monástica, inclusive o regime alimentar, era comum para toda comunidade
que os mõges, ou conver fos, que f em nec efs i dade comer em ca rne por cada huma vez, que j ej uem t res di as apão, & a goa, com dif ci pl i na em capi t ul o os mef mos t r es di as; ma s os abbade s que t ambem os come rem, que fej ão obr igados a fo os j ej uns.65
Na verdade, os monges de Alcobaça, lavrando o campo com as próprias mãos, propriis manibus, deram à faina agrícola um novo sentido social, pois tal gesto possuía tanto um valor econômico, o de sustentar a comunidade em que estavam inseridos, como um valor simbólico e religioso, uma vez que ofereciam a dureza do seu trabalho, herança de todos os filhos de Adão, como um sacrifício de louvor a Deus, de modo que o labor e a oração assumiam uma dimensão única e inseparável.
Manuel Vieira Natividade, a propósito, esclarece que: "com o século XIV, chegou a ância de trabalho, e eram os monges, pessoalmente, os trabalhadores. Dispersos pelas Granjas e quintas dos Coutos, aí se entregavam às durezas de todo trabalho agrícola, acompanhados dos noviços."66
Igualmente o cronista do mosteiro de Alcobaça ressalta que os monges trabalhavam a terra:
65
SAN T O S, M . d o s . A l c o b a ç a I l u st r a d a . p . 4 6 .
66
he i gual ment e cer t o que não só os monges di st r i buí dos pel as gr anj as do most ei r o, mas t ambém os ser vi ça es, que os aj udavão em s eus t r aba lhos, acudi ão nos Domi ngos e di as S anc tos à Igr ej a do Most ei r o em s at i sf ação do Pr ecei t o Ecl esi ás ti c o, e que da mesma Igr ej a l hes er ão l evados os Sa crament os , se por ve nt ur a al gum cas o repent i no os i mpedi a de ser em conduzi dos para o mos t ei ro.67
Do que foi exposto, fica evidente que os monges, com votos perpétuos ou não, não só dignificaram o trabalho, pelo seu próprio exemplo, mas também mantiveram com os camponeses, colonos e agregados que trabalhavam em suas terras um tipo de relação de trabalho diferente do que, até então, era praticado pelos nobres e reis. Para além disso, não deixaram de lhes prestar assistência material e espiritual: "elles provião os Lavradores de instrumentos e utensilios necessarios, adiantando sementes, administrando- lhes gratuitamente os sacramentos, e acudindo-lhes com tudo o que era preciso em suas enfermidades."68
Com certeza, se estas não tivessem sido a mentalidade e prática vigentes em Alcobaça, no tocante à importância da pessoa do colono, que "tinha ali a sua disposição todo material para a agricultura, e as próprias sementes em anos de escassas colheitas"69, essa abadia não teria rapidamente acumulado um patrimônio tão rico e próspero e se tornado famosa.
67 S ÃO B O AV E NT U RA, F . d e . H i s t ó r i a C l r o n o l o g i c a e C r í t i c a d a R e a l A b a d i a de A l c a ba ç a . p . 3 6 . 68 S ÃO B O AV E NT U RA, F . d e . H i s t ó r i a C l r o n o l o g i c a e C r í t i c a d a R e a l A b a d i a de A l c a ba ç a . p . 3 7 . 69 NAT I V ID AD E , M . V . M o s te i r o e C o u t o s d e A l c o b a ç a . p . 3 6 .
Concluindo este assunto, o renomado medievalista português, José Mattoso, afirma ainda que
é por i nt ermédi o de Ci st er que os membr os das cl as ses i nf er i ores acedem, pel a pri mei ra ve z, a um t i po de espi r i t ual i dade pess oal , que cont ras t a c om a r el i gi osi dade mí t ic a pr at i cada des de t empos i memor i ai s. É por i nt ermédio de ações des se género que o campesi nat o vai emer gi ndo dos es quemas e val or es i mpost os pel o gr upo, e cami nham par a a aqui si ção da consci ênci a de s i mesmos .70
Voltando, pois, ao tema que tratávamos antes, a saber, o trabalho agrícola desenvolvido nas granjas, ressaltamos que o seu período áureo de florescimento ocorreu "na segunda metade do século XIII e princípio do seguinte", e que "elas pontuavam a extensão dos coutos - com particular insistência na área cincunvizinha do mosteiro."71
Iria Gonçalves também nos oferece uma visão a respeito das potencialidades agrícolas do domínio alcobacense, dizendo que
i ncl uía em s i t odas as poss ibi l i dades econômi cas que a Idade M édi a conheci a . T odas as cul t uras que a nos sa t err a ent ão compor t ava s e cas avam umas com as out r as, i nt erpenet ra ndo, mas guar dando uma ordem be m vi sí vel na di st r i bui ção.72
70 M AT T O S O , J . Cl un y , C r ú z i o s e C i st e r c i e n s e s n a F o r ma ç ã o de P o r t ug a l . p . 2 9 8 . 71 GO N Ç AL V E S , I . O P a t r i mó n i o d o M o s te i r o d e A l c o b a ç a . p . 1 3 7 . 72 GO N Ç AL V E S , I . O P a t r i mó n i o d o M o s te i r o d e A l c o b a ç a . p . 1 3 0 .
Dentre as culturas desenvolvidas na região da Estremadura e que, direta ou indiretamente, receberam a ação dos monges de Alcobaça, merece uma referência especial a produção de enorme variedade de frutas, nomeadamente, figo, ameix a, maçã e pêra. Os pomares normalmente eram um prolongamento das granjas.
Em síntese, a oração, a disciplina rigorosa, o silêncio e o trabalho manual, especialmente o agrícola, foram o caminho que os monges de Alcobaça escolheram para tentar reviver as prescrições da Regra de São Bento, bem como as determinações da Carta de Caridade, comportamento que igualmente se constituiu em modelo de edificação para os fiéis que viviam na região da Estremadura bem como em fator de progresso tanto para a mesma, como para a sua pátria, como teremos ocasião de verificar no próx imo Capítulo.
Ainda hoje, ao final do século XX, os problemas relacionados com a agricultura, por ex emplo, a superação dos obstáculos oferecidos pela natureza, a melhora qualitativa da produção, a concentração fundiária nas mãos de um número reduzido de pessoas, ainda se revestem dum significado e duma importância crucial para o ser humano, pois mesmo considerando o grande avanço tecnológico contemporâneo no que concerne ao fabrico de máquinas bastante sofisticadas, a par do desenvolvimento e do progresso científico no âmbito da agronomia, disponível em muitas sociedades do planeta, é da terra que ele tira o seu sustento.
Tanto ou mais relevantes foram esses problemas relacionados à agricultura nas sociedades do passado, em que a existência e a sobrevivência do homem estava diretamente ligada às condições da natureza e à superação dos obstáculos que ela oferecia, pois o avanço tecnológico era rudimentar. Tal foi o caso da sociedade medieval portuguesa, inclusive no período histórico que elegemos como recorte cronológico para esta pesquisa e posterior
dissertação de mestrado, vinculadas ao governo de D. Dinis (1279-1325) que tinha como ponto fulcral a ativa participação e colaboração dos monges alcobacenses, tendo em vista que “tão intimamente se encontra ligada, nos
primeiros séculos, a história geral do país que não é possível apartá-la.”1
O mosteiro de Alcobaça, mesmo antes do período governamental de D. Dinis, conforme demostramos no capítulo anterior, era uma abadia famosa, que se destacava no cenário português não só pela religiosidade e cultura de seus monges mas também pela dedicação com que os mesmos se empenhavam em conhecer, estudar e aplicar o saber colhido nos alfarrábios de sua preciosa biblioteca às fainas agrícolas, com vista ao aperfeiçoamento das técnicas e ao aumento da produção. Por isso, os Cistercienses chamavam a atenção da sociedade de seu tempo e de seus dirigentes, fato esse que consideramos interferente sobre ambos, quer ao nível das mentalidades, por causa do modus vivendi próprio, isto é, ao ver o trabalho agrícola, seja como forma ascética de aperfeiçoamento espiritual seja pela importância que lhe deram enquanto era uma maneira segura de ter a subsistência permanentemente assegurada, quer ao nível econômico, face aos resultados que estavam a obter.
Ademais, é oportuno reiterar que a alta nobreza e o clero regular ou secular mantinham estreitas relações sociais, para além do que reciprocamente se ofereciam, consoante o papel funcional ex ercido por cada um destes segmentos, uma vez que muitos filhos da primeira abraçavam a carreira eclesiástica. Outrossim, dado que o clero, em geral, se notabilizava
1
pela vasta cultura que possuía, muitos de seus membros também eram convidados a tomar parte do conselho privado dos reis, quando não ex erciam