Foi o principal companheiro de João Vicente nas tarefas fundacionais. São pouco seguros os dados relativos aos seus antecedentes familiares. Jorge de S. Paulo refere que Martim Lourenço nasceu em Lisboa, na freguesia de S. Tomé, e aí residia até ingressar na congregação. O cronista não indica o nome dos pais mas estabelece o parentesco de
70 Ibidem, pp. 81-82.
71 Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 87.
72 Veja-se a bibliografia geral sobre o tema já citada anteriormente: José Mattoso, “Eremitas portugueses
no século XII”, pp. 62-86; idem, “Eremiti Paolini Portoghesi” in Dizionario degli istituti di perfezione, vol. 3, Roma, 1976, col. 1195-1199; Maria Ângela da Rocha Beirante, “Eremitérios da pobre vida no Alentejo dos séculos XIV-XV”, pp. 257-266; idem, “Eremitismo”, in Dicionário de História Religiosa de Portugal, dir. Carlos Moreira Azevedo, vol. 2, pp. 149-154; e os trabalhos mais recentes de João Luís Fontes, nomeadamente, “A pobre vida no feminino: o caso das Galvoas de Évora”, pp. 157-178; idem, “Cavaleiros de Cristo, monges, frades e eremitas: um percurso pelas formas de vida religiosa em Évora durante a Idade Média (sécs. XII a XV)”, pp. 39-62; idem, “Percursos de um antigo ermitério medieval: o oratório do Alentejo, no termo de Óbidos”, pp. 233-251; idem “Reclusão, eremitismo e espaço urbano: o exemplo de Lisboa na Idade Média”, pp. 259-277.
73 Segundo o Novo Memorial, foi no oratório ou eremitério de Mendoliva, fundado por Mendo Gomes de
Seabra perto de Setúbal, que João Vicente recebeu a instrução e preparação para o ofício sacerdotal e onde celebrou a primeira missa (cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 88). Sobre Mendo Gomes de Seabra, ver J. Mattoso, “Mendo Gomes de Seabra”, in Dizionario degli istituti di perfezione, vol. 5, Roma, 1978, col., 1212-1213.
Martim Lourenço com Fernão Lourenço da Mina, que seria seu sobrinho74. Segundo as informações da crónica seiscentista de Francisco de Santa Maria, Martim Lourenço era filho de Lourenço Vasques de Arvelos, rico cavaleiro, e de Beatriz da Orta75.
É certo que Martim Lourenço já era sacerdote quando, cerca de 1420, a convite de João Vicente, participou nos encontros iniciais que tiveram lugar na igreja de S. Julião76. Morreu cedo, provavelmente antes de 143777, quando a congregação dava ainda os primeiros passos.
Sendo capelão-mor de D. João I78, culto e letrado, conhecido pelos seus dotes oratórios e por ser “amavel de todos, de benina e agradavel converçasam, homee de doutrina e muito prezada amtre os primcipes”79, a sua fama atraiu as atenções do infante D. Fernando que o nomeou seu esmoler e pregador. Privou com vários clérigos humanistas, ligados à reforma eclesiástica, oriundos de Itália, nomeadamente o abade Gomes Anes de Santa Maria de Florença, D. Estêvão de Aguiar e frei Fernando Falcão80. Algumas referências esparsas a obras adquiridas e trasladadas por Martim Lourenço confirmam a sua familiaridade com o livro e a leitura81. Aproveitando uma estadia em Florença, Martim Lourenço, talvez a pedido do infante D. Fernando, ter-se-ia ocupado na cópia de uma obra de teologia existente na biblioteca da abadia de Santa Maria82.
74 Jorge de S. Paulo, Epilogo e compendio, p. 199.
75 Cfr. Francisco deSanta Maria, O Ceo Aberto na Terra, pp. 611-12. 76 Cfr. Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 88.
77 Para alguns autores, este Martim Lourenço identifica-se com o confessor rigorista da Duquesa de
Borgonha, referenciado numa carta, em 1431 na Flandres (José Adriano Freitas de Carvalho, “A Igreja e as Reformas religiosas em Portugal no século XV. Anseios e limites”, p. 654; Eduardo Nunes, Dom Frey Gomez, p. 360; Sousa Costa refere esta mesma carta e aponta alguns marcos cronológicos visto que o documento não está datado: cfr. António Domingues de Sousa Costa, Bispos de Lamego e de Viseu, p. 220) e com o confessor do infante D. Fernando mencionado numa carta do infante ao abade Gomes em Fevereiro de 1437 com a expressão “meu confessor, a que Deus perdoe”, indicando provavelmente que nesta data já teria falecido, sendo assim justificada a sua ausência no testamento de D. Fernando (João Luís Fontes, Percursos e memória: do Infante D. Fernando ao “Infante Santo”, p. 51, nota 14; ver também Cristina Sobral, “Os Lóios e os livros no século XV”, Românica, 12, 2003, p.173 e António Domingues de Sousa Costa, Bispos de Lamego e de Viseu, p. 219).
78 Cfr. Maria Helena da Cruz Coelho, D. João I, p. 139 e Rita Costa Gomes, A corte dos reis de Portugal,
p. 114.
79 Paulo de Portalegre, Novo Memorial, pp. 86-87.
80 Cfr. António Domingues de Sousa Costa, Bispos de Lamego e de Viseu, pp. 209-211 e Eduardo Nunes,
Dom Frey Gomez, pp. 357-358.
81 Cfr. Eduardo Nunes, Dom Frey Gomez, p. 359.
82 Esta informação é-nos fornecida numa carta do infante D. Fernando ao abade Gomes (ver nota77) que
diz: “façovos saber que a mim prazeria muyto daver trelladada a obra de theolosia que Martim Lourenço meu confessor, a que Deus perdoe, trelladava em Florença, porquanto aqui nesta terra se nom pode aveer comprida”. A carta foi publicada integralmente por António Domingues de Sousa Costa, Bispos de Lamego e de Viseu, pp. 219, nota (359). Paulo de Portalegre refere-se ao mesmo facto e precisa tratar-se
O Novo Memorial insiste nas suas qualidades humanas, capacidade de comunicação e temperamento consensual: “dado ha preguaçção que de nenhua outra [cousa] se curava nẽ dava hordem mas esperava que os outros ha desem”83. Foi certamente na corte que Martim Lourenço conheceu João Vicente, que aí desempenhava, como vimos, as funções de físico régio. Ambos se dedicavam ao cuidado da saúde do rei, um no âmbito espiritual, outro no âmbito corporal, e incluíam-se portanto no grupo de servidores que actuavam mais perto da pessoa do monarca.
A função de capelão do rei, mesmo que eventualmente se tratasse de capelão- mor, não contribuiu para que Martim Lourenço ocupasse um posto mais elevado na hierarquia da Igreja nem tão pouco na corte. Em regra isso não acontecia: ser capelão era um serviço de carácter especializado que conduzia a uma carreira eclesiástica relativamente modesta e pouco ambiciosa84.
Contudo, Martim Lourenço revelava uma grande familiaridade com o ambiente cortesão e seguia com atenção a actividade dos infantes e de outros elementos mais destacados. A viveza crítica de alguns comentários que chegaram até nós contrasta com a actuação discreta e a fama de consensual que lhe eram atribuídas85. Juntamente com João Vicente, terá acompanhado a infanta D. Isabel à Flandres, para o casamento com D. Filipe, o Bom, Duque da Borgonha86.
Em 1468, à data da redacção do Novo Memorial, Martim Lourenço gozava já entre os cónegos do estatuto de fundador ou começador da congregação, considerado como uma das “colunas do nosso estado que permanecerão ata a fim e nos gerarão em o Senhor e em esta vida”87. Paulo de Portalegre sublinhava as suas qualidades de pregador e a sua afabilidade de carácter e, num discurso de natureza claramente hagiográfica, não
de uma obra de S. Tomás de Aquino: “Martĩ Lourenço, se tornou a Florẽça a mãdar escrever hu~a obra de
Santo Tomas que haí achou ẽ hũa livraria” (Novo Memorial, p. 98).
83 Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 87.
84 Cfr. Rita Costa Gomes, A corte dos reis de Portugal, pp. 112-113.
85 Veja-se, por exemplo, a carta de Martim Lourenço dirigida a D. Gomes Anes, abade de Santa Maria de
Florença, não datada, provavelmente de 1426, comentando os desentendimentos ocorridos entre D. Estêvão de Aguiar e de Frei Fernando Falcão e as actuações do rei e do infante D. Henrique (cfr. António Domingues de Sousa Costa, Bispos de Lamego e de Viseu, pp. 210-211).
86 Paulo de Portalegre, Novo Memorial, p. 98. Tal como referimos para João Vicente, também não há
provas documentais, para além do Novo Memorial, que confirmem a participação de Martim Lourenço nesta embaixada; no entanto, o estudo cuidadoso das fontes disponíveis realizado por António Domingues de Sousa Costa não contradiz esta hipótese (cfr. António Domingues de Sousa Costa, Bispos de Lamego e de Viseu, pp. 218-221).
hesitou em colocá-lo entre os bem-aventurados que numa visão mística animavam os irmãos no mundo a ser perseverantes e esforçados na sua vocação88.
Em suma, Martim Lourenço encarnava, se assim se pode dizer, a vertente letrada e erudita dos fundadores iniciais. Sacerdote, latinista, pregador da corte, confessor de D. Fernando e teólogo culto, bem relacionado com clérigos reformistas e humanistas vindos de Itália, imprimiu certamente o seu cunho no percurso inicial da congregação.