4. Resultater og analyse
4.3 Analyse av «Arnar og Mia»
Neste capítulo, a proposta de estudo envolvia, fundamentalmente, a busca de relações entre a constituição das áreas militares em Realengo e os objetivos do Ministério da Guerra ao estabelecê-las. Entretanto, no trajeto da pesquisa, foram percebidas ligações entre os processos de modificação da estrutura local e outros mais gerais, de fortalecimento do caráter profissional do ensino e do serviço militar. Foram reconhecidos, ainda, reflexos da reorganização da estrutura institucional do Exército no período considerado, durante o qual foram criadas repartições no Ministério da Guerra e novas organizações militares em diversas partes do território nacional. Também se registra o desenvolvimento de atividades industriais e a constituição de espaços destinados às novas práticas de formação militar, constituindo um conjunto de ações ligadas, entre outras necessidades, às de domínio dos novos artefatos e materiais de guerra.
Tabela 2 - Instituições de ensino do Exército em Realengo (1859 - 1912).
Escola Geral de Tiro do Campo Grande Escola Prática do Exército na Capital Federal Escola Preparatória e de Tática do Realengo Escola de Artilharia e Engenharia 1859 - 1890 1891 - 1897 1898 - 1905 1905 - 1912
Instituições de ensino do Exército Brasileiro que funcionaram no Realengo antes da transferência da Escola Militar para a localidade. Acrescente-se a Escola de Sargentos, que funcionou precariamente entre os anos de 1893 e 1896).
Para explicar como ocorreu esse processo a nível local, e a preferência pelo Realengo para sua implantação, as seguintes considerações se fazem necessárias. Até meados do século XIX, havia motivos francamente razoáveis para que, no Rio de Janeiro, os quartéis do Exército estivessem distribuídos entre as regiões do centro e do litoral. Entre esses motivos, encontram-se as condições históricas de ocupação e as necessidades de defesa da cidade contra possíveis assaltos marítimos. A partir da década de 1850, observa- se o deslocamento das tropas e a constituição de áreas militares no interior. Esse movimento pode ser relacionado aos fatores enumerados a seguir.
1) A evolução tecnológica dos materiais bélicos, demandando a criação de espaços adequados para o treinamento das tropas no uso desses materiais. No período, a industrialização acelerou transformações importantes no material de emprego militar, atingindo as técnicas de manuseio das diferentes armas e equipamentos no combate. Como reflexo, a formação militar também passou por transformações, que exigiram o estabelecimento de linhas de tiro, campos de instrução e manobras, e outros espaços para a pesquisa e a prática com os novos materiais.
2) A evolução das doutrinas de combate, ainda como consequência do avanço tecnológico e da industrialização, que atingiram também a organização e a tática de emprego das diferentes armas. Igualmente, esse processo demandou a incorporação à instrução militar das práticas de manobras e treinos com tropas, exigindo a constituição de espaços próprios para realização desses exercícios.
3) A necessidade de prover melhores condições para defesa das reservas de material bélico contra agressões externas, como fica exposto no caso da transferência do arsenal de guerra para o interior da cidade.
4) O crescimento da população das freguesias urbanas da cidade e a valorização imobiliária das regiões centro e sul. Nesse contexto, a transferência de tropas militares para a região do Realengo, embora tenha atendido à necessidade de sediar os efetivos em espaços adequados para manobras, marchas, exercícios de tiro e outras atividades, mostrou-se também adequada para atender a objetivos e projetos político-administrativos, que incluíram a remoção dos quartéis das regiões comercialmente valorizadas do centro e do litoral da cidade.
Ao final do século XIX o Rio de Janeiro havia experimentado um rápido crescimento, com um aumento da população de 137.078 habitantes em 1838 para 232.291 em 1870, elevado para 522.651 em 1890. Este crescimento esgotou a capacidade do centro da cidade, e a população passou a ocupar os espaços ao longo da rede ferroviária, que em 1895 era formada pela Estrada de Ferro do Rio d’Ouro e pela Estrada de Ferro Central do Brasil. Ao longo da primeira, a densidade populacional mostrava-se mais acentuada: sua área, mais urbanizada, contava com 15 estações a partir de Benfica, circundando a baía da Guanabara até atingir a região de Cava. Por sua vez, a Central do Brasil, em seu ramal projetado em direção ao oeste da cidade, possuía após Cascadura apenas três estações (Sapopemba, atual Marechal Deodoro, foi inaugurada em 8 de novembro de 1858, e em 2
de dezembro do mesmo ano foram inauguradas as estações de Realengo e Campo Grande). Assim, os grandes vazios representados pelos campos realengos e a malha ferroviária, apontada como fator de facilitação para a mobilidade de tropas e materiais bélicos, exerceram um papel de atração fundamental na localização dos quartéis do Realengo e da Fábrica de Cartuchos.
Figura 5 - Mapa da cidade do Rio de Janeiro, 1895.
O mapa destaca o trajeto das estradas de ferro Central do Brasil e Rio d’Ouro ao longo da Cidade do Rio de Janeiro (1895).
Ao nível de funcionalidade e organização interna eram grandes as limitações dos antigos quartéis do Centro, tanto em relação a sua capacidade para alojar pessoal e armazenar o material bélico, quanto à disponibilidade de áreas para realização de exercícios, manobras de combate e práticas de tiro. A instalação de uma localidade militar em Realengo e suas adjacências, a partir de meados do século XIX, esteve relacionada à tentativa de mudança desse quadro, e sua influência no processo de transformação dos espaços dessa região se estendeu não apenas à construção das instalações militares, mas também à abertura de ruas, delimitação de loteamentos, canalização de água, estabelecimento de redes de esgoto e iluminação na localidade.
Certas dificuldades estiveram presentes no estabelecimento dessas áreas. A chegada da Escola de Tiro, em 1857, incentivou em determinado grau as obras para melhoria do Realengo, mas são observadas apenas raras manifestações de preocupação
com aspectos da infra-estrutura para recebimento da população deslocada para a região. Um exemplo disso já pode ser observado nas prescrições do regulamento de 1859, que previa que o comandante residisse na própria escola, “a fim de melhor exercer a direção, inspeção, fiscalização e disciplina de todos os serviços122”. Se a intenção era impedir o afastamento do comandante da região, a prescrição não poderia ser diferente: em 1860, o edifício no Campo Grande, ocupado pela Escola de Tiro, era o único prédio pertencente ao Ministério da Guerra na região123.
A determinação de residência na escola foi alterada no regulamento de 1873, no qual constava que, além do comandante, todos os demais empregados também seriam obrigados a residir no recinto da escola124. Entretanto, o mesmo dispositivo reconhecia a insuficiência das acomodações, apresentando a solução de que fossem alugados edifícios próximos, custeados pelo governo. O tema retorna no regulamento de 1884, que previa a construção de residências funcionais nas imediações da escola; entretanto, enquanto não se realizassem tais construções, edifícios continuariam sendo alugados pelo governo. Porém, é preciso relativizar essas fontes - os regulamentos - como um retrato fiel da preocupação das autoridades com a questão. As medidas adotadas parecem sempre insuficientes, mesmo porque tais preocupações - quando manifestadas - diziam respeito a apenas uma pequena parcela dos efetivos, os oficiais instrutores. Não é improvável que alguns militares tenham manifestado o desejo de alojar suas famílias na própria escola, uma vez que o regulamento preocupava-se em vedar expressamente essa prática; e as famílias certamente estavam presentes na localidade, pois também se registrava a permissão para que os alunos casados morassem fora do estabelecimento.
Esta questão da deficiência de residências revela um processo de ocupação acelerado, mas que pode ser julgado como consideravelmente desorganizado. Como consequência, o improviso e as soluções casuísticas para questões como o atendimento de saúde, educação, moradia ou transporte permaneceriam ainda por muitas décadas como problemas a serem vencidos individualmente pelos militares deslocados para a localidade. De qualquer modo, o Realengo, apesar das dificuldades, sobreviveu como área militar durante o período imperial e os investimentos prosseguiram após o estabelecimento do
122 Decreto nº 2.422, de 18 de maio de 1859. Aprova o regulamento para a Escola Geral de Tiro do Campo
Grande.
123 Relatório do Ministro da Guerra José Mariano de Mattos, 1863-2. Relação organizada em virtude do
disposto no parágrafo 4º do artigo 12 da Lei nº 1.114, de 27 de setembro de 1860.
124 Decreto nº 5.276, de 10 de maio de 1873. Aprova o novo regulamento para a Escola Geral de Tiro do
regime republicano. A localidade, que pode ser vista como um campo de experiências para implantação do ensino prático, consolidou-se também como o núcleo que se prestou para a expansão das áreas militares na região. E a estrutura existente foi considerada ao menos adequada para, no início do novo século, receber o mais importante estabelecimento de ensino do exército.
Foram descritos até aqui certos aspectos das motivações do poder público para o estabelecimento de uma área militar na Zona Oeste do Rio de Janeiro e a história da constituição dessas áreas no século XIX. Como conclusão parcial, é possível afirmar que a implantação das organizações militares na região modificou o espaço e levou à constituição de um patrimônio público na região, acompanhando o desenvolvimento do bairro. O capítulo seguinte prosseguirá com a descrição das condições que motivaram a transferência da Escola Militar para Realengo, e as transformações urbanas a partir da chegada dessa instituição.