Encontramos em Marx diversas considerações acerca da produção nas sociedades pré-capitalistas, com base em estudos de diferentes partes do mundo, onde se destacam algumas características do chamado comunismo primitivo, sendo que as principais foram resumidas por Foladori da seguinte maneira:
[…] enquanto a divisão social do trabalho era incipiente e baseada prioritariamente em características naturais, a produção era essencialmente coletiva, assim como também era coletiva a apropriação do produto. De maneira que as contradições entre os membros da comunidade não se tornavam antagônicas, não cristalizavam em classes. O individual naquelas etapas se expressava como comunidade praticamente homogênea. (FOLADORI, 2012, p.60, tradução nossa)
Nos Grundrisse, ao estudar as diferentes formas de produção que precederam o capitalismo, Marx afirma a característica não sedentária dos seres primitivos, que ainda pouco diferenciados dos macacos migravam constantemente em busca de melhores condições de vida contra a escassez, predadores e quaisquer outras ameaças e limitações naturais à sua reprodução. Assim, a necessidade de mover-se como atividade que impulsionou nosso desenvolvimento implica que a família, clã ou “coletividade tribal, a comunidade natural, não aparece como resultado, mas como pressuposto da apropriação (temporária) e utilização coletivas do solo. […] Somente como parte, como membro dessa comunidade, cada indivíduo singular se comporta como proprietário ou possuidor.” (MARX, 2011, p.388-9). Essa coletividade tribal é o primeiro pressuposto da relação de apropriação do homem com a natureza; o indivíduo como o concebemos hoje é conceito exclusivo de nosso tempo e o indivíduo isolado no mundo selvagem, na realidade concreta, nunca existiu. Como podemos observar na mesma citação, a propriedade é justamente essa relação natural e social de apropriação dos meios de vida e, como no caso da linguagem, pensá-la como característica de um indivíduo singular é completamente absurdo. Assim, podemos observar também que, à medida que o trabalho vai se configurando como especificidade em cada modo de produção, é acompanhado por relações de propriedade correspondentes, que definem quem produz para quem. No chamado comunismo primitivo, o trabalho era inicialmente para sobrevivência e, logo, subsistência de cada comunidade, mantendo e desenvolvendo isoladamente sua capacidade de se reproduzir. Em nosso desenvolvimento, enquanto o trabalho se dá em vínculo direto com a terra, “trata-se, neste caso, da unidade natural do trabalho com seus pressupostos objetivos. […] O indivíduo relaciona-se consigo mesmo como proprietário, como senhor das condições de sua realidade” (MARX, 2011, p.388) e através de sua relação comunal, “relaciona-se com os outros como coproprietários, como tantas encarnações da propriedade comum” (idem).
Em sua obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1964), Engels explica a formação e desenvolvimento da estrutura social dos povos do comunismo primitivo e, apoiado no trabalho de Morgan, um arqueólogo de sua época, e em parte respondendo a este, classifica o subsequente desenvolvimento deste modo de produção em dois estágios: 1) “selvagem”, estágio que vai desde uma fase transitória das espécies inferiores aos humanos que desenvolveram o arco e flecha, momento “em que predomina a apropriação de produtos da natureza, prontos para ser utilizados; as produções artificiais do homem são, sobretudo, destinadas a facilitar essa apropriação” (Cap. I); e 2) bárbaro, desde o momento “em que aparecem a criação de gado e a agricultura e se aprende a incrementar a
produção da natureza por meio do trabalho humano” (idem), até a fundição do ferro, que permite o desenvolvimento da agricultura e do pastoreio, assim como uma rápida concentração de pessoas em pequenas áreas. Independente do caráter moral ou politicamente correto dessa nomenclatura, sua exposição, que se baseia em exemplos retirados de diferentes estudos antropológicos de sua época, demonstra como o desenvolvimento das forças produtivas vai alterando a maneira como se relacionam os seres humanos, de maneira objetiva e subjetiva. Ainda que haja certa controvérsia ao redor do uso destas denominações, o que é de interesse aqui é como Engels se baseia na história destes povos para elucidar o desenvolvimento humano e sua organização social.
O autor constata que o desenvolvimento do comunismo primitivo foi bastante lento e desigual, o que implica uma variedade quase infinita de expressões específicas que persistiram até a época na qual viveu o próprio Engels, como as famílias primitivas punaluanas, uma sociedade matriarcal do Havaí, ou as famílias por grupos e sindiásmicas encontradas no continente americano; consideradas respectivamente em estágio selvagem e bárbaro (op. cit., Cap. II). O trabalho era voltado para a subsistência e todos produziam para a vida de todos. Internamente, tanto a divisão social do trabalho como a elaboração dos produtos do trabalho obedecem a diferentes critérios culturais, dependem exclusivamente das necessidades sociais e do desenvolvimento material de cada comunidade. “Até a fase inferior da barbárie, a riqueza duradoura limitava-se pouco mais ou menos à habitação, às vestes, aos adornos primitivos e aos utensílios necessários para a obtenção e preparação dos alimentos.” (ENGELS, 1964, Cap. II). Não se produziam mercadorias; ainda que pudesse existir o trabalho excedente que possibilitava a troca, essa não era a principal finalidade da produção. A troca se desenvolverá no seio destas comunidades comunistas como atividade fortuita para a satisfação comunal ou no encontro entre diferentes comunidades, tribos, clãs, etc.; tinha lugar casualmente na periferia da atividade produtiva e reprodutiva.
No comunismo primitivo, a relação do homem com a natureza é de propriedade coletiva, comunal. “A terra é o grande laboratório, o arsenal que fornece tanto o meio de trabalho, quanto o material de trabalho, bem como a sede, a base da comunidade.” (MARX, 2011, p.389). Essa relação com a natureza aparece como algo anterior ao próprio homem,
[...] as condições originais de produção aparecem como pressupostos naturais, condições naturais de existência do produtor, exatamente como seu corpo vivo aparece como o pressuposto de si mesmo, uma vez que, por mais que ele reproduza e desenvolva, não é posto por ele mesmo […] Essas próprias condições naturais de existência, às quais se relaciona como um corpo inorgânico pertencente a si mesmo, são de dupla natureza: 1) subjetiva e 2) objetiva. (MARX, 2011, p.401).
Cada membro da coletividade é indiferente, igualmente proprietário e possuidor da terra não apenas para produção, mas também para consumo. A relação com o produto de seu trabalho tampouco é individual, é consequentemente quase divina, apropriar-se dele é ponto de partida e não resultado do trabalho: produz-se para um fim pré-determinado, o que implica pouca diversidade e dinamismo na produção. Muitas vezes, isso que Marx chamou de unidade coletiva aparece na história como algo exterior aos indivíduos, como uma entidade acima deles e à qual tudo pertence, retirando a noção de propriedade dos membros da coletividade para depositá-la em um ser superior, uma personificação que pode estar no imaginário primitivo como deus ou na figura real do déspota. Esse modo de produção teve expressões concretas em diversas partes do mundo e as relações sociais que o estruturam se baseavam em vínculos pessoais e sanguíneos. A divisão do trabalho era espontânea, era ainda a divisão natural do trabalho, quase exclusivamente baseada em gênero e idade. Os instrumentos de trabalho eram pouco desenvolvidos e constituíam os poucos pertences de cunho individual.
Com certo acúmulo de conhecimento acerca de seu meio natural, os trabalhadores foram criando as condições para o desenvolvimento do sedentarismo, inaugurando-se o que Engels chamou da “primeira divisão social do trabalho” – o trabalho de pastoreio (1964, Cap. IX). Já não era necessário depender da instabilidade da caça; os povos pastoris produziam, além dos víveres comunais, todos os produtos derivados dos animais que usavam também como transporte e obtinham, assim, vantagem para sua sobrevivência e consequente desenvolvimento. Surge aqui a possibilidade da troca de excedentes.
Ainda que as gens não tenham sido a única estrutura familiar e social do comunismo primitivo, as origens das mais diversas sociedades que existiram nesse período e persistiram inclusive no período escravista – famílias grupais, clãs, castas, etc – podem ser traçadas à estrutura de gens, que tinha como uma de suas características a participação ativa de todos: Engels cita a estrutura das gens em sua expressão mais desenvolvida, o que nos ajudará a entender um pouco sobre a organização social do trabalho até depois do advento do escravismo:
Uma tribo se divide em diversas gens, comumente em duas; com o aumento da população, cada uma das gens primitivas se subdivide em várias gens filhas, para as quais a gens-mãe persiste como frátria; a própria tribo se subdivide em várias tribos, em cada uma das quais, na maioria dos casos, vamos achar as antigas gens; uma confederação, pelo menos em certos casos, une as tribos aparentadas. [...] Essa organização simples é inteiramente adequada às condições sociais que a engendraram. Não é mais do que um agrupamento espontâneo, capaz de dirimir todos os conflitos que possam nascer no seio da sociedade a que corresponde. […] para o índio não existe o problema de saber se é um direito ou um dever tomar parte
nos assuntos de interesse social […]; tal problema lhe pareceria tão absurdo quanto a questão de saber se comer, dormir e casar é um dever ou um direito. (ENGELS, 1964, Cap. IX)
Aquelas sociedades que puderam estabelecer-se em um território fixo devido ao desenvolvimento de seu trabalho, os povos sedentários que logo acumularam conhecimento sobre o ambiente que os rodeava, chegaram à segunda divisão social do trabalho: entre agricultores e artesãos (ENGELS, 1964, Cap. IX). Já existia, portanto, diversos produtos resultantes de um acúmulo considerável de conhecimento humano sobre a natureza, permitindo que se pudesse fazer brotar os frutos da terra; e acúmulo de meios de produção como instrumentos, tecidos, armas, etc., a ponto de um grupo específico de trabalhadores ter que se dedicar a produzi-los. Os obstáculos naturais dos povos nômades ficaram para trás, porém estes comunistas primitivos encontraram eventualmente um novo obstáculo em seu relacionamento de apropriação das condições naturais de produção: outras comunidades que já se apropriaram da terra e de seus frutos. Por isso, como explica Marx, “[…] a guerra é um dos trabalhos mais originais de cada uma dessas comunidades originadas natural e espontaneamente, tanto para defesa quanto para nova aquisição de propriedade” (2011, p.402). Em seguida, explicita como essa relação de apropriação guarda em si a potencialidade de dar o salto de qualidade a outros modos de produção:
Se o próprio ser humano é conquistado junto com o solo como seu acessório orgânico, ele é conquistado como uma das condições de produção e, assim se originam a escravidão e a servidão, que logo adulteram e modificam as formas originais de qualquer comunidade, e até mesmo se convertem em seu fundamento. (MARX, 2011, p.403).