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7. METODOLOGÍA

7.7. ANALISIS DE DATOS

A faculdade da imaginação, como vimos, cumpre papel fundamental para as operações mentais baseadas em inferências indutivas, a saber, para a relação de causa e efeito. Sem essa relação, a “inferência e o raciocínio relativos às operações da natureza chegariam nesse momento a um fim, restando a memória e os sentidos como os únicos canais pelos quais o conhecimento de alguma existência real poderia chegar à mente” (8.5). Graças à imaginação, no entanto, não estamos aprisionados à observação imediata dos sentidos ou ao registro da memória. A inferência de acontecimentos futuros ou de qualidades ocultas (não presente aos sentidos) de objetos não seria alcançada, a menos que a imaginação concebesse este objeto, i. é, uma nova ideia de algo ainda não observado.

Assim, por exemplo, antes mesmo que uma criança chute a bola com a qual brinca, ela sabe que a bola irá deslocar-se no espaço de modo semelhante àquele com que costumeiramente isso tem se apresentado à sua observação. E ainda que seja uma bola inteiramente nova, que nunca tenha brincado com ela, por apresentar semelhança com as que brincou antes, a criança sabe que ao chutá-la, a bola irá correr. Todas as vezes que nossa criança sabe essas coisas, ela de fato está fazendo inferências e concebendo com confiança aquilo que, como ideia, a imaginação gerou. Se disséssemos, contudo, que sua perna transformar-se-ia em uma imensa árvore todas as vezes que chutasse uma bola, ela acreditaria nessa afirmação ou duvidaria? O que levaria alguma criança a acreditar nisso e outras a duvidar?

Para respondermos a essas perguntas, precisamos antes investigar como Hume diferencia a crença da ficção, de uma ideia crida ou crível, daquela que reputamos como meras invenções da imaginação.

Sobre a faculdade da imaginação, diz Hume:

Nada é mais livre que a imaginação humana, e, embora não possa ir além daquele inventário original de ideias fornecidas pelos sentidos internos e externos, ela dispõe de poder ilimitado para misturar, combinar, separar e dividir essas ideias em todas as variedades de ficção e miragens. (5.10)

Daquilo que depende a combinação ou concepção de novas ideias, parece não haver limites à imaginação. E pode ir tão longe e “conceber objetos fictícios com todas as circunstâncias de tempo e lugar. Pode dispô-los, por assim dizer, diante de nossos olhos em suas verdadeiras cores, exatamente como poderiam ter existido” (5.12). Nessas operações ela se comporta como faculdade de fantasiar (5.11; 11.21). Assim, por exemplo, alguém pode conceber pela imaginação que todas as pessoas que estiverem bloqueando sua passagem na calçada i) desapareçam completamente, pela simples força de seu pensamento ou ii) que ao pedir licença, elas desobstruam a passagem. No primeiro caso, a simples concepção da ideia não leva nosso transeunte a acreditar nela, ao passo que, no segundo, contudo, ele acredita poder alcançar seu objetivo. Qual diferença há nas duas inferências, posto que em ambas ele estabeleceu raciocínios causais indutivos?

Para Hume, todas as vezes que a imaginação está a fantasiar, ou a conceber objetos que afirmamos serem nada mais que ficções, seus objetos ou ideias, neste caso, não são acompanhados por certa “sensação ou sentimento” (5.11). Todas as vezes, no entanto, que a imaginação opera “uma concepção de um objeto mais vívida, vigorosa, enérgica, firme e

constante” (5.12) da qual depende a crença, ela não o pode obter sozinha, pois o sentimento que é associado à ideia não é gerado pelo simples ato da concepção desta ideia pela faculdade. Para Hume, dois fatores intervêm alterando a maneira como a imaginação opera, e por eles compreenderemos melhor a natureza da crença.

Esses fatores são “uma habitual conjunção do objeto com algo presente à memória ou aos sentidos” (5.13). Assim, voltando ao nosso transeunte, o qual ao conceber pelo simples pensamento o completo desaparecimento das pessoas que bloqueavam a calçada não produziu para si senão uma ficção (e não uma crença). Porque apesar de associar o desaparecimento das pessoas que tinha diante de si, portanto presente aos sentidos, não tinha, contudo, o registro na memória de qualquer ocasião em que ele, ou outra pessoa, tenha pelo simples pensamento feito desaparecer pessoas que bloqueavam a passagem de uma calçada. Ao passo que, ao conceber o pedido de licença às pessoas, o acúmulo de casos assemelhados na memória de efetiva desobstrução do caminho, decorrido do pedido de licença, somam-se de tal modo que, naturalmente27 em sua mente, isto produziu na imaginação aquela habitual transição que procuramos. Esta, como impressão, não apenas é causa da ideia de vínculo necessário entre causa e efeito, mas também reforço sentido pelo pensamento para a crença de que ele pode sim ter seu intento alcançado, que é o de desobstruir a passagem.

O que Hume está a fazer é deslocar o foco do critério de distinção entre as concepções da imaginação. Não o localiza na ideia de per si e nem em outra anexada a esta por decisão ou assentimento, como ato voluntário ou resultado de raciocínio, antes o localiza numa instância que não somos capazes de interferir pelo uso de nossas faculdades intelectuais. Sobre isso, posiciona-se da seguinte maneira:

Em que consiste, então, a diferença entre uma ficção desse tipo e uma crença? Ela não repousa simplesmente em alguma ideia peculiar que estaria anexada às concepções que exigem nosso assentimento e ausente de todas as ficções reconhecidas como tais; pois, como a mente tem autoridade sobre todas as suas ideias, ela poderia anexar voluntariamente essa particular ideia a qualquer ficção e ser capaz, em consequência, de acreditar no que bem quisesse, o que é contrário ao que constatamos na experiência do dia-a-dia. (5.10)

27 Em oposição à decisão, ato voluntário, ou raciocínio. Hume não apresenta uma resposta quanto a causa desse

sentimento, ou do hábito como princípio, pondo a conta na natureza, como se verá alguns parágrafos à frente da presente seção.

Vejamos com nosso hipotético transeunte se ele poderia escolher crer no desaparecimento do grupo de pessoas à sua frente pela força de seu pensamento simplesmente associando a essa ideia, criada por sua mente, uma outra ideia. Primeiro ele especula que já ouvira falar de pessoas que pelo uso do pensamento tenham poder de alterar o dia, posto que por vezes, afirmam, ao acordar, desejaram que seu dia fosse repleto de boas ocasiões, fazendo com isso que seu dia fosse de fato cheio de agradáveis momentos. Contudo, ainda que atrelasse essa ideia à concepção do desaparecimento das pessoas diante de si pela força do pensamento, isto não geraria nenhuma crença, e teria de rejeitar esse pensamento como absurdo ou fantasioso. O que, portanto, está faltante para que a concepção da imaginação gere uma crença, senão, a habitual transição decorrida pelo acúmulo de situações similares observadas por ele da ação direta do pensamento em coisas ou pessoas, a tal ponto de fazê-las desaparecer por um desejo? De fato, ele não tem nenhuma observação disso.

De modo mais decisivo, a crença refere-se a uma maneira específica de concepção da imaginação porque sentida mais fortemente pela mente. Além do que, se insistirmos na hipótese de uma segunda ideia atrelada à primeira concebida pela imaginação ser aquilo que daria às suas concepções “um peso maior junto ao pensamento e uma influência superior sobre as paixões e a imaginação” (5.12) do que as ficções, teremos que lidar com o seguinte problema. Quando raciocinamos acerca de questões de fato ou existência, como vimos em outro momento28, a negação de um objeto ou evento que seja possível conceber não implica contradição. Pode sim levar afirmações feitas nesses termos à falsidade, mas pensar o contrário delas, no entanto, não resulta em contradição. Por isso, diz Hume:

[C]omo não há questão de fato na qual se acredite tão firmemente a ponto de não se poder conceber o contrário, não haveria nenhuma diferença entre a concepção a que se dá o assentimento e aquela que se rejeita, se não fosse por algum sentimento que as distingue uma da outra. (5.11)

Voltemos ao exemplo considerado no início desta seção para ver se melhor compreendemos esse argumento de Hume. Sobre a criança que brincava com uma bola e a sua confiança que, ao chutá-la, a bola empreenderia movimento de determinada maneira, deixamos duas perguntas não respondidas. Pois bem, vejamos se agora estamos em melhores condições de respondê-las. A primeira, se a criança acreditaria ou não se alguém lhe dissesse que sua perna, ao chutar a bola, desapareceria e no lugar apareceria uma grande árvore, e a segunda, o

que levaria umas crianças a acreditarem e outras a duvidarem. Responderemos as duas de uma vez.

Com Hume vimos que a crença não decorre senão de uma maneira particular da imaginação – diferente daquela que resulta a ficção ou fantasia – conceber um objeto que com a força (5.11) do hábito leva a mente a fazer a transição da causa para o efeito com mais força, ou sentida mais intensamente, na medida em que sua experiência guarde uma multiplicidade de casos passados assemelhados àquele que está presentemente impressionando os sentidos. Assim, a criança que por anos brincou chutando bolas, infere, pelo acúmulo de situações observadas no passado que se assemelham com aquela que está prestes a testemunhar: que do chute à bola segue-se não apenas o movimento da mesma provocado pelo impulso de seu chute, como também um momentâneo desconforto na perna, decorrente do impacto com a bola, mas que continua ligada ao corpo da mesma maneira que sempre esteve. E que, em todas as vezes que chutou uma bola, e não foram poucas, nem nunca ouvira dizer, que alguma vez do chute à bola tenha experimentado a transformação de sua perna numa imensa árvore. Contudo, a criança é capaz de conceber a negação daquilo que sempre experimentou ao chutar uma bola, mesmo que não acredite nessa negação. E, como questão de fato, essa negação que é pensável, i. é, o desaparecimento da perna e o aparecimento de uma árvore no lugar, não é contraditória. Assim, questiona Hume, mesmo que depositemos confiança em uma ideia oriunda de inferência indutiva, somos capazes de conceber outra oposta. Dessa forma “não haveria nenhuma diferença entre a concepção a que se dá o assentimento e aquela que se rejeita, se não fosse por algum sentimento que as distingue uma da outra” (5.11). De modo que a criança, ao ser questionada, pode até não saber explicar por que não poderá surgir uma árvore no lugar de sua perna, mas é levada por um forte sentimento não voluntário à crença de que sua perna continuará onde sempre esteve após o chute. Contudo, quanto mais tenra for a criança, e quanto menos for, senão nenhuma, sua experiência de chute à bola, e tendo idade suficiente para compreender a pergunta, a criança pode ser levada a acreditar na afirmação que lhe fizerem (ainda que sinta alguma estranheza), posto que não houve experiência acumulada suficiente a ponto de tornar a transição da causa ao efeito habitual ou costumeira à imaginação. E assim o acontecimento que é muito estranho a uma criança mais vivida, não o é, na mesma medida, a outra assaz jovem.

Então, desse modo, como não podemos simplesmente atrelar uma nova ideia àquela concebida pela imaginação para torná-la crença, em vez de mera fantasia, não está também em nosso poder provocar intencionalmente o sentimento na mente associado ao objeto da imaginação, pois, afirma Hume, “[c]omo qualquer outro sentimento, ele deve ser provocado

pela natureza e provir da situação particular em que a mente se encontra em uma determinada ocasião” (5.11). E, mais adiante, arremata afirmando que a “denominação verdadeira e apropriada desse sentimento é crença” (5.12). Hume está ciente das dificuldades de sustentar um conceito de crença ligado não ao conteúdo ou à “natureza particular ou ordem específica de nossas ideias, mas na maneira como são concebidas e no sentimento que trazem à mente” (idem); por isso, ao defini-lo nesses termos, confessa que

é impossível explicar perfeitamente esse sentimento ou maneira de concepção; podemos fazer uso de palavras que expressam algo que disso se aproxima, mas sua denominação própria e verdadeira, como observamos antes, é crença; um termo que todos entendem suficientemente na vida cotidiana. E, em filosofia, não podemos ir mais além da asserção de que a crença é algo sentido pela mente, que distingue entre as ideias provindas do julgamento e as ficções da imaginação. Ela lhes dá mais peso e influência, faz que se mostrem mais importantes, impõe-nas à consideração da mente e torna-as o princípio diretor de nossas ações. (5.12)

O fato de a crença ser algo sentido pela mente, sendo esse nosso recurso natural de distinção das ideias fantasiosas da imaginação, sua importância não é diminuída por isso, pelo contrário, se mostra decisiva para vida, pois por elas governamos nossas ações. Mas antes de adentrarmos nas questões que relacionam crença e falibilidade de nossos raciocínios com a despensa dos mesmos para operação via mecanismos não racionais, mas naturais sobre os quais se apoiam a vida, vejamos, entretanto, como somos capazes de graduar, pela evidência, nossas crenças.

1.13 A sabedoria da evidência: graduação da crença à graduação da probabilidade