1 Introduction
5.4 An autobiographical novel?
O primeiro termo da dicotomia - comunicação por meio da linguagem - corresponde, em nosso entender, ao que correntemente se designa por informação, ou, para usar termos mais do agrado de Benjamin, ao aspecto quantitativo da comunicação. Seria ingenuidade negar que a linguagem cumpre na realidade esta função: o próprio Benjamin o reconhece quando refere que as "más traduções" transportam para a língua de chegada a "quantidade" de informação que o texto original possuía. O que se perde numa "má tradução" (e que para Benjamin é o essencial) será antes o que, por paralelismo, chamaríamos a qualidade da comunicação, isto é, aquela entidade espiritual que se comunica na, e não por meio da, linguagem. Aqui residiria assim o espiritualismo da teoria benjaminiana: a comunicação na linguagem seria a comunicação daquilo que em termos vulgares não é comunicável. Ou dito de outro modo: a actividade da linguagem não releva da ordem da informação.
Constatando que um dos traços que caracterizam a modernidade é o predomínio quase exclusivo da informação sobre a comunicação 74; constatando
ainda que tal predomínio é especialmente visível no desenvolvimento imenso da imprensa periódica desde o século passado, e, já no nosso século, de outros meios de informação ainda mais poderosos (rádio, televisão), poderíamos perguntar que incidência terá esta visão benjaminiana para a nossa compreensão histórica do fenómeno da linguagem. Adiantando desde já algumas reflexões que surgirão na sequência do capítulo, cremos que seria possível dizer que, para Benjamin, a "história da linguagem" consistiria num desenvolvimento que, partindo de uma situação de desequilíbrio em que a linguagem se situava quase em exclusividade no plano do simbólico, se assiste no decorrer do tempo a uma ascenção contínua da função informativa, geradora de uma situação final de novo desequilíbrio, uma vez que actualmente é esta a função que, quase em exclusividade, domina.
Tivemos ocasião de, no capítulo anterior, referir o ensaio de Benjamin "Sobre o narrador". Vimos então como o estatuto do narrador se tem vindo sucessivamente a degradar desde as sociedades primitivas em que o "narrador épico" funcionava como um catalisador e transmissor de experiência aceite pela sociedade globalmente, a qual por sua vez assimilava tal experiência e, através de outros narradores, a transmitia às gerações subsequentes; o tipo da "narração épica" vai gradualmente cedendo o lugar a outras formas literárias (o romance e a novela) e a sua apropriação vai, também gradualmente, deixando de ser feita pela
sociedade como um todo para se tornar um fenómeno individual. Este movimento caracteriza o que Benjamin vai chamar "uma nova barbárie".
No pequeno ensaio "Experiência e miséria" 75 Benjamin começa por
contar a seguinte história:
Nos nosso livros de leitura figurava a fábula do velho que ao morrer informa os filhos de que na sua vinha estava um tesouro escondido. Eles só tinham de cavar a procurá-lo. Puseram-se, de facto a escavar, mas nem rasto do tesouro. Quando chegou o outono, no entanto, a vinha deles produziu mais que nenhuma outra vinha das redondezas. Notaram então que o pai lhes tinha transmitido uma experiência: não é no ouro que está o triunfo, mas sim no trabalho. Tais experiências, ora para nos advertir ora para nos tranquilizar, sempre vieram ao nosso encontro à medida que nós crescíamos: "Estás verde, rapaz, mais tarde falamos"; "Ainda hás-de experimentar por ti como isso é". E todos sabíamos perfeitamente o que era a experiência: desde sempre as pessoas mais velhas a transmitiam aos mais jovens. Em breves palavras, cheias da autoridade da idade, sob forma de provérbios; dando expansão à sua prolixidade, em elaboradas histórias; frequentemente como contos de países exóticos, contados à lareira diante de filhos e netos. - Para onde foi tudo isto? Onde se encontram hoje ainda pessoas que sejam capazes de contar uma história como deve ser? Onde se ouvem hoje ainda moribundos que profiram à hora da morte preciosas lições que, como um anel, merecem ir passando de geração em geração? Quem é que hoje ainda se socorre de um provérbio? Quem é que hoje ainda tenta entender- se com a juventude fazendo apelo à sua própria experiência? 76
E na sequência do texto, Benjamin anota como a "experiência" foi algo que desapareceu no espaço de uma geração, a da guerra de 14-18, a qual se deu
75 "Erfahrung und Armut", in Illuminationen - Ausgewählte Schriften, Frankfurt, Suhrkamp, 1961, pp.
313-318. - Este texto, e o facto é significativo, data de 1933, o ano que assistiu à chegada dos nazis ao poder. Sem entrar em pormenores sobre o significado profundo do movimento nazi, não queremos deixar de sublinhar a este propósito como entre os seus traços característicos se conta o desprezo pelas mais ricas tradições alemãs, isto é, o desrespeito precisamente pela experiência secular do povo alemão, desprezo e desrespeito que, para não irmos mais longe, vemos traduzir-se na queima dos livros ou no incêndio das sinagogas.
conta das mentiras a que esteve sujeita a nível económico, político, militar e mesmo físico (a fome) e, consequentemente, emudeceu. 77 Tal emudecimento, se
bem interpretamos o texto de Benjamin, seria nada menos que o resultado de uma perda do estatuto simbólico da linguagem em favor do seu uso informativo - com a agravante de que a informação transmitida era enganadora. Por outras palavras, as gerações imediatas à guerra de 1914 perderam a confiança na linguagem.
Mas se podemos dizer que esta "perda de confiança na linguagem" se consumou após a guerra de 1914 78, justo será reconhecer que as causas do
fenómeno já vinham de longe. Nos seus trabalhos sobre Baudelaire, já Benjamin tivera ocasião de verificar como a sociedade industrial, capitalista e burguesa alterara por completo o sentido da experiência, já que na grande cidade característica deste tipo de sociedade toda a experiência surge, por assim dizer, fragmentada e é sentida pelo sujeito sob a forma de "choques" 79. Como diz R.
Wolin,
O que Benjamin procura mostrar é que, com o advento da experiência como choque como força elementar na vida quotidiana nos meados do séc. XIX toda a estrutura da experiência humana sofreu uma transformação 80.
E o mesmo comentador acrescenta:
A experiência nos dias de hoje foi tão completamente reduzida e filtrada através da consciência que aquilo que resta é uma experiência limitada ao mínimo indispensável, a experiência necessária ao objectivo da simples sobrevivência. Consequentemente, não só o aparelho humano de percepção foi ele mesmo consideravelmente alterado, mas a
77 O. cit., pp. 313-314.
78 "Uma das mais monstruosas experiências que a história universal já conheceu" (o. cit. p. 313). 79 W. Benjamin, Über einige Motive bei Baudelaire (Sobre alguns temas em Baudelaire, trad.
utilizada em Poesía y Capitalismo - Iluminaciones II, Madrid, Taurus, 1993 (reimpr.); v. a este respeito as pp. 128-135. - O tema deste ensaio benjaminiano é definido por R. Wolin como "a fragmentação do contínuo da experiência nos tempos modernos tal como ela se manifesta no domínio da experiência estética" (Richard Wolin, Walter Benjamin - An Aesthetic of Redemption, University of California Press, 1994, p. 226)