Em 1969, Foucault publica um ensaio intitulado “Linguistique et sciences sociales” (FOUCAULT, 2001a, 849-870). Neste ensaio, Foucault discute uma série de problemas relacionados à linguística estrutural e às ciências humanas. Tal discussão nos parece exemplar para um maior aprofundamento da já discutida presença estruturalista no interior da reflexão arqueológica e sua tensão com a história. Por esse motivo, sigamos inicialmente de perto esse ensaio de 69.
Foucault começa explicando que a linguística estrutural -“Saussure e seus sucessores”- diz respeito à análise formal e científica de um conjunto de relações entre elementos diversos, por exemplo, no caso de uma língua. Tal análise não se reduz à coleção empírica de átomos individuais (raízes, flexões gramaticais, ou mesmo palavras), pelo contrário, o que há de notável e inovador nesse método é exatamente que “tais relações são independentes nelas mesmas, quer dizer, em sua forma; (...) é neste sentido que elas são generalizáveis, sem metáfora alguma, e podem eventualmente serem transportadas a algo bastante diferente dos elementos de uma natureza linguística” (FOUCAULT, 2001a, p.851). O que Foucault sustenta durante seu ensaio é que com a linguística estrutural surge um novo estilo de análise passível de ser transposto para outros campos do conhecimento, por exemplo, para a sua problemática de uma história dos sistemas de pensamento. Buscar esta relação irredutível aos elementos empíricos, buscando formalizá-la em termos semelhantes aos da lógica, seria, como já vimos, a grande especificidade e inovação do método estruturalista, inovação que rapidamente disseminou-se para diversas áreas das ciências humanas.
Mas, como compreender as consequências de tal estilo de racionalização para a reflexão foucaultiana? Segundo Foucault, a mais importante consequência é, precisamente, a recusa de uma reflexão exclusivamente causal:
Tradicionalmente, a racionalização do empírico se fazia através e graças a descoberta de um certo tipo de relação, a relação de causalidade. Pensávamos que tínhamos racionalizado um domínio empírico quando podíamos estabelecer uma relação de causalidade entre um fenômeno e outro. E agora, graças à linguística, descobrimos que a racionalização de um campo empírico não consiste somente em descobrir e poder assinalar esta relação precisa de
causalidade, mas a expor todo um campo de relações que são provavelmente
semelhantes às relações lógicas. (...) Nos encontramos assim na presença de um instrumento formidável de racionalização do real, e nos apercebemos que esta racionalização tão fecunda do real não passa mais pela designação do determinismo e da causalidade. Eu acredito que este problema de uma lógica que não é a lógica da determinação causal está atualmente no
coração dos debates filosóficos e teóricos. (FOUCAULT, 2001a, p.852,
grifos nossos)
Procurar por relações sistêmicas antes não visadas é desenvolver outra forma de racionalização da realidade. Para além das determinações causais – que neste ensaio Foucault nomeia, de uma forma simplista, através de Marx e Hegel – trata-se de encontrar outros meios de análise e entendimento de certas áreas do conhecimento. Ora, não é a toa que Foucault privilegie tal discussão, afinal, a ausência de nexos causais já não era – na época - a principal crítica às análises arqueológicas presentes em As palavras e as coisas, por exemplo, com Sartre e os marxistas? Segundo Foucault, entretanto, a análise estrutural não é absolutamente ahistórica, pois sua astúcia consiste simplesmente em não identificar o histórico com a dimensão do sucessivo. O ponto de vista da linguística estrutural é sincrônico e escolher a sincronia não é “escolher o presente contra o passado e o imóvel contra o evolutivo” (FOUCAULT, 2001a, p.854). A esse respeito, Foucault nos dá dois argumentos principais:
(1) O sucessivo é apenas uma das dimensões da história, uma vez que “a simultaneidade de dois acontecimentos não é menos um fato histórico do que sua sucessão” (FOUCAULT, 2001a, p.854). Não identificar história e sucessão, como fazemos comumente, é admitir que a história seja tanto o simultâneo quanto o sucessivo; para além da linha cronológica que o ocidente conhece desde o cristianismo, há, concomitantemente, o tempo em seu caráter de simultaneidade, de séries de acontecimentos discursivos que divergem e convergem dentro de um espaço de relações. Não se trata, entretanto, precisamente de uma “espacialização do tempo” 19 como tantas
vezes já foi dito. É certo que Foucault por diversas vezes desconfiou do privilégio que a filosofia moderna deu ao tempo em detrimento do espaço. O espaço, como vimos, é um aspecto central para as análises arqueológicas. Porém, a questão vai para além da dicotomia entre espaço e tempo, e uma suposta conjuração das forças do espaço sobre as do tempo por parte de Foucault. Pois, um pensamento do espaço heterótopico, como a arqueologia, é simétrico à exigência de uma nova imagem do tempo, muito diferente daquela construída pela filosofia moderna:
19Sobre essa ideia de “espacialização do tempo”, ver, por exemplo, Diogo Sardinha - Foucault e a ordem
Isto quer dizer, primeiramente, que o espaço europeu não é o espaço em sua totalidade, vive-se em uma série de espaços polimorfos; em segundo lugar, a ideia é que não há uma só história, há diversas, diversos tempos, diversas durações, diversas velocidades, que se encadeiam umas com as outras, que se cruzam e formam precisamente os acontecimentos. (FOUCAULT, 2001b, p.581)
Esse movimento é central para o desarme da dicotomia entre estrutura e história por parte de Foucault. Pois, trata-se de afirmar que a análise sincrônica não é contraditória ao tempo em-si, mas sim a certa imagem do tempo pressuposta pela história a partir da modernidade20: tempo compreendido como uma grande forma vazia, condição de
possibilidade do sentido interno da consciência e marcado pela continuidade e pela capacidade de síntese fundada na identidade de um sujeito histórico. Tal concepção do tempo é simétrica a uma imagem da história construída como unidade no devir, escoamento entre duas presenças, grande narrativa que pode ser plenamente determinada a partir do encadeamento causal entre eventos. Ou seja, o que Foucault rejeita é identificar plenamente a história com a sucessão causal e com uma unidade no devir que se efetivaria de forma progressista, ao recusar uma imagem monolítica do tempo e seu necessário correlato: a consciência. Ora, caso recusemos a falsa dicotomia entre ou uma análise histórica, ou um pensamento formalista do espaço, outra problemática surge: qual imagem do tempo e qual forma de fazer história pode se coadunar com esta análise sincrônica do espaço de aparição de um discurso? Não mais se trata de decidir de forma polêmica entre uma coisa, ou outra; antes, trata-se de constituir uma nova forma de pensar necessidade lógica e contingência histórica, formalização espacial e temporalização, sistemas de pensamento e séries de acontecimentos;
20Ver a respeito disso o capítulo de As Palavras e as coisas dedicado à história: “A idade da história”.
Além disso, cabe aqui um acréscimo. Foucault, até o fim da sua vida, sempre sustentou que o estruturalismo fora para sua geração uma forma de escapar, tanto de uma filosofia da consciência ainda por demais devedora do cogito cartesiano, quanto de uma concepção muito determinista de história derivada de um hegelianismo-marxismo acadêmico dominante na época. (cf. FOUCAULT, 2001b, p.1250-77) É interessante que Foucault diga que o estruturalismo não conhece apenas seu episódio francês, pois sua origem remonta ao leste europeu, sobretudo com o formalismo russo: “O que me surpreende nisto que
chamamos de movimento estruturalista na França e na Europa ocidental a partir dos anos sessenta , é que de fato ele foi um eco do esforço feito em certos países do leste, em particular a Tchecoslováquia, para se libertar do dogmatismo marxista. Nos anos cinquenta e cinco, ou sessenta, enquanto em um país como a Tchecoslováquia a velha tradição do formalismo europeu pré-guerra estava renascendo, vemos aparecer um pouco depois na Europa ocidental o que chamamos estruturalismo, isto é, acredito, uma nova forma, um novo modelo deste pensamento, dessa pesquisa formalista. É assim que eu situaria o fenômeno
estruturalista recolocando-o dentro desta grande corrente do pensamento formal. (FOUCAULT, 2001b,
(2) além disso, Foucault sublinha que uma análise sincrônica é em realidade uma busca pelas “condições de transformação”(conditions du changement) de um sistema. Por exemplo, a questão que a linguística estrutural coloca é: quais são as modificações pelas quais uma língua deve passar para que um elemento seja realmente transformado? Quais são as correlações necessárias de relações internas a uma língua para que uma modificação seja produzida? Em outras palavras, recusa-se a velha distinção entre aquilo que seria quantitativo e, portanto, extenso, espacial, mecânico; e aquilo que seria qualitativo e estaria do lado do tempo, da consciência, do vivido, da transformação propriamente dita. Para Foucault, há uma relação necessária entre mudança quantitativa e qualitativa, uma vez que o espaço não é mera forma vazia em que os corpos se encontram, mas antes, ele se constrói nas relações entre partes através do desdobramento das transformações discursivas. O ser da diferença aparece, simultaneamente, como temporalização e espaçamento. Há o devir-espaço do tempo – que se diz no reconhecimento de diferentes espaços de experiência temporal – assim como o devir- tempo do espaço – com a abertura do sistema espacial de relações à temporalização histórica. Trata-se, portanto, de um espaço-tempo. Uma episteme diz respeito ao lento velar-desvelar destes “espaços-epocais”, seus encontros, tremores, erupções e silenciamentos. Tal como uma geologia, ela é impensável sem a conjunção entre tempo e espaço. Nesse sentido, a perspectiva sincrônica seria, ao menos para Foucault, não a negação da evolução e o elogio de uma imobilidade formal, mas sim, a análise das condições para que uma transformação sistêmica possa realmente acontecer:
A velha análise sucessiva coloca a seguinte questão: uma mudança sendo dada, o que poderia tê-la causado? A análise sincrônica coloca a questão: para que uma transformação pudesse ser obtida, quais são as outras transformações que devem estar presentes dentro de um campo de “contemporaneidades”? Trata- se, portanto, de um modo diferente de analisar as transformações, e não uma maneira de negar a mudança em benefício da imobilidade. (FOUCAULT, 2001a, p. 855)
Qualquer leitor atento de Foucault percebe como esta perspectiva sincrônica é privilegiada em sua arqueologia do saber. Para uma melhor compreensão desse ponto, imaginemos a seguinte situação proposta por Davidson (1997, p.10-12): peguemos um grupo (x1) formado por diferentes elementos dispostos em sistema (a-b-c-d-e); o objetivo da análise é descrever as relações lógicas entre esses elementos a partir das normas, ou regras, que constituem a estrutura da qual eles fazem parte. Ora, se enfatizamos as relações entre os elementos e não eles em-si mesmos, tais como em um simples
nominalismo atomista, uma transformação de (x1) para (x2) deverá ser descrita através da transformação sincrônica das relações constitutivas do conjunto: (a-b-c-d-e) - (a-b-c- d-e)’. O característico dessa análise sincrônica é, portanto, que ela privilegia a simultaneidade dos elementos em detrimento da sucessão causal; a mira da análise não se encontra na passagem a-a’ que causa b-b’, como quando seguimos uma ordem de causas e efeitos; pelo contrário, o que ela nos descreve é que não existe mudança de (x1) para (x2) sem que haja transformações correlativas entre as relações formais constituintes do sistema. Os elementos se encontram determinados pela sua posição dentro dele e, exatamente por isso, uma transformação nunca é isolada, ainda que possa ser absolutamente pontual.
Disso, podemos extrair duas consequências maiores: primeiramente, tal análise, apesar de levar em consideração os elementos empíricos, não os considera de forma isolada. Ou seja, há um anti-atomismo nesta busca das relações sistemáticas entre os elementos. Em segundo lugar, ela sustenta que a relação entre elementos é coerente e transformável, ou seja, que os elementos constituem um sistema racionalizável. Dessa forma, mesmo que a sincronia faça recurso a categorias como acaso, ou arbitrariedade, ela de forma alguma pode ser considerada um irracionalismo, designação que está mais para o campo da injúria do que da análise. Pelo contrário, trata-se de um racionalismo ampliado em que se busca racionalizar formalmente campos atravessados por elementos arbitrários e aleatórios. Um pensamento sistêmico não é nem atomista, nem formalista, mas sim, relacional.
Dito isso, podemos dar um passo a mais: vejamos como tal método de análise pôde ser adaptado, conhecendo variações, a certas áreas das ciências humanas. Em uma comunicação feita no Japão em 1972 – “Revenir à l’histoire” (FOUCAULT, 2001a, 1136-1149) – Foucault nos dá diversos exemplos concretos sobre como o estruturalismo pode ser compreendido não como uma recusa da história, mas sim, uma tentativa de construir “um instrumental de uma análise histórica precisa”. Refaçamos, por suas qualidades didáticas, pontualmente tais exemplos:
Primeiramente, Foucault nos mostra por que o etnólogo americano Franz Boas fora considerado o fundador do método estrutural em etnologia. Em que consiste a invenção de Boas? Basicamente, ela é uma maneira de criticar a forma como comumente se fazia a ligação entre história e etnologia. Tradicionalmente, como nos mostra a obra clássica de Edward B. Taylor - Researches into the Early History of Mankind (1870) – a etnologia julgou que as sociedades humanas se desenvolveriam
em uma curva unívoca de evolução, indo das formas mais simples às mais complexas. Existiria um mesmo processo evolutivo percorrido por diferentes culturas, as diferenças seriam encontradas apenas entre velocidades distintas de progressão. A grande questão de Boas, diz Foucault, fora exatamente quebrar esse velho método histórico que determinava a etnologia e lhe tornava incapaz de apreender uma cultura diferente da nossa em sua sistematicidade própria. “(...) as sociedades humanas, sejam simples, sejam complexas, obedecem a certas relações internas que as definem em suas especificidades; este jogo interior a cada sociedade é o que Boas chamou a estrutura de uma sociedade.” (FOUCAULT, 2001a, p.1137) Lição de Saussure: para que o objeto de estudo possa aparecer em sua singularidade é preciso compreender sua sistematicidade interna. Tal estudo, antes de descartar a história, permite que ela apareça como um movimento de diferenciação constante e não como a contraprova de uma hipótese progressista. Daí o caráter descontínuo que uma análise estrutural desvela, para horror do racionalismo positivista, ou dialético21. Pois, a questão levantada é: afinal, de onde tiramos esta
estranha crença de que o real nos é dado em um fluxo constante, sempre passível de ser resignificado em uma unidade pressuposta e, portanto, necessariamente ahistórica? Um paradoxo surge: o historicismo precisa sempre lançar mão de algo ahistórico, seja a forma unitária do progresso, seja a direção irremediável de um telos. Não há historicismo sem uma dimensão - fora da história - que o funda. Por outro lado, com a análise sincrônica, trata-se de colocar a progressão em parêntese para favorecer a categoria de transformação, o que acaba por favorecer a aparição das diferenças internas e constitutivas dos diversos objetos analisados. Ou seja, ao colocar aparentemente o tempo entre parêntese a análise estrutural revela outra história: história de transformações não subsumidas a narrativa linear em que o passado esclarece plenamente o presente.
21A relação mútua entre dialética e positivismo já era sustentada por Foucault em As palavras e as coisas
quando este determinava a confusão de decalcar de uma análise empírica um fundamento transcendental:
“(...) mas deve existir também uma verdade que é da ordem do discurso – uma verdade que permita sustentar sobre a natureza ou a história do conhecimento uma linguagem que seja verdadeira. É o estatuto desse discurso que permanece ambíguo. Das duas uma: ou esse discurso verdadeiro encontra seu fundamento e seu modelo nessa verdade empírica cuja gênese ele retraça na natureza e na história, e ter- se-á uma análise de tipo positivista (a verdade do objeto prescreve a verdade do discurso que descreve sua formação); ou o discurso verdadeiro se antecipa a essa verdade de que define a natureza e a história, esboça-a de antemão e a fomenta de longe, e, então, ter-se-á um discurso do tipo escatológico (a verdade do discurso filosófico constitui a verdade em formação). A bem dizer, trata-se aí menos de uma alternativa que da oscilação inerente a toda análise que faz valer o empírico ao nível do transcendental. Comte e Marx são realmente testemunhas desse fato de que a escatologia (como verdade objetiva por vir do discurso sobre o homem) e o positivismo (como verdade do discurso definida a partir daquela do objeto) são
É exatamente isto que está em jogo no segundo exemplo de Foucault que diz respeito à aplicação do estruturalismo à literatura. Com Roland Barthes, sobretudo em “Le degré zero de l’écriture”, o que estava em questão, explica Foucault, era exatamente realizar “outra história da literatura”, história essa que não se reduziria ao nível do estilo, das escolas, ou dos cânones. Daí a noção de écriture em Barthes, certo nível específico capaz de fazer a literatura aparecer em seu espaço próprio de produção de signos, como um objeto que mesmo estando inserindo dentro das formas culturais de uma época, conhece regras de condição e transformação próprias:
esta ordem sacra de signos escritos coloca a literatura como uma instituição e tende, evidentemente, a abstraí-la da história, pois nenhum fechamento se realiza sem uma ideia de perenidade; ora, é aqui onde a história é renegada que ela age mais claramente; é então possível traçar uma história da
linguagem literária que não é nem a história da língua, nem aquela dos estilos, mas somente a história dos Signos da literatura, e pode-se esperar que essa história formal manifesta a sua maneira (...) sua ligação com a história profunda. (BARTHES, 1972, p.9, grifo nosso)
Ao “abstrair” a história, Barthes achava outro nível de historicidade, nível próprio à forma literária. A questão maior para uma história da literatura alterava-se. Não se tratava mais de perguntar “por que passamos de um estilo ao outro?”, ou “como organizar os grandes autores de cada época?”, mas sim, qual a diferença formal entre a literatura clássica de Racine e a literatura moderna? Qual é a especificidade desta, por exemplo, a partir de Flaubert e, posteriormente, de Mallarmé, quando da invenção da forma literária como espaço de linguagem autônomo ao campo de representação? Distanciando-se das análises psicológicas centradas sobre a função autor, ao mesmo tempo em que negava as grandes narrativas estilísticas construídas sobre uma série de generalidades, Barthes fazia surgir outra história: a história das formas literárias em sua autonomia própria22. “Uma nova
22A questão da autonomia da forma e a possibilidade de uma história que respeite a sistematicidade interna
de um objeto conhece um desenvolvimento para muito além da filosofia e das ciências humanas. É sobretudo nos debates estéticos que vemos essa problemática surgir e influenciar de forma definitiva aquilo que compreendemos como atividade crítica e modernidade estética durante todo o séc.XX. O problema da forma, como se sabe, fora colocada primeiramente pela música com o famoso estudo de Eduard Hanslick -
Vom Musikalisch-Schönen (1854). Lá, tratava-se de mostrar como a música era um sistema autônomo em
relação ao mundo e sua beleza própria deveria ser buscada não nos sentimentos e sensações subjetivas despertadas, mas sim, na logicidade interna do desenvolvimento formal de uma obra. Sendo, sem dúvida, a primeira arte a alcançar uma autonomia em relação ao paradigma da representação, a música já no final do séc. XIX e começo do XX, será atravessada por pesquisas que buscarão colocar em cheque a confiança que a tradição europeia depositara no tonalismo como sistema racional universal de organização do material sonoro. Adorno logo perceberá a importância da música de vanguarda do século XX para os debates concernentes a uma crítica da razão. Curiosamente, Foucault também. Em uma entrevista com Pierre Boulez, ele caracteriza a crítica a partir da problemática formal encontrada na música: “um trabalho
possibilidade de história literária”, diz Foucault (FOUCAULT, 2001a, p. 1138). Ao mesmo tempo, tal história revelava outra relação entre a forma do discurso literário e a literatura como instituição, como prática social. As dimensões sincrônicas e diacrônicas não estabelecem uma simples relação de reciprocidade causal, mas devem ser cruzadas