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Uma das formas de incentivar a frequência escolar passa por promover ações e atividades extracurriculares que vão ao encontro das suas preferências étnicas e culturais. A música e a dança foram as atividades mais reiteradas.

Música! Gostam de música e desporto, bastante. Construir, também gostam bastante de construir. Gostam não só de carpintaria, gostam de construir algo, gostam de inventar algo. São muito “construidores”. (Presidente da Associa-

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Os rapazes gostam sobretudo de jogar à bola. Como qualquer outro rapaz da idade deles. As raparigas gostam de ouvir música e de dançar. Gostam de ficar em família a jogar cartas na rua, todos em conjunto. Acho que é sobretudo a vivência mais social, estarem com a família toda, conversar, contarem piadas, rirem-se. É mais uma… eu noto que é uma comunidade muito unida em ter- mos familiares e que estão na rua a socializar. Isso é o que eu noto mais! (Coor-

denador da instituição, 30-34 anos).

As visitas a familiares são também muito importantes para a comunidade cigana, sendo o que mais fazem quando têm uma celebração ou mais tempo livre, comemoram em família ou combinam passeios familiares.

As visitas aos familiares é a grande… sim, é o que fazem mais é visitas a fami- liares, que é uma coisa muito muito valorizada, eu ainda não me tinha aper- cebido, pensei que fosse só porque, porque não tinham mais nada para fazer mas não, não é nada disso. É mesmo uma coisa valorizada. (Coordenadora do

Projeto Escolhas, 30-34 anos).

Olhe, aqui, na (nome de local), uma prática de lazer frequente é a reunião fa- miliar. Juntarem-se em família para festejarem, para comemorarem alguma coisa, ou para estarem juntos. (…) Vão muito aos centros comerciais, também.

(Técnica do Projeto Escolhas, 35-39 anos).

A nível até de música também têm... De lazer, portanto, têm até um convívio familiar porque há sempre que continuar a existir os grandes laços familiares e há nessa base as festas familiares, os casamentos... (Coordenador de projeto,

35-39 anos).

De seguida centraremos a atenção nas relações interpessoais entre ciganos e entre ciganos e não ciganos, bem como na religiosidade, que nos permitirá ter uma perceção mais abrangente sobre a forma como passam o seu tempo livre, mas também como mantêm contacto com o meio envolvente e as suas relações sociais.

No que diz respeito às relações que os ciganos mantêm, foi referida a existência de uma grande união entre eles face às pessoas de fora. Além disso, embora existam relações entre ciganos e não-ciganos, esta tende a não ser muito próxima, até por questões de des- confiança e medo. Não há, no entanto, muitos conflitos com não ciganos, exceto quando pertencem a outras “minorias” (como foi referido, “africanos”, “brasileiros” e “chineses”).

Embora tenham sido relatadas relações de amizade e até casamentos com indivíduos de origem “africana”, os discursos deixam transparecer tensões e conflitos, principalmente com os “africanos”.

Um africano a um cigano, portanto isto depois andou aí, dentro desse mês, um mês e tal, assim mais complicado, vai e não vai havia aí complicações. Mas aí o cigano tem muito medo do africano porque o africano traz dos outros lados. É mais o cigano fala, fala, fala, manda vir e faz espetáculo mas depois acaba por não ir mais do que isso, os africanos não. Daqui, das coisas que me vão contando, eu sei que acabam por ter mais medo dos africanos (Coordenadora

de Projeto, 30-34 anos).

E depois é o problema das escolas, que eles hoje em dia… Aqui a Escola (nome de escola), que é onde eles estão, é uma escola muito complicada, muito pro- blemática, todos os dias há problemas, todos os dias há confusões…os negros e os ciganos, é uma coisa impressionante (Responsável de Centro, 50-54 anos). Não existe uma harmonia completa, mas dão-se bem. Estes ciganos que vivem aqui dão-se bem com os outros, inclusive com os descendentes de africanos. Dão-se bem, não tem havido conflitos entre eles. Há abertura. Não há é festas em conjunto nem… mas há uma abertura penso eu. (Coordenador de institui-

ção, 30-34 anos).

A comunidade não é aberta a eles, eles também não são muito abertos à co- munidade. É uma relação difícil, de convivência difícil. De se desviarem deles, e eles andarem pelas ruas e as pessoas terem medo deles. (Diretor de serviços,

40-44 anos).

Ainda assim, há exemplos de outras comunidades em que estes conflitos entre africanos e ciganos são residuais e onde a tendência referida é para se respeitarem mutua- mente e até, por vezes, aderirem a iniciativas conjuntas. Tal ocorre, sobretudo, entre os mais jovens, e envolve a prática desportiva (por exemplo, jogos de futebol) e outras atividades lúdicas.

Andam, fazem! E por exemplo no Verão, que é altura de jogar cartas, muitas ve- zes estão a jogar os ciganos com os pretos. Com africanos… não dizendo pretos

(117) Ainda quanto à relação entre ciganos e não ciganos, foi revelado que esta tem me- lhorado não tanto porque existam relações mais próximas mas porque os ciganos tendem a se isolar e a evitar conflitos desta forma. Em geral, no quotidiano, nas áreas de intervenção referidas, não costumam acontecer situações de conflitualidade. De referir ainda o facto de no plano da relação com as instituições, existirem frequentes acusações, por parte da popu- lação não cigana, de que as instituições ajudam mais os ciganos do que os não ciganos.

A população cigana, embora, como já foi referido, estabeleça relações com indivídu- os de outras minorias étnicas, tem um convívio muito pontual e circunscrito com as mes- mas, por exemplo, nos locais públicos e comércio de bairro mas sem grandes proximidades. Também nos foi transmitido que esta tendência para o fechamento por parte dos ci- ganos começa logo a verificar-se muito cedo e quando ainda são crianças. Mesmo na escola, na hora do recreio, foi salientado que as crianças ciganas têm uma predisposição muito maior para se relacionar com outras crianças ciganas. Também foi referido o facto de os ciganos não se sentirem muito confortáveis quando saem fora dos espaços onde moram. “Como é que eu hei-de dizer, (…) não há muito à vontade em participarem em iniciativas,

agora se forem iniciativas dentro do espaço que eles habitam é mais fácil para eles.” (Presi-

dente de IPSS/Técnica em Entidade do Poder local, 50-54 anos).

Em relação aos papéis de género, há diferenças entre os papéis dos homens e das mulheres ciganos e no modo como encaram a pessoa idosa.

Na comunidade cigana, a mulher é rainha, é rei! Ela é que manda. Portan- to quem pode desfazer o casamento é ela, o homem não pode. E dizem que a gente trata mal as mulheres, não trata! Isso é completamente errado, isso é a opinião pública que têm as pessoas. A mulher é rei, ela é que governa tudo, ela é que toma conta da massa. Coisas que são muito importantes na comunidade cigana é o respeito. Acho que o que custa mais a encaixar da vossa cultura é o respeito, vocês não têm muito respeito uns pelos outros e pelos mais velhos. Duas bases importantes na comunidade cigana: honra e respeito. Honra e ser respeitado. Em tudo! (Presidente da Associação/Técnico no Projeto Escolhas,

30-34 anos).

Sim, claro, então, bom deve ser apenas para confirmar o que já sabe, não é? O papel dos géneros, sim, a mulher é confinada na esfera doméstica da família enquanto o homem tem uns papéis que são mais para fora de casa, a educação dos filhos é totalmente encarregue à mulher, hum que mais… não há cruza- mento, não sei como dizer, não há… não pisam os limites, a mulher não se mete

nos assuntos do marido, e o marido não se mete nos assuntos da casa. (Coorde-

nadora do Projeto Escolhas, 30-34 anos).

Em termos de relações interpessoais, foi mencionado várias vezes o facto de quan- do existe algum conflito com algum indivíduo da comunidade cigana, emerge de imediato uma reação grupal muito forte, ou seja, toda a família se envolve, o que que poderá compro- meter o trabalho dos técnicos.

Eles, e até muitos problemas que eles têm entre eles tem a ver com famílias, porque eles explicam-nos se há uma briga entre nós, a minha família tem que passar automaticamente a ficar contra a família dela, são rivais e mesmo que não sejam os estão diretamente em conflito. (…) A família responde por um todo mesmo. (Técnica do Projeto Escolhas, 35-39 anos).

Basta haver um desentendimento com quem quer que seja que eles se metem todos ao barulho, e nós dizemos “mas porque é que vocês se metem nisso, dei- xem lá. E eles, não! Porque eles depois são logo meus inimigos, mais vale eu ir e tentar ajudar o meu primo, porque… pronto, eles vão logo atrás. (Animadora

no Projeto Escolhas, 30-34 anos).

Sim, eles dizem que valorizam, na família, valorizam imenso o casamento, a virgindade, o ter filhos e realmente nota-se que há aqui uma coisa enorme entre as famílias. Se há algum problema com um, vêm logo todos os outros defender. Eles são muito ligados. Gostam de dizer que são primos deste e daquele. E se acontece alguma coisa com um primo... Nem que não seja irmão é como se fosse irmão. Põem a família à frente de tudo. Ainda esta semana houve um corta-mato na escola e um miúdo contou-me que ia em segundo lugar, mas que um primo caiu, que tinha asma e que estava muito aflito, e ele parou tudo só para ficar a socorrer o primo, quando podia ter ganho o corta-mato da escola, que é uma coisa tão importante para eles, que é a forma que têm de se salientar perante os outros. E aí é que se mostra realmente a importância que eles dão à família. (Coordenadora do Projeto Escolhas, 30-34 anos).

(119) outras palavras em português. A este propósito, regra geral, na perspectiva dos entrevista- dos (não ciganos: técnicos interventores locais), as palavras em caló são utilizadas quando se quer excluir alguém, normalmente não cigano, de uma conversação entre ciganos.

Muito pouco (…) Eu, por exemplo, noto, ao longo destes 30 anos, noto, mesmo com as miúdas mais velhas que já são mães… (…) Mas hoje estas crianças já não falam tanto assim. E é engraçado, se eu for ao bairro com uma pessoa des- conhecida, as senhoras entre elas – quando querem dizer alguma coisa que não querem que aquela senhora saiba – falam romani entre elas. E é engraçado que elas fazem muito isso. (Responsável de Centro, 50-54 anos).

Epá isso é uma coisa incrível, que depois de tantos anos, de tantas coisas par- tilhadas eu ainda é uma coisa que ainda tenho dificuldade em perceber… eu acho que sim, eu acho que sim, muitas vezes apanhei pessoas a falarem Caló.

(…) Mas depois quando pergunto dizem que não. E há montes de coisas que

eles, segredos que não desvendam, há muitos deles. (…) Mas não consigo, não consigo perceber até que ponto é folclórico, até que ponto é utilizado apenas para eu não perceber naquelas alturas, se quando eu vou embora passam ao português, se continuam a falar Caló, isto não consigo perceber porque não…

(Coordenadora do Projeto Escolhas, 30-34 anos).

(…) Muito raros, muito raros. Apanhei uma vez isso, em frente ao tribunal, para

alguém não perceber. Foi essa a ideia que tinha, porque eu nunca os tinha ou- vido a falar assim e conheço-os há muitos anos, ou seja, falam normalmente. Não lhes sai assim fluentemente, agora se calhar sabem-no para usarem quan- do lhes der vantagem. (Diretor de serviços, 40-44 anos).

(…) Os portugueses às vezes também falam uma espécie de romanon. Mas acho

que há uma adaptação. (…) Quando querem falar sem que nós percebamos, ou partindo do princípio que nós não estamos a perceber, falam entre eles o diale- to. (…) Depois há um grupo que são os galegos, os ciganos galegos, que também são portugueses mas falam o português misturado com o espanhol, misturado com o romanon. (Coordenador de Projeto de Associação, 35-39 anos).

Em síntese, dos discursos dos entrevistados emergem algumas pistas sobre os mo- dos de vida dos ciganos e que serão analisados mais aprofundadamente de seguida, nome-

adamente, as condições de saúde, o acesso a prestações sociais, as condições de habitabili- dade, a educação, o emprego e formação profissional, as relações interpessoais, a discrimi- nação, o racismo e o preconceito e as perceções relativamente às perspetivas de integração dos ciganos e as políticas públicas.

Um dos fenómenos que parece ter uma certa vivacidade e formas de expressão reno- vadas entre as populações ciganas relaciona-se com as pertenças e práticas religiosas. Os ci- ganos residentes nos territórios contactados são sobretudo evangélicos e devotos da Igreja de Filadélfia, e muitos deles costumam ir com regularidade ao “culto”, valorizando imenso essa prática, algo que vai de encontro à pluralidade dos modos de vida, já evidenciada pe- los investigadores acima mencionados. Nenhum dos entrevistados nos soube informar se haveria adesão a algum outro tipo de religião evangélica que não fosse a Igreja de Filadélfia. Contudo, asseveram que há um claro crescimento da presença do culto evangélico da Igre- ja de Filadélfia, já notada por diversos investigadores (Blanes, 2006; Rodrigues, 2013) em contexto nacional. Os atores institucionais e mediadores que contactámos fizeram alusão à centralidade do culto no quotidiano de muitas famílias ciganas.

Porque muitas vezes, eles depois vêm-nos dizer «oh doutora, veja lá porque se não sei quê eu tenho o culto». «Não posso porque tenho o culto». E nós também não queremos colidir com essa parte que para eles é importante não é? (Coordenado-

ra de Protocolo de RSI, 30-34 anos).

As comunidades com quem eu trabalho sim, muitos fazem parte da religião evangélica de Filadélfia, não é. (…) Vão ao culto de uma forma muito, muito séria, uma coisa pesadíssima, três ou quatro vezes por semana, duas horas, é uma coisa pesadíssima! Dão muito valor ao batizado dos jovens lá por volta dos 12, 13, 14, 15 anos, dão muito muito valor, vão aos cultos… são valores que lhes guiam não é, por exemplo, uma vez, muitas vezes, dizem ai não posso mentir, porque sou do culto não posso mentir, realmente vê-se que aquela pessoa tem, interiorizou aqueles princípios e segue-os. (Coordenadora do Projeto Escolhas, 30-34 anos).

Sim. Eles vão ao culto, penso que seja evangélico. Têm essa ligação com a reli- gião. Que eu acho que tem sido uma mais-valia também para esta comunida- de. Tem dado aqui alguns valores e tem feito com que haja aqui melhor estru- turação, maior integração na sociedade. (Coordenador da instituição, 30-34

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Sim, de Filadélfia, sim, mas que aqui quase existe três na (…), uma no bairro, cada um frequenta e os pastores de facto têm uma grande incidência nas de- cisões tomadas. Tivemos um problema que teve também o peso da decisão do pastor, que foi as meninas do (…) que acompanhávamos e que estavam no… deviam prosseguir para o 5.º ano, não prosseguiram por decisão do pastor. É esse… Ou seja, o nosso poder e a nossa influência acaba por esbarrar, não é na vontade e naquilo que conseguimos trabalhar com as famílias, mas depois com outros… outras frentes. (Técnica do Projeto Escolhas, 35-39 anos).

É perceção de alguns atores institucionais de que para os indivíduos que frequen- tam o “culto” existem mais regras e imposições do que para aqueles que não o frequentam. De acordo com estes informadores, a “ida ao culto” não tem trazido nem uma maior eman- cipação nem valorização do papel da escola, o que de alguma forma contraria o que dizem certos autores para quem a Igreja Evangélica em geral tem sido um importante motor para a implementação da escolarização (Rodrigues, 2013). Muitas vezes a “ida ao culto” é vista pelas jovens como uma oportunidade de encontrar um marido, de “fazerem um bom casa- mento”, tornando-se um espaço de socialização importante.

Muitas vezes, e nós vemos isso, as meninas ciganas vão completamente, mas mesmo bonitas para igreja, de saltos altos, pintadas, cabelo arranjado, para arranjar um noivo porque dentro do culto é mais fácil arranjar um noivo e alguém que a família aprova. E depois isso acaba, assim que escolhem o noivo e ficam prometidas acabou. Mas muitas vezes vão super arranjadas, mesmo bonitas (Coordenadora de Protocolo de RSI, 30-34 anos)

Esta participação no culto da Igreja Evangélica da Filadélfia é algo que pode ter consequências importantes e positivas tanto para os indivíduos como para os grupos fami- liares, moldando mesmo as suas práticas sociais e é um facto incontornável a sua implanta- ção e papel preponderante que assumiu entre as pessoas ciganas em Portugal.

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