Para Laplanche e Pontalis (1987/1991), o objeto pode tratar-se de uma pessoa ou de um objeto parcial, de um objeto real ou de um objeto fantasístico. Chatelar (2009) indica que, inicialmente, a pulsão sexual está voltada para o seio materno como objeto parcial e que a criança ainda não tem concepção da mãe como um todo.
Na concepção freudiana de princípios do prazer e da realidade (FREUD, 1911), a libido dirige-se aos objetos, apenas quando eles se mostram úteis para reduzir a tensão promotora do desprazer (CELES; SANTOS; ALVES, 2006). Loparic (1996) mostra que, para Freud, é o funcionamento do aparelho corpóreo que determina as formas de relacionamento com o objeto. A noção de objeto em Freud, de acordo com Green (2000), é um conceito vasto e polissêmico, que tende entre uma forte ligação à pulsão, sendo este um aspecto originário da constituição da subjetividade e os objetos secundários, ou por outra posição metapsicológica que considera os objetos como determinantes originários na constituição da subjetividade, que vieram posteriormente a influenciar teóricos como Lacan e Winnicott (COELHO, 2001).
As teorias de relações de objeto surgem de forma efetiva em Melanie Klein e Fairbairn, que defendem que a intensa dependência do objeto e como este responde às necessidades mais fundamentais e básicas é o que determina a constituição psíquica e o desenvolvimento da personalidade. De acordo com Celes, Santos e Alves (2006), a personalidade forma-se a partir das relações objetais e das suas incorporações e identificações, pelo que o objeto também é dito interno, sendo o objeto representado, assimilado ou incorporado. Seguido de Fairbairn, Abraham desmembrou a noção clássica de
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objeto e de estádio e substituiu o objeto total pelo objeto parcial, pela maneira como o sujeito se constrói numa relação com objetos parciais (ROUDINESCO, 1944/ 1998; ODGAN, 2004).
Nessa abordagem, Melanie Klein descreveu um modelo que privilegia as relações de objeto primitivas e duas posições evolutivas, sendo estas esquizoparanóide e depressiva, que todos os sujeitos atravessam durante o quarto mês de vida e vão sendo superadas ao longo da infância, voltando a surgir na vida adulta de maneira mais ou menos intensa. Klein elaborou o conceito de clivagem no objeto, a fim de distingui-lo em objeto bom e mau. O objeto parcial, como o seio, foi clivado num seio ideal, objeto do desejo da criança (objeto bom), e num seio persecutório, objeto de ódio e de medo, visto de forma fragmentada. A posição esquizoparanóide surge associada ao objeto mau, resultando numa vontade de destruição sobre a mãe. Estes são reflexos da tentativa de se apoderar do objeto mau que prejudica. Também, nesta posição, ocorre a mudança do biológico para o impessoal-psicológico, onde “acontecem” pensamentos e sentimentos ao bebê, em vez de ele poder pensá-los e senti-los, pelo que é caracterizado um estado de “Isso-dade” (Id-dade), no qual o self existe apenas na condição de objeto. Já na posição depressiva, é internalizado um objeto bom, que faz surgir a necessidade de preservação.
Desse confronto, resulta uma relação entre a pulsão de vida e a pulsão de morte, que sendo bem desenvolvida, possibilitaria ao bebê a capacidade de internalizar ambas e entendendo que o seio representa o bom e o mau simultaneamente, a criança desenvolve uma reparação, internalizando a mãe, então, para protegê-la de sua capacidade destrutiva. Através dessa maturação biológica, o bebê com a mediação do processo psicológico interpessoal da identificação projetiva, através da mãe, possibilita o surgimento de um “Eu subjetivo”, capaz de desenvolver uma subjetividade própria, e tornar-se alguém que pensa, um self. Segundo Ogden (1986/1989), Eu torna-se intérprete dos próprios símbolos, adquirindo capacidade mediadora para ser intermediário entre o próprio self e a vivência sensorial. O bebê torna-se o próprio sujeito que interpreta (FIGUEIREDO, 2006; GAMMILL, 2007; GROSSKURTH, 1990; OGDEN, 1986/1989; SEGAL, 1975; TYSON; TYSON, 1990).
Com estas duas noções, a teoria kleiniana das posições abandona os estádios e conceitua-se de acordo com um sistema em que o mundo fantasístico do eu, do self, do objeto, da projeção, da identificação e da introjeção organiza-se numa estrutura coerente e distinta do mundo da realidade objetiva (ROUDINESCO, 1944/ 1998). A partir desta ideia, houve uma reformulação de objeto em psicanálise e vários teóricos trouxeram importantes
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contribuições, tais como a noção de objeto transicional de Winnicott e de objeto (pequeno) a, de Lacan, como veremos em seguida.
Winnicott (1988, 1954), ao contrário de Melanie Klein, não considerava os fatores de ordem interna tão importante quanto os externos. O ambiente e, principalmente, o papel da mãe, são cruciais no desenvolvimento do funcionamento mental da criança, que passa de uma postura edípica a uma bipessoal, do falo ao seio, do triangulo à relação com a mãe. A mãe, suficientemente boa, atua como construtora do espaço mental e como o “ego-auxiliar” da criança. Através do seu amor, possibilita ao bebê a ilusão de que o mundo é criado por ele, sendo essa percepção criativa da realidade fundamental para que a criança possa formar o seu verdadeiro self. Segundo Winnicott, a falta de holding adequado, ou seja, a incapacidade materna de interpretar as necessidades da criança, provoca um falso self, que cobre o verdadeiro self. Para o desenvolvimento saudável, a criança necessita de construir um lugar para viver, ou a base do self no corpo, que se processa em três espaços psíquicos: o interno, o externo e o transicional, que se desenvolvem na relação entre a criança e o ambiente. O espaço transicional é uma zona intermediária, que vai do narcisismo primário ao julgamento de realidade. Na relação com os objetos, inicialmente, não há distinção entre objetos internos e externos. A delimitação entre ambos viria com a maturação psíquica e, para tal, a criança necessitaria de um objeto transicional, como um brinquedo, animal de pelúcia ou pedaço de pano, que lhe permita efetuar a transição necessária entre a primeira relação oral com a mãe e uma verdadeira relação de objeto, ou seja, que alivie a angústia da separação na transição da relação fusional, de um não-eu, para uma simbolização da realidade objetal, o eu (ABRAM, 2001; BLEICHMAR; BLEICHMAR, 1992; DAVIS; WALLBRIDGE, 2002; GURFINKEL, 1998; LEHMANN, 2003; JAEGER, 1999; MORAES, 2013; ROUDINESCO, 1944/1998; SANTOS, 2008).
Na visão de Jerusalinsky (1989/ 2004), o objeto transicional é uma descoberta fundamental de Winnicott, uma vez que “(...) particulariza o conjunto de fenômenos que, com o mesmo nome de ‘transicionais’, aludem à substituição de objeto de desejo” (JERUSALINSKY, 1989/ 2004, p. 157). Segundo o mesmo autor, a relação transicional que a mãe tem com a criança, e não como realidade fálica definitiva, permite à criança aceder ao discurso social em vez de ficar presa no fantasma materno. A relação com o objeto transicional seria o lugar de interação do Simbólico e do Imaginário.
Para Winnicott (1990), essa passagem seria um estabelecimento da relação com a realidade externa, uma vez que inicialmente a mãe fornece uma perfeita adaptação à
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necessidade do bebê, para que ele crie a ilusão de ter criado objetos externos. À medida que decresce a capacidade de adaptação às necessidades (emocionais), o bebe vê-se confrontado a lidar com esta mudança tendo inúmeras possibilidades de aceitar e até mesmo utilizar a desilusão. O bebê vai explorando lentamente esse terceiro mundo, ilusório, que não pertence ao mundo externo nem ao interno, quer em objetos transicionais (como um cobertor) como em experiências transicionais. Segundo Winnicott:
A partir desses fenômenos transicionais, desenvolve-se grande parte daquilo que costumamos admitir valorizar de varias maneiras sobre o titulo de religião e arte, e também derivam aquelas pequenas loucuras que nos parecem legitimas num dado momento, de acordo com o padrão cultural vigente (...). Na religião e nas artes vemos essa reinvidicação socializada, de modo que o indivíduo não é chamado de louco e pode usufruir, no exercício da religião ou na prática e apreciação das artes, do descanso necessário aos seres humanos em sua eterna tarefa de discriminar entre os fatos e a fantasia (WINNICOTT, 1990, p. 122).
Ou seja, voltar a ser amado e integrado no seu estado narcísico omnipotente. Relativamente ao processo do expert, pode ser possível que o objeto de estudo tenha sido um “objeto transicional”, caracterizando uma passagem entre o mundo interno e o externo, apresentando uma condição profunda com o inconsciente do sujeito. Se considerarmos esta hipótese, relacionando com o caráter sublimatório, este seria necessariamente um retorno à posição narcísica primária, que remeteria a um estado de onipotência.
Na perspectiva de Zimerman (1999), a teoria de Bion estabelece um equilíbrio, entre o meio externo (valorizado por Winnicott) e o mundo interno (por Klein), para a formação e desenvolvimento do psiquismo humano. Para Bion, todo o desenvolvimento psíquico tem a sua base nos vínculos humanos, particularmente na relação mãe/bebê. Nesta teoria, os vínculos são componentes inconscientes que se estabelecem na vivência emocional, e que carregam sempre emoções de amor, raiva e conhecimento. Segundo Bion, a criança nasce num estado de indiferenciação indivíduo-ambiente, em que a sua pulsão começa a atuar na primeira elaboração psíquica. Posteriormente, a pulsão torna-se secundária na medida em que a emoção é confundida com as sensações nos primeiros vínculos de amor, ódio e conhecimento.
O pulsional pode ser, então, considerado como uma qualidade dos vínculos de amor, ódio e conhecimento. Tal desenvolvimento só é possível a partir dos vínculos com a mãe e como esta aborda inconscientemente as emoções do bebê. Para isso, Bion descreve que há uma relação de continente/conteúdo, na qual a mãe é o continente, capaz de absorver e
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metabolizar as angústias do bebê, para que posteriormente ele próprio possa assumir essa função, resultando nas posições descritas por Klein. No confronto psíquico de uma nova experiência emocional, acontece uma desorganização psíquica (Ps), que, sendo ultrapassado, cria um novo estado, mais organizado (D), resultando num aprendizado. As transformações na mente do sujeito (Tp), que acontecem na situação projetiva, dependem sempre dos vínculos de amor, ódio e conhecimento, e da qualidade mais ou menos flexível da função continente e da qualidade da função de rêverie. As funções da personalidade do sujeito estarão ligadas diretamente com a problemática da tolerância/intolerância à frustração (realização negativa), onde pode ocorrer uma frustração em pensamento (e em produção projetiva) ou a fuga e a criação de não pensamento em estado de recusa. A forma como o sujeito tolera a dúvida, a incerteza e a dor mental, irá constituir o núcleo da sua personalidade (ANZIEU, 1989; BION, 1962, 1965; DELGADO, 2009 ; GEISSMANN, 2001; HINSHELWOOD, 1989 ; SCHMID-KITSIKIS , 1999; SILVEIRA, 2007).
Nessa transição de desorganização psíquica (Ps) para um estado mais organizado (D), é particularmente importante o mecanismo de autorregulação utilizado por experts, que fará o sujeito sair de um estado caótico para um estado de ordenação. Além disso, podemos levar em conta que o expert abdicou do princípio do prazer em prol do princípio da realidade ao ser capaz de tolerar as frustrações de um caminho demorado como o da aquisição da expertise (GOMES, 2008).
A pesquisa de Lemos (2010) salienta ainda que
Todas essas transições, contudo, segundo Bion (2007), devem ser pendulares, ou seja, são interativas durante todas as etapas de vida do sujeito. Fácil entender tal entendimento, haja vista que sempre haverá um início baseado no caos, na desintegração, na dependência, no princípio prazer, no eu ideal; para passar, então, para a ordem, a unificação, a autonomia, princípio da realidade e o ideal do eu; a seguir, o ordenado volta a se desorganizar, para se integrar novamente, e assim por diante. Esse é o caminho de organização e construção de conhecimento, tão elaborado pelo expert (LEMOS, 2010, p. 63).
A função dos pais, principalmente da mãe (como foi abordada em Klein e Winnicott), torna-se extremamente importante para a consolidação psíquica do sujeito face às frustrações com o objeto de estudo.
Portanto, o presente estudo se apoiará em parte na teoria psicanalítica, embora não se trate de uma investigação clínica – permeada pela transferência, pelo sujeito suposto saber, como no setting analítico.
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Mesmo assim, buscará algumas respostas que apontem indícios de dimensões objetivas e subjetivas de acordo com as precepções que o sujeito possui sobre o seu próprio desejo de saber, a participação de sua família no processo, e da relação que estabelece com o instrumento musical e com a música especificamente, de certa forma, estruturante da sua personalidade.
O modo como o sujeito tenta dar conta do desejo do Outro na sua organização psíquica, distingue as várias formas que o objeto assume, nos diferentes estádios, bem como a sua estrutura em torno do objeto de estudo escolhido e a forma como estes se relacionam.
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