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A estrutura agrária brasileira foi, sistematicamente, questionada pelo menos desde os anos de 1950 com o surgimento dos primeiros movimentos camponeses, como as Ligas Camponesas e, também, por uma intelectualidade de esquerda que já preconizava a necessidade de uma reforma agrária. Foi nesse período que o latifúndio e suas formas inerentes de produção e reprodução do trabalho passaram, gradativamente, a serem vistos como um problema da sociedade brasileira - juntamente com tudo aquilo que contrastava com o extraordinário desenvolvimento urbano- industrial experimentado no período. Depois do refluxo experimentado pelos movimentos sociais durante o regime militar, a estrutura agrária e o latifúndio improdutivo voltaram a ser questionados com toda força a partir da redemocratização do país e do ressurgimento dos movimentos sociais, em especial o MST.
O agronegócio, porém, revigorou o latifúndio do desgaste ideológico que esses movimentos conseguiram, de certa maneira, lhe imprimir. O latifúndio, instituição que mais remetia ao passado escravocrata, mandonista, miserável e colonial, ganhou, a partir dos anos de 1980, uma roupagem ultramoderna. Ideologias como a da suposta "vocação agrícola brasileira" alimentada pelo reviver do "pensamento dualista" ganharam novo impulso no imaginário neodesenvolvimentista do fim do século XX no Brasil. O índice de produtividade do
agronegócio, auxiliado pelos pacotes tecnológicos e pelas políticas públicas em seu favor, juntamente com a forte propaganda deslocaram o debate em torno da reforma agrária radical para a questão de cunho economicista da produtividade.
O MRAM, associado às políticas públicas para o agronegócio, à criminalização dos movimentos sociais, às pressões exercidas pelos ruralistas no legislativo, e ao suporte ideológico do agronegócio, reconfigurou a conjuntura da luta pela terra. Aportado por esses novos elementos, o latifúndio, sozinho, deixou de ser o principal problema para o desenvolvimento da agricultura camponesa. Entretanto, as ocupações de terra não só persistiram ocorrendo como ampliaram-se e prosseguiram fazendo frente a esse conjunto de elementos do agronegócio. Dessa forma, continuam sendo combatidas dentro e fora do Estado pelo setor agroindustrial (FERNANDES, 2008).
Por essa razão, as ocupações de terra são uma afronta ao agronegócio, porque essa prática secular de luta popular encontra-se fora da lógica de dominação das relações capitalistas. Assim, o sacro agronegócio procura demonizar os movimentos socioterritoriais que permanentemente ocupam a terra. Na última década, o espaço político mais utilizado foi a judicialização da luta pela terra, em que o poder judiciário se apresenta como uma cerca intransponível aos sem-terra. Para não manchar sua imagem, o agronegócio procura desenvolver políticas de crédito e ou bolsas de arrendamento, de modo a trazer os ocupantes de terra para o território do mercado (FERNANDES, 2008 p. 48-49).
Nosso campo empírico, o Encontro Nacional de Violeiros do MST, insere-se neste contexto de disputa por duas lógicas distintas que pautam a modernização agrícola. Deter-nos- emos, no terceiro capítulo, mais detalhadamente na contextualização das ações e concepções do Movimento que se alteraram para lidar com essa nova realidade. Por localizarem-se na região da "capital nacional do agronegócio", ocorreram iniciativas pioneiras na realidade dos assentamentos dessa região. Uma delas foi a implantação do modelo PDS (Projeto de desenvolvimento Sustentável)45
, trazido de projetos de assentamentos da região amazônica, que prevê iniciativas ambientais e socioculturais que vão além da preocupação somente com a distribuição de terras.
Além disso, a origem urbana dos trabalhadores acampados passou a ser uma realidade que não podia mais ser desprezada pelo movimento. Nesse sentido, destacam-se os ideais de "recampesinação" e "ressocialização" dos acampados e assentados que passaram a fazer parte de
45 "O PDS é uma modalidade de projeto de assentamento de interesse socioeconômico e ambiental, que se destina a
atender a demanda social pela terra desenvolvendo atividades produtivas de baixo impacto ambiental em sistema produtivo agroecológico e em modo de produção associativo" (SCOPINHO, 2012, p. 25, nota de rodapé 1).
um conjunto de trabalhos de formação política, social e cultural do Movimento. A ideia de "enraizamento" passou a ser de fundamental importância na luta pela terra, pois essa categoria dialoga com o processo histórico amplo do tipo de desenvolvimento capitalista ao qual o desenraizamento de trabalhadores rurais foi inerente. Segundo Scopinho (2012), as trajetórias sociais dos trabalhadores assentados no Assentamento PDS Sepé Tiaraju, inscrevem-se neste processo.
Uma confluência de fatores muito específicos naquele período e naquela região deu origem a um conjunto de iniciativas que formaram o Encontro Nacional de Violeiros, com o objetivo de valorizar a cultura caipira como enfrentamento ao agronegócio pela via cultural. Nossa inserção neste campo empírico nos fez crer que a valorização da cultura caipira, como parte de trabalho de formação do MST, teve como ideal o enraizamento dos assentados através de um trabalho de ressocialização e recampesinação.
Acreditamos que a cultura caipira aparece nesse contexto como um instrumental de elementos que, ao ser valorizado, contém uma crítica inerente ao modelo agrícola do agronegócio. Este representa a continuidade de um modelo de modernização tipicamente dualista responsável, historicamente, pela depreciação do modo de vida caipira e das condições de vida dos trabalhadores rurais em geral. Diante da realidade atual em que esse processo avança fortemente, elementos da cultura caipira como a solidariedade vicinal, a margem de lazer, a "vida simples", a "resistência em adaptar-se”, a relação com a terra, o conhecimento tradicional, entre outros que verificamos nos discursos do Encontro, foram ressignificados através dos ideais de ressocialização e recampesinação.
Esse tipo de crítica que apela para o passado é, muitas vezes, interpretado como conservadora, porém, Thompson (1998) nos dá elementos para interpretá-la de outra forma:
Como o capitalismo (ou seja, o “mercado”) recriou a natureza humana e as necessidades humanas, a economia política e seu antagonista revolucionário passaram a supor que esse homem econômico fosse eterno. Vivemos o fim de um século em que essa ideia precisa ser posta em dúvida. Nunca retornaremos à natureza humana pré-capitalista; mas lembrar como eram seus códigos, expectativas e necessidades alternativas pode renovar nossa percepção da gama de possibilidades implícita no ser humano (THOMPSON, 1998, p.19).
No mesmo sentido, Weil, ao tratar da "doença do desenraizamento" e do "enraizamento", explica que:
O amor pelo passado não tem nada a ver com uma orientação política reacionária. Como todas as atividades humanas, a revolução extrai toda a sua seiva de uma tradição. Marx sentiu-o tão bem que fez questão de fazer remontar essa tradição às idades mais remotas
fazendo da luta de classes o único princípio de explicação histórica. (WEIL, 2001, p. 50).
É justamente o fortalecimento de valores tais como a solidariedade,a conservação dos recursos naturais, as práticas anticonsumistas, entre outras, que o MST procurou tratar nos Encontros como estratégia organizativa para os assentamentos rurais na Região de Ribeirão Preto.