5.3 Discussion of results
5.3.9 Amino acids
Analisar os desafios do espaço urbano envolve uma série de conceitos que permeiam e auxiliam no entendimento dos fatores que influenciam nas condições de vida da população. Alguns deles são: Pobreza, Privação e Desigualdade Socioespacial. Conhecer e debater esses conceitos são de extrema relevância não apenas para entender o panorama contemporâneo do espaço urbano marcado pela segregação social, mas também, para nortear a implementação de políticas e intervenções de melhoria das condições de vida da população.
De acordo com o Informe sobre o Desenvolvimento Humano (ONU, 2010), a pobreza engloba a negação de oportunidade de escolhas mais elementares do desenvolvimento humano. Trata-se da parcela da população que não tem acesso ao mínimo de condições necessárias a sobrevivência e, portanto se encontram em situação de miséria. Esse fenômeno pode ser entendido também a partir da dimensão sociopolítica, com uma relação historicamente determinada entre grupos sociais. Essa relação envolve uma significativa parcela da população sendo privada dos meios que viabilizem atingir adequados níveis de bem estar social (REED; SHENG, 1997).
Rocha (1999) afirma que grande parte da população mundial vive em situação de pobreza. A persistência dos elevados níveis está relacionada
diretamente à baixa renda dos países mais pobres que não conseguem garantir o mínimo indispensável para a sobrevivência de todos os indivíduos. Contudo, países como o Brasil, mesmo com renda média nacional elevada, continuam a apresentar níveis elevados resultantes de uma má distribuição de renda, alicerçados em evidentes desigualdades sociais regionais. “Portanto, mesmo em países com crescimento econômico, níveis altos de pobreza podem existir, se não houver equidade na distribuição de renda” (MACHADO, et al., 2009, p. 20).
[...] a pobreza pode ser analisada sob duas concepções: a concepção absoluta, em que o indivíduo não dispõe requisitos mínimos considerados necessários a uma sobrevivência digna; e a concepção relativa, em que os indivíduos são considerados pobres, quando estão em situação inferior em relação à situação média da sociedade (FAVA, 1984 apud MACHADO, et al., 2009, p. 4).
Ambas as concepções apresentadas por Fava (1984) e reforçadas por Machado (2009), demonstram a complexidade do conceito de pobreza, que de um lado é entendida como sendo parte da população que vive abaixo da linha da pobreza (na miséria), sem condições mínimas de sobrevivência; e por outro lado da parcela da população que se encontra abaixo da média de renda da população (forma de mensurar pobreza dos Estados Unidos da América). Essa última concepção é menos usual na maioria dos países, visto que se analisado comparativamente a renda entre eles, uma pessoa poderia ser considerada pobre nos desenvolvidos e considerada rica nos subdesenvolvidos. Tradicionalmente, a pobreza tem sido considerada como a falta de uma renda mínima necessária para satisfazer as necessidades humanas básicas (MASTERS; WICKSTROM, 2004; SAUNDERS, et al., 2008).
O conceito de privação emergiu como tema importante na literatura da pobreza no final dos anos de 1960 (YITZHAKI, 1979). Essa pode ser entendida como estado indesejado que surge quando as pessoas são incapazes de ter acesso a bens e serviços (HALLEROD, 1996). Cabe ressaltar, que não se trata de incapacidade advinda de vontade ou ação do particular, mas sim da imposta pelo sistema econômico, em que o acesso a bens e serviços é relacionado diretamente ao poder de renda.
Lemos (2008) aponta que a pobreza decorre das privações impostas à população. Trata-se de conflitos e contradições expressas no capitalismo moderno, nas quais a concentração de poder e riqueza são marcas latentes do sistema econômico. Essas podem variar e englobar vários fatores de ordem econômica, ambiental e de desenvolvimento social, como por exemplo, privação de água encanada, de saneamento, de coleta seletiva, de renda, de educação, entre outros.
O estado de pobreza se constitui [...] nos resultados desses conflitos e dessas contradições, que se traduzem numa concentração, ou numa privação do poder, da riqueza ou dos ativos ambientais, que se constituem nos requisitos necessários para o bem-estar das pessoas (LEMOS, 2008, p. 46).
A pobreza e os componentes de privação que a compõe direcionam o a intensidade das desigualdades socioespaciais. Trata-se, portanto, de uma relação proporcional na qual se pode ensejar que quanto maiores forem seus níveis e maior for a concentração de renda, haverá uma maior incidência disparidades sociais, que em conjunto apresentarão maiores níveis de desigualdades.
Por sua vez, a desigualdade socioespacial pode ser entendida como processo e situação de diferenciação social no espaço. Trata-se do nível de acesso diferenciado às oportunidades (renda, serviços, entre outros) dentro de um mesmo sistema econômico e que podem gerar distinção, estigma, vulnerabilidades, exclusão social, tanto no nível individual como também no coletivo (SALGADO, 2013). A desigualdade pode ocorrer em várias escalas e dimensões: entre regiões, entre estados, entre bairros e etc.
A diferenciação social é necessária na medida em que resulta funcional ao sistema econômico capitalista. Dessa forma, existem processos de diferenciação entre grupos sociais, produzindo classes ou estratos, onde as capacidades e oportunidades determinam a mobilidade social ascendente ou descendente de um indivíduo. [...] O conceito de desigualdade social tem se tornado de vital importância para compreender os processos de mudança histórico-sociais contemporâneos, assim como para entender a ação dos estados junto aos diversos fenômenos de privação e vulnerabilidade social; mas é também uma ferramenta para delinear as políticas públicas, assim como os perfis e alcances dos Estados de Bem-estar (SALGADO, 2013, s.n.).
Há, portanto, a constatação que o modo de produção capitalista tem em si a necessidade de acarretar privações, níveis de pobreza e consequentemente desigualdades socioespaciais para o seu pleno funcionamento. A indagação que tal perspectiva trás é de como realizar estratégias que possam auxiliar na superação dos desafios contemporâneos envolvendo o espaço intraurbano, se ao mesmo tempo em que a pobreza, privações e desigualdades são maléficas ao bem estar da população são também necessárias ao pleno funcionamento do sistema. Nesse sentido o maior desafio não é apenas proporcionar melhor qualidade de vida a população, mas sim de construir um sistema econômico que ultrapasse as barreiras do desnivelamento social, necessários a sua existência. Tal prerrogativa pode ser considerada um dos maiores paradigmas da sociedade capitalista moderna no século XXI.