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Nos últimos anos o debate sobre o desenvolvimento sustentável voltou à tona nas principais discussões acadêmicas, profissionais e entre governos do mundo, na medida em que novos relatórios apontam as consequências drásticas dos impactos ambientais decorrentes do modelo de crescimento econômico vigente, a exemplo do publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) em 2007, bem como pela realização de eventos de relevância mundial como a Rio+20.

Nesse sentido, nota-se que houve um crescente incentivo para um maior uso de métricas de controle destinadas a avaliar o desenvolvimento de políticas públicas e atividades empresariais em relação aos três pilares da sustentabilidade (ambiental, econômico e social), com o objetivo de se mensurar as ações promovidas visando mitigar os impactos ambientais e sociais causados pelas atividades governamentais e de negócios.

Ao trazer à tona a utilização de métricas para avaliação da sustentabilidade no contexto empresarial, o Grid de Sustentabilidade Empresarial (GSE) se apresenta como uma valiosa ferramenta de auxílio para mensurar o desempenho de negócios em aspectos ambientais, econômicos e sociais, no momento em que possui metodologia simplificada e de fácil aplicação, possibilitando a comparação dos resultados com empresas do mesmo setor. Ainda, o modelo GSE se mostra útil como instrumento de benchmarking, na medida em que, a partir dos resultados da investigação dos pontos levantados, fornece informações sobre as melhores práticas de gestão desenvolvidas pelas empresas em relação a determinados fatores.

A indústria de cerâmica vermelha surge nesse horizonte a partir do momento que o setor explora ativamente jazidas de argila, modificando o relevo e a topografia do terreno, e suprimindo a cobertura vegetal da área, alterando o ecossistema local. Ademais, a indústria utiliza combustíveis caloríficos advindos do extrativismo vegetal e petróleo, que podem agredir o meio ambiente através da emissão de gazes poluentes na atmosfera. Além disso, o setor encara dificuldades econômicas a partir da concorrência predatória de produtores irregulares, bem como pela vinculação ao desempenho do setor da construção civil.

Nesse sentido, a escolha de cerâmicas localizadas na região do litoral e agreste paraibano se deu a partir do momento em que as regiões concentram uma gama importante de matas nativas, a exemplo da Mata do Rio Vermelho, bem como uma vegetação caatinga (no caso do agreste), sendo dois fatores importantes na preocupação ambiental do extrativismo vegetal. Aliado a isso, as regiões possuem uma bacia sedimentar que proporciona uma matéria argilosa de alta qualidade para extração, o que fomenta a concentração de cerâmicas na área.

Outro fator ensejador para escolha do estado da Paraíba como localidade para investigação desta Pesquisa foi seu baixo posicionamento no ranking de produção de peças cerâmicas (INT, 2012) em comparação com outros estados do nordeste, o que pode refletir dificuldades de ordem econômica. Assim sendo, questionou-se o nível de sustentabilidade econômica dessas indústrias de cerâmica.

Deste modo, esta pesquisa buscou responder o seguinte problema de pesquisa: Qual é o nível de sustentabilidade de Indústrias de Cerâmica Vermelha do Estado da Paraíba?

Visando alcançar a solução para o problema levantado, este trabalho teve como objetivo geral avaliar a sustentabilidade empresarial de indústrias de cerâmica vermelha do estado da Paraíba. Com base nesse objetivo, elencaram-se três objetivos específicos, a saber: (1) caracterizar aspectos das dimensões da sustentabilidade investigadas das indústrias participantes; (2) aplicar o modelo GSE em indústrias do estado da Paraíba; (3) apresentar o nível de sustentabilidade das indústrias pesquisadas e; (4) Apresentar possíveis críticas ao modelo GSE.

Ao serem analisadas as empresas elencadas como sujeitos da pesquisa, constatou- se que apenas uma das três apresentou sustentabilidade empresarial em um nível satisfatório, conciliando bons desempenhos nas três dimensões de sustentabilidade abordadas pelo modelo GSE (ambiental, econômica e social), fato que pode indicar um equilíbrio de ações desenvolvidas pela cerâmica em relação aos preceitos defendidos pelo desenvolvimento sustentável.

Os aspectos de destaque demonstrados pela Empresa A na dimensão ambiental estão relacionados ao aumento no número total de áreas reabilitadas em comparação aos últimos três anos, bem como com o desenvolvimento de tecnologias equilibradas visando eficiência energética e produtiva com um menor impacto ambiental. Em relação à dimensão econômica, a Empresa A foi a única que apresentou diminuição no nível de endividamento em relação aos últimos três anos, bem como crescimento da lucratividade. Em relação aos aspectos sociais, a empresa foi a única que relatou a adoção de um código de conduta para

seus funcionários, bem como dispor de programas e diretrizes contínuas voltados para a promoção da integração com a sociedade, com projetos educativos para a comunidade local.

As outras duas organizações analisadas apresentaram um grau de sustentabilidade empresarial considerado fraco, uma vez que manifestaram desempenho satisfatório em apenas uma das três dimensões trabalhadas no modelo GSE. A Empresa B apresentou desempenho satisfatório na esfera ambiental, e insuficiente nas dimensões econômica e social. A Empresa C demonstrou insuficiência nos resultados das dimensões ambiental e econômica, enquanto que desempenho satisfatório na dimensão social.

Dentre os pontos analisados na Empresa B que merecem serem revisados na dimensão econômica, destacam-se a questão da avaliação dos resultados da empresa, uma vez que ela não possui nenhum processo formal nesse sentido, bem como a posse de selos de qualidade para seus produtos. Em relação a esse último ponto, a Empresa B declarou que contratou os serviços de consultoria da ANICER para auxilia-la no alcance da certificação do Programa Setorial da Qualidade, que atesta a qualidade de produtos como blocos estruturais e de blocos de vedação. Dentre os pontos abordados na dimensão social que precisam ser revistos pela empresa, enfatiza-se a disposição de códigos de conduta para seus empregados, bem como a concepção de projetos e programas sociais visando interação com a sociedade.

Em relação ao desempenho insuficiente obtido na dimensão ambiental pela Empresa C, recomenda-se que a empresa revise aspectos relacionados a não capacitação, treinamento e educação em aspectos ambientais, bem como a processos decorrentes de infrações ambientais e também relacionados ao desenvolvimento de tecnologias equilibradas. No tocante ao desempenho insatisfatório obtido na dimensão econômica, recomenda-se que a empresa reveja sua estratégia empresarial visando o aumento dos níveis de lucratividade e de retorno sobre investimento, bem como a diminuição do nível de endividamento. A obtenção de selos de qualidade é outro fator que pode ajudar a melhorar seu quadro econômico.

Os resultados desta pesquisa indicam ainda que o desempenho inferior obtido em alguns indicadores está atrelado ao grau de informalidade que as cerâmicas apresentam, sugerindo que as empresas devem buscar uma melhor estruturação de suas práticas de gestão para possibilitar o alcance da sustentabilidade empresarial.

Um ponto importante a ser ressaltado é que todas as informações utilizadas para mensurar o desempenho da sustentabilidade foram disponibilizadas pelos gestores das cerâmicas a partir de entrevistas presenciais nas fábricas ou em seus escritórios comerciais, sendo complementadas por observação não participante, o que condiciona os resultados aos dados fornecidos pelos entrevistados e à percepção do pesquisador da realidade contemplada.

É importante ressaltar ainda que os desempenhos mensurados correspondem a uma realidade presente das empresas, não sendo determinantes como característica essencial estática, uma vez que essas cerâmicas podem empreender esforços futuros para modificar os quadros deficitários detectados e aumentar seus níveis de sustentabilidade empresarial.

O fato de esta pesquisa ser um estudo de casos implica na não generalização dos resultados e das consequentes inferências ao universo das indústrias de cerâmica vermelha da Paraíba, uma vez que esta pesquisa explora as particularidades de cada empresa em relação aos aspectos da sustentabilidade.

Assim, nota-se que indústrias de cerâmica vermelha possuem condições para o alcance da Sustentabilidade Empresarial, seja em relação a aspectos ambientais, econômicos ou sociais, a partir do momento em que essas identificam as oportunidades de melhoria com base em um sistema ou modelo de avaliação de desempenho de sustentabilidade válido, como o modelo GSE de Callado (2010), utilizado neste trabalho.

Por fim, é importante realizar algumas considerações em relação ao modelo: (1) o GSE demonstra ser um modelo de aplicabilidade geral, podendo ser aplicado em diferentes setores industriais, explorando a situação das empresas com relação à sustentabilidade, a partir dos indicadores elencados por especialistas; (2) alguns indicadores possuem fatores limitadores inerentes ao conceito de cada aspecto investigado, como evidenciado na seção de críticas; (3) os indicadores que analisam a evolução no consumo de recursos só levam em consideração valores absolutos, não relativizando esse consumo em relação à natureza da atividade produtiva e da produtividade, e nem seus reais impactos no meio ambiente e; (4) o modelo não atribui um conceito de excelência para empresas que alcançam um ESE igual a 03 (três) e um posicionamento no quadrante VIII do Grid, mas apenas atesta que essas empresas conseguem alcançar um equilíbrio de ações de acordo com o desenvolvimento sustentável, ao conciliar bons desempenhos nas três dimensões de sustentabilidade consideradas.

Conclui-se que modelos de mensuração de sustentabilidade como o GSE são úteis para avaliar a situação das empresas em relação ao desenvolvimento sustentável, atuando como ferramentas de identificação dos fatores de insustentabilidade das operações da empresa e como guias para viabilizar a melhoria de suas atividades e reduzir os riscos atrelados a ela. O fato da escolha dos indicadores se proceder por pesquisadores e especialistas da área atribui maior confiabilidade à avaliação do modelo, uma vez que são considerados os pontos de vista tanto da academia quanto do meio empresarial.