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Ambiguous Enigma

In document RENAISSANCE MANNERISM BAROQUE (sider 21-34)

Suzanne Mollo-Bouvier (2005) socióloga da infância francesa, ao analisar as influências das transformações do ambiente familiar das crianças nos processos de socialização dos quais elas participam, assegura que esse conceito não deve ser tomado em seu sentido clássico, ou seja, na acepção de Durkheim (2011 [1922]) como um processo de identificação e integração dos indivíduos ao sistema, “mas numa perspectiva interacionista que salienta a dinâmica das interações na aquisição de know-hows e insiste no vínculo entre conhecimento de si e conhecimento do outro, construção de si e construção do outro” (MOLLO-BOUVIER, 2005, p.392) o que denota uma participação mais ativa e reflexiva das crianças no próprio processo de socialização.

Crítica similar é realizada por autores do campo da sociologia da educação. Os sociólogos latino-americanos Araújo e Martuccelli (2010), por exemplo, asseguram que com a emergência dos indivíduos no âmbito das análises sociológicas atuais, as teorias clássicas da socialização apresentam um considerável número de insuficiências que convidam os cientistas sociais a utilizar outras estratégias capazes de descrever o trabalho do indivíduo para fabricar- se como sujeito. Nesse sentido, a socialização perde sua centralidade na produção e inserção de indivíduos no âmbito social. De acordo com os autores:

A socialização não é a única maneira de se conceber o processo de fabricação dos indivíduos. Próximo a ela é possível distinguir pelo menos duas estratégias principais: a subjetivação e a individuação. Esquematicamente, a socialização estuda o processo de fabricação sócio psicológica dos indivíduos; a subjetivação aborda, no contexto da sociologia, o problema da constituição do sujeito como resultado das dinâmicas sociopolíticas de emancipação; a individuação se interessa, a partir de

uma perspectiva sócio histórica, pelo tipo de pessoa que está sendo estruturalmente fabricado em uma sociedade (ARAÚJO e MARTUCCELLI, 2010, p. 79).

Araújo e Martuccelli (2010) ainda afirmam que a situação atual é marcada pelo crescimento da crise da ideia de sociedade (entendida até então, como um bloco coeso e unicamente integrado) o que corrobora o definhamento da ideia de uma homologia entre um conjunto de processos sociais que estruturam as trajetórias coletivas (seja de classe, de gênero ou de gerações) e as experiências pessoais (ARAÚJO e MARTUCCELLI, 2009, p. 80). No entendimento desses autores, eram os processos de socialização que garantiam a estreita conexão entre as expectativas pessoais e possibilidades objetivas, pois, o processo de fabricação dos indivíduos, graças à socialização, proporcionava um progressivo ajuste e adequação do indivíduo à sociedade.

Na atualidade, os atores se veem frente a um conjunto cada vez mais amplo e heterogêneo de indivíduos e instituições e são afetados com uma intensidade cada vez maior por estímulos do ambiente que resultam numa “pluralidade de sistemas de ação regidos por orientações e regras cada vez mais autônomas” (DUBET e MARTUCCELLI, 1997, p.244), o que obriga o sujeito a produzir um sentido próprio de sua experiência, a partir de sua capacidade de articular vários registros de ação (DUBET, 1996). Dito de outro modo, a socialização resulta de uma série cada vez mais contingente e diversificada de experiências produzidas pelos próprios indivíduos (ARAÚJO e MARTUCCELLI, 2010) no decurso de suas vidas. Essa regência das experiências sociais que o indivíduo desempenha não somente colabora para sua socialização, mas igualmente se configura como dimensão constituinte dos processos de socialização.

É certo que a participação na vida social, vai induzindo certo disciplinamento dos comportamentos e condutas como preconizado por Durkheim, pois, possibilita o desenvolvimento de certas disposições, competências e valores em detrimento de outros. Porém, ao participarmos da vida social, produzimos elaborações sobre a cultura (que só existe em função da acumulação histórica das experiências humanas). Indubitavelmente, os indivíduos ainda são socializados através de fatores culturais que conformam sua personalidade, mas, de acordo com Araújo e Martuccelli (2010) essa socialização opera em um contexto social no qual a cultura assume um papel cada vez mais ambivalente. Ela não é mais a única garantia de acordo duradouro entre o ator e a sociedade (como foi no paradigma

sociológico clássico), mas é compreendida como um fator permanente de diferenciação entre os indivíduos.

O panorama conceitual ora esboçado permite-nos afirmar que a socialização da criança na ocorre a partir de um processo mais interativo do que passivo e que leva em conta a capacidade de ação de meninos e meninas, mas que não se dá de forma linear, pois é marcada por descontinuidades e rupturas. Assim, percebe-se que

A socialização compõe-se de dessocializações e ressocializações sucessivas. Ela é a conquista nunca alcançada de um equilíbrio cuja precariedade garante o dinamismo. Em contrapartida, essa concepção interacionista da noção de socialização implica que se leve em conta a criança como sujeito social, que participa de sua própria socialização, assim como da reprodução e da transformação da sociedade (MOLLO- BOUVIER, 2005, p. 393).

Exemplo dessa abordagem interacionista da socialização é encontrado na obra de do sociólogo estadunidense William Corsaro (2011). Esse autor afirma que ao interagirem entre si, as crianças vão se apropriando de modo interpretativo de informações do mundo adulto que são articuladas num processo de elaboração simbólica peculiar pelo qual ocorre uma aprendizagem social. Dito de outro modo, a partir das aprendizagens decorrentes das relações

intergeracionais e intrageracionais, isto é, entre crianças e adultos e entre elas, meninos e meninas não se colocam passivamente, mas sim assumem uma postura notavelmente interativa, pois principalmente nas relações com os pares, as crianças aprendem umas com as outras nos ambientes sociais que partilham em comum, constituindo desse modo, culturas de pares (CORSARO, 2009).

Corsaro (2009) entende que as crianças assimilam criativa e interpretativamente os elementos do universo cultural adulto (por meio de um fecundo exercício relacional e dialógico) através do qual produzem culturas particulares e únicas, que ele denomina cultura de pares. Para o autor, as culturas de pares conformam “um conjunto de atividades ou rotinas, artefatos, valores e preocupações que as crianças produzem e partilham na interação com os seus pares” (CORSARO, 2009, p. 32). Esse autor afirma que as evoluções recentes do campo da Sociologia da Infância, conduziram-no a desenvolver uma abordagem interpretativa da socialização infantil que a considera mais um processo reprodutivo do que linear, portanto, mais interativo, isto é, mais relacional do que passivo. Trata-se da reprodução interpretativa (CORSARO, 2002; 2009; 2011) da cultura na qual

O termo interpretativa captura os aspectos inovadores da participação das crianças na sociedade, indicando o fato de que as crianças criam e participam de suas culturas

de pares singulares por meio da apropriação de informações do mundo adulto de forma a atender aos seus interesses próprios enquanto crianças. O termo reprodução significa que as crianças não apenas internalizam a cultura, mas contribuem ativamente para a produção e a mudança social (CORSARO, 2009, p. 31).

Nesta perspectiva, as crianças são consideradas seres sociais imersos, desde cedo, em uma rede social já estabelecida e, por meio do desenvolvimento da comunicação e da linguagem – o que possibilita uma maior interação com os outros – constroem seus mundos sociais (CORSARO, 2002, p. 114). Associando isto ao alargamento de seu contexto de interações sociais24, as crianças ampliam suas possibilidades de assimilar o mundo que as rodeia, expandindo, assim, as culturas de pares e reconstruindo a cultura adulta (CORSARO, 2002, p. 114).

Belloni (2009) considera que os estudos sociais da infância têm buscado cada vez mais ampliar a compreensão acerca da participação das crianças em processos de socialização. Entretanto, tais estudos não podem desconsiderar “a ação sistemática e objetiva das instâncias de socialização, institucionais ou não, que quer queiramos, quer não, têm grande influência nesses processos” (BELONI, 2009, p. 75). Martins Filho corrobora e complementa essa perspectiva ao afirmar que

Seria impossível compreendermos as culturas infantis desligadas das relações dos adultos e das interações entre pares. Portanto, podemos dizer que as crianças possuem características distintas das de outros grupos geracionais, como é o caso dos adultos, mas que elas nunca deixam de manter e desenvolver relações particulares, tendo-as como referencial para a elaboração de suas manifestações culturais (MARTINS FILHO, 2008, p. 109).

Concordando com Setton (2011) o processo de socialização aqui esboçado ressalta a relação de mão dupla, isto é, de vinculação do indivíduo à sociedade na construção da realidade social. Segundo essa autora, a importância dos processos de socialização não reside na reciprocidade, “mas no vínculo essencial entre indivíduo e sociedade, o que reforça o entendimento relacional dos distintos projetos das instâncias e agentes socializados” (SETTON, 2011, p. 721). A autora nos mostra a relação de interdependência e simultaneidade entre a constituição do indivíduo, da cultura e da sociedade presentes no processo de socialização. De acordo com a autora:

A socialização reflete um campo de investigação que mescla simultaneamente estruturas, atores, sentido e história. Pensado a partir de um amplo panorama, o processo de socialização explicita a ideia de continuidade, algo que tem uma

24 Como, por exemplo, a transferência da criança do meio familiar para um contexto educacional

biografia, que demanda uma compreensão diacrônica dos fenômenos produtores de sentido. Afastando-se das leituras cristalizadas acerca dessa noção, empenha-se em aproveitar seu potencial analítico explorando a relação dialógica presente em todos os processos de interação social (SETTON, 2011, p. 721).

Essa perspectiva analítica nos permite a construção do objeto desta pesquisa considerando a complexidade e multidimensionalidade dos contextos vivenciados pelas crianças nos primeiros anos de vida, dentre os quais está, no caso da realidade brasileira, a instituição de Educação Infantil. Percebe-se, nesse sentido, que no âmbito das instituições de educação e cuidados destinadas a crianças de até cinco anos e oito meses, diversas instâncias socializadoras ora se mesclam, ora concorrem. Dentre elas podemos destacar: a família, a instituição educacional, a mídia, o grupo de pares, dentre outras. Essa articulação entre distintos sujeitos e distintas instituições conduz as crianças a articularem diferentes formas de ação nos próprios processos de socialização.

É essa articulação de lógicas (ora contraditórias, ora articuladas) que nos permite falar de experiências, entendendo-as como o engajamento das crianças num trabalho de socialização sobre si mesmas (DUBET, 1996). Ou seja, trata-se de reconhecer a socialização como um complexo conjunto de processos socializadores (SETTON, 2011), no qual a criança interage com os adultos, com seus pares, com a cultura e a sociedade. Como dito anteriormente, o intercruzar desses processos, muitas vezes proporciona avanços e retrocessos, descontinuidades e rupturas, ou seja, sucessivas dessocializações e

ressocializações (MOLLO-BOUVIER, 2005), não ocorrendo de modo linear e unilateral. Nesse sentido, a instituição de Educação Infantil, para além de se constituir como um espaço de educação e cuidado assume a dupla tarefa de se configurar não só como espaço de socialização, mas também como lócus de produção de experiências sociais das crianças (SANTOS, 2015a).

2.3. Sociologia da experiência: uma lente interpretativa para compreensão do

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