A travessia dos imigrantes antilhanos se fazia por barco e a condição do transporte desses homens lembrava o tráfico negreiro dos séculos passados. Uma passagem entre Porto Antônio (Jamaica) e Santiago de Cuba, custava 8 pesos. A Cuban American Sugar Company, a partir da experiência de suas empresas em Puerto Limón (Panamá), produtoras de banana, tinham sua própria linha de vapores, assim como uma estação quarentenária em um cayo na baía de Puerto Padre, para a importação de trabalhadores. Da mesma forma procedia a United Fruit Company.
O governo colonial, no caso dos imigrantes anglofónos, expedia uma permissão para que os trabalhadores pudessem emigrar a Cuba com o custo de 5 libras esterlinas, deviam portar um certificado de saúde emitido por um médico e um documento de proteção ao imigrante para ser apresentado junto ao cônsul britânico, que estava obrigado a dar proteção legal ao imigrante por sua condição de súdito. Absolutamente todos os imigrantes antilhanos tinham no corte da cana seu primeiro emprego em Cuba.
A elevada demanda de trabalhadores para as plantações de cana de propriedade norte-americana nas províncias de Camaguey e Oriente, fez de Florida, Ciego de Ávila, Cayo Mambí, Preston, Felton, Delicias, Chaparra, Banes, Esmeralda, Santiago de Cuba lugares de assentamento dos imigrantes antilhanos.
Em torno ao processo migratório, surgiu um negócio lucrativo que incluía os “contratistas” encarregados de buscar os trabalhadores e fazer o seu transporte. Para promover o negócio, existia um intermediário nos paises de origem, que chamavam de “Tio”, encarregado no Haiti e Jamaica principalmente, de encontrar os trabalhadores que se dispusesse a trabalhar nas plantações da província de Oriente.
Os contratistas faziam promessas que não prática não eram cumpridas para contratar os haitianos, que com a esperança de ganhar um bom salário conforme apregoavam os recrutadores eram levados a Cuba pela primeira vez sem ter noção do que realmente encontrariam,
Tras varias horas de navegación llegamos a una caleta, próxima a un poblado. Mi amigo hizo bajar de la goleta una barrica de ron. Ya más de cien haitianos se habían acercado a
nosotros... A dos puertas de Cuba el paraíso terrenal según todos sabían. El dinero abundaba hasta lo inconcebible, decía el jefe de la expedición a los haitianos. Y para demostrarlo, mientras los haitianos les miraban asombrados, extrajo de un casco un montón de centavos y niqueles y los arrojó al grupo. Los reunidos se golpeaban disputándose los centavos, hasta que al fin, terminada la recogida, comenzó el reparto de ron.
Una hora después – continua diciendo Halley – cuando todos estaban completamente ébrios, el jefe habló de nuevo. Había que partir inmediatamente hacia Cuba.
Algunos se negaron a ir; otros lo dicidieron inmediatamente. Y empujándose unos contra otros, en medios de gritos de blasfemias, golpes y terribles gomazos asestados por los doce hombres de la tripulación – interesados en el buen éxito de la expedición – más de cincuenta de aquellos infelices fueron llevados a bordo (MARRERO,1934,p.16-17).
Os testemunhos recolhidos por Alberto Pedro Díaz, permitem conhecer que outros contratistas introduziam nas embarcações até 300 pessoas, as quais deviam pagar suas passagens na maioria dos casos. Se não podiam liquidar o custo da viagem, assinavam algum documento mediante o qual o contratista podia reclamar como garantia, qualquer propriedade pertencente ao trabalhador antilhano.
Ao chegarem a Cuba, salvo o clima tropical, tudo era estranho. Não havia tempo de raciocinar e atuar diante de quem falava um idioma diferente do seu. Mudavam até mesmo o nome do imigrante haitiano. Como “cortesia” recebia um chapéu de yarey, uma muda de roupa de lona e o instrumento fundamental de trabalho: o machete para cortar a cana.
Luis Araquistáin, testemunha da chegada de haitianos aos portos cubanos revela suas experiências após haver realizado uma viagem entre o Haiti e Cuba nos anos de 1926 e 1927,
La visita de la sanidad cubana es laboriosa y severa. Salvo media docena de blancos, el pasaje del barcucho carcamal, - francés – que nos ha conducido es de pura sangre africana: negros de Haiti, hombres, mujeres y niños que van a la zafra de Cuba. Se han puesto su mejor ropilla, de abigarrados colores, y comparecen tímidos y candidos – con sus ojos infantiles muy abiertos y la raya blanca de sus dientes manchando el carbón de la piel, ante el médico sanitário, que gargariza las erres y, con lábia ligera, los llama uno por uno. Cada cual aporta el certificado de vacuna que ha extendido el médico a bordo. Abundan los nombres y apellidos ilustres, los Tancredos, los Augustos, los Orestes, los Gautier, resíduos haitianos de una cultura grecorromana-francesa a cuyos héroes, reales o literarios son muy aficionados no sólo en Haiti, sino en casi toda América (ARAQUISTAIN, 1961, p.51).
Álvarez Estévez (1988, p. 90) diz que, diante daquela massa de haitianos analfabetos se estabelecia um férreo cordão de vigilância a cargo de guarda-jurados com armamento regular, ao serviço dos fazendeiros cubanos e das companhias norte-americanas. A partir do momento que estes trabalhadores passavam para o
domínio das companhias qualquer intenção de fuga podia ser sinônimo de morte. O barracão insalubre foi testemunho de sua tragédia humana. O sol, seu inimigo implacável. A escuridão, inseparável amiga e confidente de seus planos de fuga, sonhando quizá com as economias de seu mísero salário — recebido na maioria dos casos mediante vales — , podiam liquidar a dívida que os atava a uma terra onde eram explorados com crueldade.
Os contratistas atuavam em correspondência com as companhias açucareiras, que ao desembarcarem no território cubano, depositava nas mãos dos colonos a nova força de trabalho, pela qual recebia em pagamento o valor correspondente em dinheiro por cada trabalhador recrutado. O “Tio” dava a cada homem o indispensável em moeda para que pudessem se manter nos primeiros dias e advertia aos contratados que deveriam permanecer nas terras da empresa, sob pena de serem presos ou repatriados por sua condição de indocumentado. O imigrante antilhano se submeteu a imigração ilegal até o ano de 1913, quando sua entrada em Cuba é regulamentada de acordo com o Decreto nº 23 de 10 de janeiro deste ano, que autorizou a Nipe Bay Company a contratar mil trabalhadores antilhanos. O Decreto aprovado pelo presidente José Miguel Gómez dizia,
Considerando: que son muy atendibles las razones aducidas por la empresa Nipe Bay Company, y de que es hun hecho evidente la escasez de trabajadores y braceros de la República, deficiencia que es de interés general remediar. En uso de las facultades que me confiere el artículo 16 de la ley de Inmigración de 11 de junio de 1906, y a propuesta del Sr. Secretario de Agricultura, Comercio y Trabajo.
Resuelvo:
Autorizar a la empresa Nipe Bay Company para traer mil trabajadores antillanos, que habrá de emplear en las labores del central Preston... (PICHARDO, 1980, p.370)
Os imigrantes que entravam legalmente em Cuba, tinham alguma restrição por parte das autoridades: eram encaminhados para uma espécie de albergues chamados de ‘estação quarentenária’. Nestas estações eram observados e passavam por uma inspeção sanitária; os imigrantes denominados de terceira classe recebiam um tratamento diferenciado dos demais, sofrendo inclusive maus tratos. Os demais na sua maioria espanhóis, eram registrados, recebiam na estação uma cama e os utensilhos para comer. As armas que portavam, chamadas de armas brancas, canivetes, facas e outras eram dadas às autoridades e devolvidas quando
os imigrantes saiam do acampamento. Depois de passar por esses trâmites eram levados aos barracões onde dois eram destinados às mulheres e às crianças e quatro para os homens, cada um com cem camas guarnecidas com um lençol e uma manta. Outros dois edifícios, a cozinha e os banheiros, completavam as instalações (VIVES; VEJA; OYAMBURU, 1992). Separados da estação por uma cerca estava o departamento de quarentena e clínica, onde eram alojados os enfermos. O período nos barracões estava restringido ao horário de descanso, de oito e meia da tarde até as sete da manhã durante o inverno e às seis no verão. Durante o dia eram servidas três refeições; o café da manhã às sete horas da manhã, às onze o almoço e às cinco, o jantar. Arroz, feijão e grão de bico compunham a dieta básica, algumas vezes era acrescentado carne na dieta do imigrante espanhol que passava pela estação apenas para controle. No entanto, essa descrição ideal do papel das estações quarentenárias não era a realidade como explica De La Riva: “ el campamento de Triscornia42 tenía ciertas similitudes con los barracones de Regla” (1973, p.12).
A estação quarentenária de Santiago de Cuba, semelhante a estação de Triscornia em Havana, tinha a mesma função de controlar a entrada dos imigrantes, impedir a entrada de doenças no país, etc. A diferença entre as duas é que pela estação de Triscornia entravam principalmente os imigrantes de origem espanhola e a de Santiago de Cuba os imigrantes antilhanos.
Os imigrantes espanhóis quando chegavam em Cuba eram amparados pelas associações e centros regionais organizados por seus compatriotas já instalados no país que denunciavam as más condições da estação de Triscornia às autoridades cubanas. Já as más condições da estação de Santiago de Cuba eram denunciadas pelas autoridades britânicas responsáveis pelos imigrantes antilhanos anglófonos.
Na correspondência trocada entre a delegação do governo britânico em La Habana e a Secretaria do Estado da República, o Secretário de Estado de Sua Magestade para Assuntos Estrangeiros dizia estar ciente e preocupado com o tratamento a que estavam sendo submetidos os trabalhadores antilhanos britânicos.
42 Triscórnia era uma ‘estação de quarentena’ onde permaneciam os imigrantes que não estavam em condições de entrar livremente no país. Os imigrantes destinados a estes espaços tinham que aguardar a presença de algum fiador que garantisse que não se tornariam uma carga pública,
Segundo o secretário, os aspectos mais proeminentes das más condições e maus tratos a que estavam submetidos referia-se principalmente à estação quarentenária de Santiago de Cuba, o uso de arma de fogo, demasiado freqüente e com resultados fatais, utilizados pelos guardas cubanos contra os trabalhadores desarmados também preocupava o consulado britânico. Essa situação de desamparo dos ‘jamaiquinos’ se agravava, segundo relata o Secretário, com a aparente falta de interesse na detenção e perseguição dos indivíduos culpados de semelhantes atos e o insatisfatório resultado nos julgamentos dos que cometiam os crimes43.
No entanto, a violência contra os antilhanos era “justificada” pelas autoridades cubanas como forma de reprimir um estado de desordem social desencadeado pela presença deles na província, acusados de crimes e delitos, como podemos ver neste trecho da correspondência trocada entre o Secretario de Agricultura, comércio e trabalho e o Governador da Província de Santiago de Cuba,
En el día de hoy se han presentado en esta Alcadía los vecinos de la finca “Cuchillos” y otras inmediatas, Srs. Aurélio Fonseca, Nicolas Pérez, Argimiros Ramos, Juan Cabrales, José Acosta, Santiago Arias, Enrique Pérez, José Tejeda, Manuel Torres, Pablo Viltre, Eduardo Sosa, Maximo Sosa y Carmen Díaz pidiendo protección para sus vidas y pequeños intereses, victimas del raterismo desatado en los campos por los jamaiquinos y haitianos que careciendo de trabajo en número excesivo, desde hace varias noches vienen asaltando las viviendas de los cubanos robandoles gallinas, cerdos, frutas, ropas, viandas y cuanto encuentren a su paso (ARCHIVO PROVINCIAL DE SANTIAGO DE CUBA, AÑO 1921 LEG.1795, SIG 113).
Como o próprio documento diz a ‘ação criminosa’ dos haitianos e jamaicanos estava associada à falta de trabalho. Muitos passavam meses perambulando pelas províncias orientais em busca de ocupação ou esperando que as autoridades pudessem repatriá-los, o que não era um processo tão simples uma vez que os administradores das indústrias ao terminar a safra não cumpriam com o que haviam estabelecido no contrato. Essa situação levava a que os imigrantes antilhanos se envolvessem em delitos e isto provocava uma reação violenta da Guarda Rural e também dos proprietários de terras da região próxima aos centrais onde eles trabalhavam no período da safra.
43 Cópia de la correspondencia cambiada entre la legación de su Majestad Britanica en La Habana y la Secretaria de Estado de La República. Relativa al trato de los inmigrantes jamaiquinos. República de Cuba. Secretaria de Estado (Docs. Diplomáticos) Habana, julio de 1924.