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Tre alternative tilnærminger

6. Anbefalinger og øvrige innspill til den senere evalueringen

6.1 Tre alternative tilnærminger

A escola Ix bãy Rabu Puyanawa se constituiu como o centro de várias ações da comunidade, além de mediar os assuntos pedagógicos, como afirmo no capítulo 2, e também é o espaço, um dos principais, onde as reuniões envolvendo os assuntos pertinentes à comunidade Puyanawa acontecem. Em assembleias, eles tomam as decisões referentes ao desenvolvimento do grupo, inclusive políticas, parecendo que

nada é feito sem a participação coletiva. Temas como terra, liderança, parentesco – quem poderá integrar a família Puyanawa –, são frequentes nas reuniões.

Atualmente, tem sido preciso enfrentar as diferentes visões, geradas por questões ideológicas e políticas que aparecem internamente no grupo, sobre o significado de ser índio. São questões importadas, que atualmente influenciam no modo de pensar e de agir dos grupos distintos existentes na comunidade. Este aspecto provoca uma série de conflitos, principalmente religiosos e educacionais. Assim, o que significa ser índio para o Puyanawa? Alguns entendem que a indianidade está presente nos rituais, na língua, nas tradições dos ancestrais. Outros consideram que, para ser índio, não é preciso ter uma marca visível, “é o sangue que corre na veia, e não o tipo de cabelo ou o aspecto físico que determinam essa condição”. (Fala da diretora da escola que passa o dedo pelo braço seguindo o “curso” da veia, em 15/04/10).

Ainda nesta conversa do dia 15/04 com a diretora da escola e outros membros da comunidade sobre a identidade desse povo, foi dito que a FUNAI juntamente com um grupo Puyanawa pretendem acrescentar ao sobrenome de cada membro da comunidade o nome “Puyanawa”37

. É característica comum entre os indígenas comporem seus nomes com o da etnia à qual pertencem, como forma de identificação étnica. Contudo, embora esta possibilidade ainda esteja sendo apreciada pelo grupo, em um primeiro momento, provocou a rejeição por parte de alguns membros da comunidade, mais idosos, que compreendem o nome Puyanawa como coletivo e não particular.

Não acreditam que precisam disso para serem reconhecidos como índios Puyanawa. No caso deles, o sobrenome mais comum é Manaitá, nome do avô de dona Railda, que corresponde ao nome de uma das primeiras famílias da comunidade, provavelmente este sobrenome também foi dado pelo seringalista. Essas opiniões podem mudar, pois maiores esclarecimentos a respeito dessa alteração com certeza hão de ser feitos, até mesmo sobre como ficará a documentação dessas pessoas e o reflexo disso em suas práticas sociais, inclusive aposentadoria.

Enxergo nessa rejeição inicial – além do fato de preferirem poupar o trabalho burocrático de mudar os documentos – um apego às tradições, pois Manaitá, embora não seja o sobrenome de todos, aponta para a história do grupo, sendo o nome da primeira família levada para o Barão, segundo transparece em nossa conversa, indicando, assim, as raízes do grupo.

37Esta medida parece se somar a outras tantas que pretendem a “revitalização” da etnia, como a volta de certos rituais, danças, músicas, língua...

O sobrenome funciona como um distintivo e indica a origem da pessoa, mostra a procedência dela. Entre os não índios, encontramos, por exemplo, Soares, que significa filho de Soeiro. Nesse sentido, podemos entender o porquê de quererem permanecer com os seus nomes “originais”, afinal, indicam o pertencimento a uma família e é uma forma de garantir a continuidade dela. Contudo, isso também pode explicar o porquê de acréscimo do nome Puyanawa, como tudo indica. Esta medida revela o pertencimento das pessoas portadoras desse nome a um grupo étnico e também as suas raízes, garantindo a conservação desse povo.

Como todas as outras sugestões dadas ao grupo, esta também se encontra em fase de reflexão; outras assembleias acontecerão no intuito de esclarecer sobre o significado dessa mudança para o grupo, o que, provavelmente, resultará no aceite por parte dele.

Nesse contexto, é interessante observar o discurso dessas pessoas sobre identidade indígena. Uma das senhoras que estava em nossa “roda de conversa” expôs a seguinte situação, acontecida com ela e seus dois netos. Os meninos assistiam a um documentário sobre o Xingu e uma das crianças ficou assustada com o modo de vida da tribo e perguntou ao irmão mais velho (também criança): “„Nós somos índios?‟. O mais velho respondeu: „É o jeito!‟ ” Diante desta resposta, o mais novo desatou a chorar. A avó, segundo ela mesma, explicou para eles o que é ser índio Puyanawa. Ela disse: “Isso era antigamente...nós temos mesa, temos televisão, parabólica, comemos arroz e feijão, somos civilizados...”. E com esta resposta a criança se acalmou.

Por viverem muito próximos ao não índio – suas experiências em diferentes âmbitos ultrapassam os limites de suas Terras Indígenas – acabam por assimilar o modo de vida do não índio38e, por conseguinte, o modo equivocado de “enxergar” o indígena. Pelo visto, é vergonhoso se comportar da forma dos índios do Xingu. A avó deixa claro que esse tipo de conduta ficou para trás porque hoje o Puyanawa é um povo civilizado: “Isso era antigamente... nós temos mesa, temos televisão, parabólica, comemos arroz e feijão, somos civilizados...”. As marcas do discurso hegemônico sobre os diferentes

38 Isso é provocado porque a comunidade encontra-se sem condições de atender a toda a demanda apresentada por sua população, principalmente diante de tantos apelos encontrados no mundo do não índio e levados para a aldeia (celulares, computadores/internet, alimentos industrializados, transportes motorizados, são alguns bens desejados por este grupo). Assim, precisam de emprego e a oferta na aldeia é pequena. Esta realidade os obriga a buscar trabalho fora. A produção de gêneros alimentícios é insuficiente para abastecer o mercado interno e certos alimentos que hoje fazem parte de sua dieta

povos são perceptíveis na fala da avó. Duas figuras antagônicas são apresentadas as crianças: a do índio civilizado e a do índio não civilizado.

A representação que esta senhora traz sobre ser Puyanawa me faz pensar sobre sua experiência de contato. Presumo que sua idade gire em torno dos 60 anos, sendo assim, em um recuo no tempo, situo sua infância em uma época de opressão, passada dentro de uma escola “amansadora”, interessada em retirar todo o desejo de ser índio.

Empenhada em mostrar o índio como primitivo, reforçava a imagem do índio preguiçoso, ignorante (sem nenhum conhecimento a oferecer para o não índio que pudesse ser útil), sem higiene, ou seja, inferior em todos os sentidos ao “homem branco”. Essa forma de compreender o índio foi internalizada pelo próprio indígena, pois a escola de então não nutria interesse por manter viva a cultura índia, muito pelo contrário.

O que significa ser civilizado para ela e também para as crianças personagens dessa história? A resposta a esta pergunta se dá no plano da representação e do imaginário social, construídos em um processo histórico com implicações políticas e sociais, em contextos diferenciados. A compreensão de que essas construções acontecem em contextos diferenciados permite “desgeneralizar” o índio, ou seja, confere-lhe individualidade coletiva. Cada etnia se apropria de elementos a sua volta que permite construir seus conceitos e sua própria cultura; assim encontramos índios como os xinguanos e outros como o Puyanawa, com usos e costumes distintos.

No episódio narrado, o conceito de civilizado trazido pela avó e seus netos se explica pelos usos e costumes “emprestados” da cultura ocidental. A aproximação com o não índio estabelecida desde o contato inicial provocou a formação de uma cultura Puyanawa, em alguns aspectos, muito semelhante à do não índio. Assim, comer à mesa, usar talheres e calçados, morar em casa de alvenaria, inclusive, são elementos que integram a cultura Puyanawa, distanciando nosso olhar da visão mais tradicional do ser índio. No entanto, esses elementos foram misturados a práticas mais tradicionais, atualmente em processo de retomada (pintura corporal, ingestão da caiçuma, etc). O que isso pode significar?

Essas diferentes formas de compreensão do ser índio acabam por interferir diretamente nas práticas educativas e na produção da escola diferenciada, como veremos no próximo capítulo.