• No results found

6.3 Alternative methodology

6.3.3 Alternative hedging

Os dias seguintes às inquirições perante o visitador Veríssimo Rodrigues Rangel, em 1759, que esquadrinhava a vida de Francisco Barbosa, pode nos levar a diversas dúvidas, entre elas algumas em torno de seu nome. Algumas explicações podem tardar, como: quem era aquele homem que se apresentava na vila como Francisco Barbosa Braga? Qual o sentido da mudança de Pascoal Martins para aquele nome? Por que mudou? E podia alterar com facilidade? Não teria assumido uma falsa identidade?

Para entender melhor essa história, remontamos à saída de Francisco Barbosa, que aqui passamos a chamar Pascoal Martins, da “cidade de Braga” para o Porto, quando ainda contava 12 anos. A vida acabou transportando-o ainda bem rapaz para a América Portuguesa. Embalado no navio com invocação de Santa Ana, mãe da virgem Maria e uma das santas mais cultuadas em Portugal na contrarreforma, acabou encontrando Pernambuco, onde, por muito tempo, exerceria o ofício de mascate.

É importante salientar o movimento de Pascoal Martins para a cidade do Porto, já que, assim, como Lisboa, a cidade no século XVIII era também banhada por um rio e tinha um ancoradouro acessível às embarcações que cruzavam os mares, não fugindo à regra de ser usada como lugar estratégico para os negócios270. A navegabilidade do rio Douro permitia,

por um lado, alternativas para a comunicação interna no interior do país e, por outro,

268 ANTT, Inquisição de Lisboa, proc. nº 7157, fl. 83v.

269 Expressão bastante utilizada nos documentos inquisitoriais quando trata do delito da bigamia.

270 FONTOURA, Virgínia de J. Pedro Gomes Simões: homem de negócios do Porto no século XVIII. Porto:

96

condicionava boas formas de comunicabilidade comercial de Portugal com outros Estados e as colônias, propiciando, assim, um bom espaço para o desenvolvimento do comércio271.

Além deles, vários grupos sociais eram atraídos e conviviam na sociedade que integrava o Antigo Regime Português, tais como eclesiásticos, nobres, mercadores e homens de finanças, comerciantes, lavradores, criados, entre outros272. Para tanto, o assunto principal

diz respeito, principalmente, aos mercadores, pois foi lá onde, provavelmente, aprendeu as habilidades do ofício.

Recife adotou o filho de Portugal que transpassava o mar. A vila, em si, não era pequena no século XVIII. Essa cidade já havia adquirido, desde o século XVII, o caráter de destaque diante de outras no comércio lusitano273. A existência de instituições de cunho

eclesiástico e burocrático mantidos por funcionários reais e militares, além da força dos artesãos e as gentes livres, vivendo à sombra da aristocracia e dos conventos, nutriam essa urbe274, como já sublinhei páginas atrás.

Com um cenário marcado pela presença do trabalho mecânico colonial, como vimos na história de Antônio Portugal e Antônio da Cunha, ligado às obras religiosas presentes desde o século XVII, existiam um grande quadro de ofícios que demarcavam e movimentavam a colônia. Nas atividades da indústria da cana, por exemplo, tínhamos o ofício de lavrador; nas atividades ligadas ao engenho, como a produção de cana, mandioca e mantimentos, sobretudo, contava-se com carpinteiros, purgadores e mestres de açúcar; havia, também, na economia colonial, os ofícios ligados à criação de gados, como tangerinos, vaqueiros e mercadores275. Contudo, desses ofícios, queremos dar destaque à atividade

mercantil desenvolvida por Pascoal Martins no momento em que este se insere em Recife. A vila de Recife, como já constatamos no capítulo anterior, atraía pessoas de diversas categorias e ofícios, sendo, muita delas provenientes do norte de Portugal, sobretudo do Minho e Douro, e vindas ainda muito jovens. Seguindo os dados de Cabral (2012), tem-se que os agentes mercantis de origem portuguesa que se destacam claramente com maior

271 Id.

272 PEDREIRA, Jorge. Os negociantes de Lisboa na segunda metade do século XVIII: padrões de recrutamento e

percursos sociais. Análise Social, v.XXVII (p. 116-117). Lisboa, 1992 (2º e 3º). p. 411; 414).

273 MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro veio: o imaginário da restauração pernambucana. 3. ed. rev. São Paulo:

Alameda, 2008, p. 225.

274 Id.

275 SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São

Paulo: Cia. das Letras, 1999. Ler também: RIBEIRO JÚNIOR, José. Colonização e Monopólios no Nordeste brasileiro: a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, 1759-1780. São Paulo: Hucitec, 2004.; LISBOA, Breno. Uma Elite em crise: a açucarocracia de Pernambuco e a Câmara Municipal de Olinda nas primeiras décadas do século XVIII. 2011. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2011.

97

representabilidade nessas regiões. As cidades de Minho e Douro juntas somam 69,2%, sendo os primeiros mais numerosos, com 49,5%, e os segundos com 19,7%. Cabral (2012) destaca ainda que, entre os minhotos, “38 eram naturais de Viana, superando o grupo de 33 naturais de Lisboa, a cabeça do império e maior praça mercantil”276. Logo, conclui o autor, “homens

de negócio no Recife provém da região situada entre Viana, Braga e Guimarães”277.

Além desses dados sistematizados e encontrados por Cabral (2012) sobre a região do Minho, têm-se, em sequência, outras localidades, como a de Lisboa, com 10,8%; Estremadura, com 7,2%; Beiras, com 5,2%; 4,9% das Ilhas; 2% não foram identificados; e 0,7% para a região de Alentejo278.

Analisando os trabalhos de Catherine Lugar sobre o grupo de comerciantes de Salvador, Cabral (2012) avalia uma grande maioria dos comerciantes dessa cidade advindos do Minho. Segundo dados, de 85 comerciantes coletados entre 1790 e 1807, 66 tinham origem reinol, ou seja, 78% do total. Deles, os oriundos do Minho (inclusos Braga, Guimarães e Viana), perfaziam 34,8% do total. Depois apareciam os da região de Douro (incluindo o Porto) com 28,8%. De Lisboa, correspondia 18,2%. Sobre os negociantes do Rio de Janeiro, Cavalcanti (2004) concorda com essa visão do autor, ao marcar que os negociantes de grosso trato estabelecidos no Rio de Janeiro dos setecentistas eram, em sua maioria, minhotos. Eles somavam em torno de 130 pessoas. Eram, em sua grande maioria, reinóis da região Norte de Portugal279.

O estudo de Cabral (2012) também oferece dados importantes sobre a idade dos comerciantes vindos de Portugal. Segundo o autor, a partir do levantamento de dados de 189 comerciantes presentes nos processos de habilitação à familiar do Santo Ofício e à Cavalaria da Ordem de Cristo, localizados no Arquivo da Torre do Tombo e pesquisados também no Arquivo Histórico Ultramarino, 130 homens chegavam a Recife antes dos 24 anos de idade, correspondendo a 68% dos homens que tinham alguma atividade mercantil. Dos sujeitos que tinham entre 10 e 14 anos correspondia uma parcela de 25 homens, sendo uma das menores parcelas. A faixa etária mais numerosa era a compreendida entre 15 e 19 anos, com 55 sujeitos. Os homens que tinham idades de 20 a 24 anos seguiam como os mais abundantes, totalizando 50 homens. Os mais velhos, de 25 a 44 anos, compreendiam uma minoria que

276 SOUZA, 2012, p. 99. 277 Id.

278 Id., Ibid.

279 CAVALCANTI, N. O Rio de Janeiro setecentista: A vida e a construção da cidade da invasão francesa até

98

somada resultava em 50 sujeitos, se somar os de idade de 15 a 24 anos280.

Esses dados revelam que os homens portugueses que escolheram os negócios como ofício na América Portuguesa para novos ares, nova vida, eram homens, em sua grande parte, jovens ou, como alguns bígamos, queriam também representar que vieram muito novos, muitas vezes com a justificação de solteiro vir ainda criança ao Brasil. Homens jovens vindos da parte norte de Portugal, que se fixaram e se tornaram prósperos negociantes ou algumas vezes, não. Como essa atividade mudaria suas vidas na América Portuguesa? Como esses elementos do cotidiano desses homens e de outros portugueses acabaram, também, fazendo parte das justificativas de cada um ante a contração de um novo casamento, sendo viva ainda a primeira mulher? É o que descobriremos mais adiante.