Como se verificou, o acesso da propaganda alemã a alguns círculos de opinião portugueses, a partir de 1935, traduziu-se no estreitamento de contactos entre a Hitlerjugend e, à data, a AEV. Esta intimidade precoce entre as duas juventudes, permitiu aos nacional-socialistas influenciar o primeiro percurso da Mocidade Portuguesa, chegando mesmo a monopolizar os intercâmbios com juventudes estrangeiras por ela realizados. Em Portugal, o representante do NSDAP, W.Berner, e o director do Grémio Luso-Alemão, Johannes Roth, protagonizaram esta aproximação, apoiados pelo ministério da Propaganda nazi. Do lado português, as relações foram favorecidas pelos ministros Eusébio Tamagnini e Carneiro Pacheco, assim como o presidente da Acção Escolar Vanguarda, António Almodôvar. 226 O comissário nacional da MP, Nobre Guedes, seria de todos o mais permeável a estes contactos.
Sobrepondo-se à influência italiana e preparando-se para a anunciada constituição de um novo organismo de juventude, quando a AEV era já um movimento vazio e sem efeito, a diplomacia do Reich vinha divulgando a Hitlerjugend em Portugal através da imprensa vanguardista. Em 1935, António Almodôvar viajou até à Alemanha, a convite do ministro alemão em Lisboa, com o vivo apoio do ministro Eusébio Tamagnini. Em Berlim, era conhecida a preparação de uma organização que daria lugar à MP e as impressões recolhidas por Almodôvar poderiam influenciar aquele projecto.227 Mas o alcance desta viagem não ficou registado nas fontes que chegaram até nós, sabendo-se apenas que a Mocidade Portuguesa era já uma realidade próxima. O ciclo de visitas entre a Mocidade e as organizações fascista e nazi não foi encerrado com a fase preliminar da sua constituição. Em 1937, o comandante da ECG, tenente Quintino da Costa, apresentou os resultados de uma missão de estudo a Itália e à Alemanha subsidiada pelo IAC. Do fascismo italiano visitou a O.N. Balilla, a Academia Fascista de Roma e a Academia del Littorio, e na Alemanha, a Escola militar de Munich e a Hitlerjugend. Ali estudou ainda a Escola de Chefes de
226
Simon Kuin, op. cit., p. 569.
227
Tendo consultado a correspondência diplomática alemã sobre este tema, Simon Kuin descreve mais em pormenor o grau de informação então detido pelos negócios estrangeiros do Reich a propósito do fim da AEV e do projecto de constituição da MP. Citando um relatório do ministro da Alemanha em Lisboa, Du Moulin, ao MNE alemão, de 27 de Agosto de 1935, transcreve a seguinte passagem: O ministro da Educação português, que aguarda com muito interesse o regresso dos seus dois representantes, disse-me mais uma vez que a proposta de reorganização do movimento de juventude, que deve ter lugar em Outubro, vai ser baseada nas impressões deles.(...) É lícito supor que o exemplo alemão da ideia nacional-socialista acerca da educação da juventude não deixará de exercer influência aqui se for descrito eficazmente pelos vanguardistas. (Politisches Archiv des Auswärtigen Amtes. Politik 29, Nationalsozialismus, Faschismus und ähnliche Bestrebungen, Band I, Portugal, R 71631).
Potsdam, a Escola de Instrutores de tiro em Themar e a Organização dos Albergues para a Juventude.228
Entre 1937 e 1939, são de facto frequentes as notícias sobre viagens de dirigentes da
Hitlerjugend a Portugal e, também em sentido contrário, dos dirigentes portugueses que visitaram
Berlim com regularidade. A atestar o progresso das relações entre os movimentos oficiais da juventude alemã e portuguesa esteve a participação activa do comissário nacional na viagem da MP a Berlim, por ocasião dos Jogos Olímpicos de 1936. À data, a Mocidade Portuguesa era ainda um organismo em estado embrionário que esperava o primeiro regulamento, sem actividade efectiva nos meios escolares e extra-escolares. A delegação portuguesa levada ao acampamento internacional de juventudes promovidas pelo Reich, por iniciativa de Nobre Guedes, era por isso representativa de uma minoria, conduzindo à capital alemã “29 estudantes voluntários” da Mocidade Portuguesa, sob comando de Quintino da Costa.229 A viagem, que contou com o apoio do ministro Carneiro Pacheco, estendeu-se de finais de Julho aos últimos dias de Agosto, integrando visitas a outras regiões da Alemanha, onde se aprofundaram contactos com a actividade da
HitlerJugend. Dos grupos presentes identificavam-se italianos, ingleses, belgas, dinamarqueses,
entre outros, fazendo-se sentir a ausência francesa. Em balanço final do encontro, que reuniu um total de 25 000 membros da juventude alemã, os portugueses garantiam uma maior proximidade com aquele grupo e os filiados italianos.230
No decurso do encontro, as manifestações da MP incluíram demonstrações de (...) exercícios
demonstrativos da orientação dada à educação física entre nós (...) para além de jogos educativos e
desportos como (...) basket-ball, volley-ball e ring-tennis. O cunho fundamental desta primeira exibição nacionalista da Mocidade Portuguesa coube aos cânticos de folclore português, reinventado pelo Estado Novo, que dele se apropriou como expressão simbólica dos valores ruralistas.231
228
Arquivo do Instituto Camões, Mocidade Portuguesa. 1273/18. Processo n.º 2328, informação de 1937, ao Instituto para a Alta Cultura, sobre as instituições visitadas por Quintino da Costa em Itália e na Alemanha.
229
O relatório do primeiro ano de actividades contava, entre os elementos, alunos do Liceu, de Escolas do Ensino Técnico e Profissional e ainda um representante da Casa Pia, Colégio Militar e Instituto Profissional dos Pupilos do Exército de Terra e Mar. “VI - Relatório da Actividade da M.P.” in Boletim – 1937 (...) p22.
230
Notava-se no mesmo relatório: Os grupos com que melhor se entendia o nosso eram o alemão e o italiano.
A selecção dos participantes portugueses integrava dois filhos de Nobre Guedes, que chefiaram parte do grupo: No trabalho de preparação em Lisboa, o grupo foi dividido em “quinas” a que foram dadas designações: a de D. Afonso Henriques, chefiada por Serpa Pimentel; a de Nun’Alvares, chefiada por Francisco Coutinho Guedes; a do Infante de Sagres, chefiada por José Coutinho Guedes; a de Vasco da Gama, chefiada por Gonçalves Vieira; a de Luís de Camões, chefiada por H. Salgado. Ibidem, p.26.
231
O repertório ensaiado pela Mocidade contemplou as províncias portuguesas de norte a sul e as ilhas: O maestro Hermínio do Nascimento ensaiou o grupo na parte de canto, que foi habilitado a cantar o Hino Nacional, a marcha “Terra Pátria” e as seguintes canções: S. João (Minho), o Sol Anda (Trás-os-Montes), Caninha Verde (Douro), o Vira e o Verde Gaio (Beiras), Cantiga Ribatejana (Estremadura), Solidão (Alentejo), Tia Anica de Loulé (Algarve), Chama Rita (Açores). Alguns rapazes dançavam o “Vira” e o “Verde Gaio”. Ibidem, p.22.
Em Março de 1938, o Jornal da MP anunciou a viagem de Hartmann Lauterbacher a Portugal, em representação oficial da Hitlerjugend, na sequência de um convite do Comissariado português. Em Lisboa, Lauterbacher visitou os centros de instrução especializada da Mocidade, observando depois, em entrevista ao jornal O Século, que existiam (...) muitas afinidades entre a
«Juventude» e a «Mocidade», o que se explica porque a Alemanha e Portugal tiveram a mesma sorte, antes do advento das suas actuais situações políticas.232 Alguns dias antes da realização do
acampamento de 28 de Maio, que aliás ficaria marcado pela polémica gerada em torno da possível visita de Baldur Von Schirach, o mesmo jornal relatou a viagem de um grupo de filiados da HJ à capital portuguesa, para o qual o CN promoveu um passeio aos arredores de Lisboa.233 Notícias
como estas atravessariam os vários números da publicação oficial do comissariado ao longo do ano. Mas a presença alemã entre filiados e dirigentes da Mocidade também se faria sentir pela propaganda cinematográfica e pelos encontros culturais promovidos pelo Reich. Logo em 1936, a MP realizou sessões de divulgação de produções alemãs e italianas, numa das quais Nobre Guedes se encarregou da apresentação:
Vamos ver agora a ressurreição da Itália, como acabamos de ver um quadro da tragédia que a Alemanha viveu antes da subida de Hitler ao poder. O romance em que o pequeno “nazi” deu a vida na luta contra o comunismo, no alvorecer da Alemanha Nova, não anda longe da verdade. (...)
Os pequenos alemães, como os italianos, aprumados e graves, traduzem um estado de espírito nacional que eles têm a certeza firme de manter; formam uma barreira que os males do passado não conseguirão transpor. O nosso país não conheceu dias tão tristes como os que antecederam, na Alemanha e na Itália, a chegada de Hitler e de Mussolini. Mas sofreu também desordem social que teve a fase mais aguda em 1924 e 1925. E teríamos sido arrastados aos piores extremos se o exército português não tivesse reagido em 1926. Foi a sua reacção oportuna que nos salvou. Quis a Providência que o nosso Presidente do Conselho desse consciência ao movimento de força e criasse a doutrina em que apoiou a regeneração pátria.234
A cultura nacional-socialista também chegaria a alguns liceus, pela realização de cursos e palestras sobre a “educação alemã”. No liceu Latino Coelho, em Lamego, por exemplo, a Oração
de Sapiência de 1 de Dezembro de 1938 versou sobre a “Educação alemã”, explorando as
similaridades entre as juventudes dos dois países.235
No ano seguinte, face ao crescendo da onda anti-germânica na opinião pública e, sobretudo, nos meios católicos, o presidente do Grémio Luso-Alemão aconselhou os dirigentes da HJ a restringir as actividades desenvolvidas com a MP. O plano de actividades elaborado pelos nacional-
232
“O sr. Lauterbacher, da Juventude Alemã, visitou oficialmente a «Mocidade Portuguesa»” in Jornal da M.P., n.º 8, Ano I, de 16 de Março de 1938, p.2.
233
“Estiveram em Lisboa alguns rapazes da 'Hitler Yuguend»” [sic] in Jornal da M.P., n.º 12, Ano I, de 15 de Maio de 1938, p.2
234
GUEDES, Francisco Nobre, Mocidade Portuguesa: alguns discursos e escritos do Primeiro Comissário Nacional 1936-1940, Imp. Libânio da Silva, Lisboa, 1940, pp. 31-32.
235
socialistas para aquele ano (que incluía visitas da juventude hitleriana às instalações da Mocidade Portuguesa, provas de vela, cursos especializados para filiados portugueses, entre outras) acabou por ser anulado na sua quase totalidade.236 No início do ano, a Hitlerjugend formou ainda três graduados na escola de Aviação Sem Motor de Grunau.237
Em Setembro de 1939, o Jornal da MP fez publicar a nota oficiosa que declarava a neutralidade portuguesa perante o conflito mundial. A partir desta altura, reinou o silêncio sobre as relações luso-alemãs de juventude e a Mocidade Portuguesa seguiu o caminho da cautela. O acampamento internacional de organizações juvenis, agendado para o ano seguinte, durante as comemorações dos centenários, nunca chegou a realizar-se.
Apesar do emudecimento geral em torno destes intercâmbios juvenis, o interesse pelo funcionamento da juventude alemã manteve-se mesmo, e contra o que se poderia supor, para além do início das hostilidades. Em 1942, em resultado de uma missão de estudo realizada para o Instituto Nacional de Educação Física e com o apoio do IAC, Quintino da Costa publicou um extenso e detalhado relatório sobre a juventude na “Alemanha em Guerra”. Enjeitando decalques daquela organização para a juventude portuguesa, o oficial admitiu no entanto que aquela visita permitia a (...) correcção duns tantos erros aconselhada pela experiência estrangeira e que
devemos respeitar pelo maior caminho que já andaram. 238
3.2.3. Avanços e recuos – linhas de força em confronto