5. Discussion
5.3 Solvents
5.4.7 Alkanes
Pollock caracteriza o externalismo como a posição de que a justificação de uma crença é, ao menos em parte, uma função de considerações externas. Dada sua concepção normativa de justificação ele então distingue duas formas possíveis de externalismo: O ex- ternalismo de crença (belief externalism) defende que as normas epistêmicas devem ser formuladas em termos externalistas. Um externalista deste tipo poderia defender, por exem- plo, a norma “uma crença é epistemicamente permitida se e somente se o que é acreditado é suficientemente provável”, ou a norma confiabilista “é permissível manter uma crença so- mente se ela é gerada por um processo cognitivo confiável”. O externalismo de norma (norm externalism) por sua vez admite que normas epistêmicas devam ser internas, mas ain- da defende a necessidade de considerações externas na escolha de normas corretas. A teoria procedimental é uma teoria internalista porque defende que a justificação epistêmica é ex- clusivamente uma função dos estados internos do sujeito, neste caso, da conformidade de uma crença com as normas epistêmicas de seu sistema cognitivo. Segundo Pollock, a adoção de uma teoria regulativa implica na refutação de qualquer forma de externalismo sobre justi- ficação. A principal razão para isto é o fato de que para normas regularem o raciocínio da
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maneira que ele sugere, deve haver de acessibilidade direta entre as normas e os conteúdos que estas processam.
Eu proponho definir estados internos como estes que são diretamente acessá- veis aos mecanismos em nosso sistema nervoso central que direcionam nosso raciocínio. O sentido em que eles são diretamente acessíveis é o de que o a-
cesso a eles não requerem que nos primeiro tenhamos crenças sobre eles.54
(1986, p. 134, grifo nosso).
Contra o externalismo de crença, o argumento de Pollock simplesmente é o de que normas deste tipo não podem ser internalizadas ou acessadas diretamente e que, portanto, não podem guiar nosso raciocínio. Nós não temos acesso direto a uma norma externalista como “quando a bicicleta estiver inclinada para a direita, incline o corpo para esquerda”, mas apenas a normas do tipo “quando tiver a sensação que está inclinando para a esquer- da...”, pois nós não temos acesso direto a qualquer fato externo. O sistema automático de processamento regido por nossas normas epistêmicas deve acessar informações sem primei- ro termos que fazer julgamentos sobre esta informação. “Nós precisamos ter acesso não- epistêmico”55 (Pollock 1986, p. 133). A utilização de normas confiabilistas ou probabilísti- cas demandaria a posse e o uso de outras crenças prévias – a respeito da confiabilidade de algum processo ou a probabilidade de algum fato – e isto anula a possibilidade que as nor- mas que guiam nosso raciocínio sejam externalistas de alguma forma. Alguém poderia aqui objetar que apesar de julgamentos não serem realizáveis imediatamente, os resultados de julgamentos sobre confiabilidade podem ser processados pelas normas epistêmicas e, por- tanto, a norma confiabilista seria ainda automática. No entanto, esta objeção falha. De qual- quer maneira, o tipo de norma que é defendida por confiabilistas jamais poderia ser o tipo de regra regulativa descrito por Pollock. O que o confiabilista propõe como critério não é que o processo cognitivo que é utilizado para gerar uma crença seja julgado confiável por seu pró- prio sistema, mas que ele seja realmente confiável, e esta condição por definição não é um estado interno.
54 I propose to define internal states as those that are directly accessible to the mechanisms in our central
nervous system that direct our reasoning. The sense in wich they are directly accesible is that acces to them does not require us first to have beliefs about them.
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Ao contrário do externalismo de crenças, o externalismo de normas admite que nor- mas sejam internas na maneira descrita por Pollock, isto é, reguladoras de nosso raciocínio e não-externalistas. Esta posição, no entanto, se opõe ao internalismo ao defender que normas epistêmicas devam ser avaliadas externamente. Por exemplo, “pode ser alegado que um con- junto de normas internalistas é melhor do que o outro se o primeiro é mais confiável em produzir crenças verdadeiras”56 (1986, p. 138). Pollock admite uma boa motivação para o externalismo de normas. De fato, normas regulativas geralmente não são imunes à aprecia- ção. Normas regulativas para a ação, por exemplo, normalmente nos dizem como fazer algo através de outros atos. Assim, andar de bicicleta é uma ação não-básica que requer a realiza- ção de outras ações mais básicas como movimentos de braços, de pernas, etc., que podem ser bastante diferentes. Uma avaliação externalista de ações não-básicas como esta pode servir para mostrar qual a maneira mais eficiente de realizar uma ação, o que significa que algumas normas reguladoras de são melhores do outras.
Embora à primeira vista pareça plausível, o externalismo regulativo de norma tam- bém é rejeitado. Segundo Pollock, esta posição é mantida apenas por uma concepção errô- nea fundamental, uma concepção que justamente visa ser corrigida pela tese central de sua teoria procedimental. A ideia, basicamente, é que considerações ou descobertas sobre confi- abilidade podem sim alterar aspectos de nosso raciocínio, como o acréscimo ou eliminação de certos tipos de inferência, porém, isto não significa nenhuma mudança em nossas normas epistêmicas. Normas epistêmicas internalistas que governam nosso raciocínio “já acomodam criticismo baseado em confiabilidade”57 (1986, p. 140). Para entendermos mais claramente o que Pollock quer dizer com isto, além da concepção naturalista em que ele está se baseando, é útil apresentar o que ele chama de Projeto Oscar. Pollock propõe que nos coloquemos na posição de um engenheiro que pretende construir uma máquina inteligente chamada Oscar. Oscar deve interagir com seu ambiente, aprender da experiência e sobreviver em um ambi- ente razoavelmente complexo e hostil. A questão é “o que nós deveríamos colocar em Oscar para fazê-lo funcionar?”58.
A descrição de Pollock sobre o aprimoramento desta máquina cognitiva pode ser re- sumida da seguinte forma. Em primeiro lugar, como parte de seu aparato orgânico básico, Oscar possuiria (1) sensores perceptuais projetados para detectar aspectos do mundo externo
56 It my be alleged that one set of internalist norms is better than another if the first is more reliable in
producing true beliefs.
57 (…) alredy accommodate criticism based on reliability.
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– sensores de dor, visuais, olfativos, táteis, auditivos, etc. – que forneceriam como outputs estados internos operáveis pelo sistema, (2) uma estrutura conativa para prover metas e mo- tivações como “sempre evitar a dor” e “buscar alimento”, (3) uma espécie de linguagem do pensamento, um sistema de representações mentais que permitisse a formação de pensamen- tos, proposições, crenças e a individuação de objetos, (4) algumas normas epistêmicas que determinam ou geram a disposição que dado certos inputs sensíveis Oscar forme certas crenças, e (5) algumas regras práticas que determinam que dado certas crenças, Oscar se comporte de algumas maneiras específicas. Obviamente, os pensamentos e crenças forma- dos por esse sistema devem estar em uma relação adequada ao ambiente, ou seja, este sis- tema deve funcionar de maneira que seus sensores perceptuais e regras epistêmicas produ- zam crenças que causem Oscar a ter um comportamento favorável à sua sobrevivência.
Este aparato básico é o que o permite reagir ao ambiente e ter a mínima capacidade de permanecer vivo nele. No entanto, em um ambiente complexo as chances de uma máqui- na como esta seriam fatalmente baixas. A razão para isso é o fato de que pequenas altera- ções no ambiente poderiam ser suficientes para que o comportamento a que está programado se tornassem desfavoráveis para o mantimento de sua vida. Por exemplo, uma máquina pro- gramada somente a se afastar um pouco quando seus sensores dor fossem ativados estaria com problemas se subitamente uma grande quantidade dos organismos que causam seus sensores de dor disparar migrassem para o seu nicho. Apenas se afastar de um dos organis- mos não seria suficiente para que ele não fosse morto. Para aprimorar nossa máquina, pode- ríamos instalar sensores de segunda ordem que permitem que Oscar sinta quando está em dor, e adicionar novas normas epistêmicas que o torne hábil a fazer generalizações sobre que tipos de situações causam este tipo de situação e aprender como evitá-las. As novas regras epistêmicas e sensores de segunda ordem devem funcionar de tal forma que permitam que Oscar possua uma forma de self-awareness. Oscar não deve apenar agir automaticamente ao sentir a ativação de seus sensores perceptuais ou a detecção de uma situação que possa ati- var os sensores de dor, mas ser capaz, com o acúmulo de informações, de atentar para o fun- cionamento de seus próprios sensores, aprimorar a percepção dos fatores de seu ambiente e adequar seu comportamento. É importante que Oscar tome as aparências perceptuais como provendo “somente razões em prima facie para conclusões sobre seu mundo físico”59 (1986, p. 152). Ele deve, por exemplo, ser capaz de inibir a ativação de certos comportamentos nas circunstâncias em que já descobriu que sensores de primeira-ordem são às vezes não-
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confiáveis. É este tipo de capacidade de adaptação que realmente torna Oscar bem sucedido e digno de ser chamado de uma máquina inteligente.
Assim, o que Pollock entende por normas epistêmicas são as regras que governam a aquisição e as operações de crenças do sistema de máquinas como Oscar. É claro, a ideia é que nós somos máquinas como Oscar e que nós possuímos regras que governam nossa aqui- sição e uso cognitivo de crenças, ipso facto existem normas epistêmicas como foram defini- das. Isto torna mais claro a razão de Pollock rejeitar o externalismo de norma. Se constatar- mos via acréscimo de informação que uma crença p resulta de um processo confiável, e.g., um novo processo de clarividência (BonJour 1980), isso implica, segundo Pollock, em uma nova permissão para o sistema, mas não em uma nova norma epistêmica. Contudo, alguém poderia imediatamente questionar que, em certo sentido, uma nova permissão claramente corresponde a uma nova regra, e.g., “permitir crenças resultantes de clarividência”. Esta objeção falha, no entanto. Vimos que Oscar deve possuir um sistema cognitivo que o permi- ta julgar a confiabilidade de seus sensores, processos, e adequar o seu processamento de forma a, por exemplo, inibir a formação de crenças em situações onde aprendeu que seus sensores e processos não são confiáveis. Nesses casos, assim como em um caso de julga- mento sobre a confiabilidade de uma inesperada capacidade de clarividência, o que está o- correndo é a regulação de nosso raciocínio por exatamente as mesmas normas epistêmicas. Com a aquisição de novas informações e crenças, o sistema pode sim aprimorar seu funcio- namento para que seu comportamento e aquisições de crença se tornem mais confiáveis, mas o sistema cognitivo (entendido como as normas epistêmicas do sistema) que realiza isto é exatamente o mesmo antes e depois destas aquisições. Não foi adicionada uma nova norma epistêmica como “permitir crenças resultantes de clarividência”. Uma explicação mais ve- rossímil é que foram adquiridas crenças que anulam as razões que antes inibiam à crença nas proposições que parecem resultantes de clarividências para este sistema.